Certo dia, a boca, com ar vaidoso, perguntou:
—Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante? Os olhos responderam:
—O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.
—Somos nós, porque ouvimos — disseram os ouvidos.
—Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas, disseram as mãos. Mas o coração também tomou a palavra:
—Então e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!
—E eu trago em mim os alimentos! — interveio a barriga.
—Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.
Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... mas a boca recusou comer. E continuou a recusar.
Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças... Então a boca voltou a perguntar:
—Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?
—És tu boca, responderam todos em coro. Tu és o nosso rei!
FONTE: "Eu conto, tu contas, ele conta... Estórias africanas", org. de Aldónio Gomes, 1999
Este conto “Todos Dependem da Boca” tem origem moçambicana, recolhido da tradição oral e transmitido como fábula moral, típica da literatura africana que ensina através de elementos do corpo humano personificados. Ele segue o padrão das fábulas africanas, em que animais ou órgãos simbolizam lições sobre cooperação, hierarquia e interdependência. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
Este conto ensina-nos quatro lições importantes:
1. A interdependência é fundamental.
Cada órgão representa uma função essencial, mas todos dependem da boca para se alimentar e manter a vida. Na visão africana, isso simboliza que todos na comunidade ou família têm papéis diferentes, mas cada um depende dos outros para sobreviver.
2. A liderança vem com responsabilidade.
A boca só é “rei” porque exerce a função que mantém todos vivos: alimentar-se. Isto reflete o princípio africano de que o poder ou estatuto não se baseia apenas na força ou habilidade, mas na responsabilidade e no cuidado que se exerce em benefício de todos.
3. Reconhecimento do papel de cada um.
O conto mostra que não há funções menores: cada órgão contribui, mas a harmonia depende de todos colaborarem. Na tradição africana, valorizar o esforço e o papel de cada indivíduo na comunidade é essencial.
4. A vida depende da cooperação.
Se um órgão falha ou se recusa a cumprir sua função, todo o corpo sofre. Assim, simbolicamente, na vida africana, a recusa de cooperar dentro da família ou comunidade gera desequilíbrio e sofrimento coletivo.
Em resumo:
A moral africana é que cada membro da comunidade tem um papel essencial, mas a sobrevivência e o bem-estar de todos dependem da cooperação. A liderança responsável e o reconhecimento da função de cada um são fundamentais para a harmonia coletiva.
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