Certo dia, uma mulher estava na cozinha e, ao atiçar a fogueira, deixou cair cinza em cima do seu cão. O cão queixou-se:
—A senhora, por favor, não me queime!
Ela ficou muito espantada: um cão a falar! Até parecia mentira...
Assustada, resolveu bater-lhe com o pau com que mexia a comida. Mas o pau também falou:
—O cão não me fez mal. Não quero bater-lhe!
A senhora já não sabia o que fazer e resolveu contar às vizinhas o que se tinha passado com o cão e o pau. Mas, quando ia sair de casa a porta, com um ar zangado, avisou-a:
—Não saias daqui e pensa no que aconteceu. Os segredos da nossa casa não devem ser espalhados pelos vizinhos.
A senhora percebeu o conselho da porta. Pensou que tudo começara porque tratara mal o seu cão. Então, pediu-lhe desculpa e repartiu o almoço com ele.
Comentário : é fundamental sabermos conviver uns com os outros, assegurar o respeito
Fonte:"Eu conto, tu contas, ele conta... Estórias africanas", org. de Aldónio Gomes, 1999
Este conto “Os Segredos da Nossa Casa” é de origem angolana, recolhido da tradição oral e transmitido como ensinamento moral nas aldeias. Ele faz parte das narrativas em que objetos e animais falam, algo muito comum no imaginário africano, para ensinar sobre convivência, respeito e a preservação da harmonia dentro do lar. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
Este conto ensina-nos quatro lições importantes:
1. O lar é sagrado e deve ser preservado.
A porta lembra à mulher que os problemas da casa não devem ser levados para fora. Na tradição africana, os segredos da família pertencem à família — porque a desunião interna exposta aos outros traz vergonha e enfraquece o clã.
2. Respeito mútuo garante convivência.
O conflito começou porque a mulher tratou mal o cão, esquecendo-se de que cada ser merece respeito. Na cosmovisão africana, até animais e objectos têm espírito e merecem cuidado. O desrespeito quebra a harmonia.
3. A comunidade começa dentro de casa.
Só quando há paz no lar, há equilíbrio na comunidade. A mulher percebe que deve começar pelo respeito dentro de casa — cuidando do cão, da comida, dos objetos — antes de se preocupar com a opinião dos vizinhos.
4. Escutar antes de agir.
Tanto o pau como a porta falam para lembrar que a pressa em reagir, sem pensar, cria mais confusão. A sabedoria africana ensina que quem ouve antes de agir encontra o caminho certo.
Em resumo: A moral deste conto, no contexto africano, é que o respeito dentro de casa é a base da convivência, e os problemas da família devem ser resolvidos em união e silêncio, sem serem espalhados fora. O lar é o primeiro espaço de harmonia da comunidade.
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