NARRAÇÃO

domingo, 31 de agosto de 2025

21 - TODOS DEPENDEM DA BOCA...

 

Certo dia, a boca, com ar vaidoso, perguntou:

—Embora o corpo seja um só, qual é o órgão mais importante? Os olhos responderam:

—O órgão mais importante somos nós: observamos o que se passa e vemos as coisas.

—Somos nós, porque ouvimos — disseram os ouvidos.

—Estão enganados. Nós é que somos mais importantes porque agarramos as coisas, disseram as mãos. Mas o coração também tomou a palavra:

—Então e eu? Eu é que sou importante: faço funcionar todo o corpo!

—E eu trago em mim os alimentos! — interveio a barriga.

—Olha! Importante é aguentar todo o corpo como nós, as pernas, fazemos.

Estavam nisto quando a mulher trouxe a massa, chamando-os para comer. Então os olhos viram a massa, o coração emocionou-se, a barriga esperou ficar farta, os ouvidos escutavam, as mãos podiam tirar bocados, as pernas andaram... mas a boca recusou comer. E continuou a recusar.

Por isso, todos os outros órgãos começaram a ficar sem forças... Então a boca voltou a perguntar:

—Afinal qual é o órgão mais importante no corpo?

—És tu boca, responderam todos em coro. Tu és o nosso rei!

 

FONTE: "Eu conto, tu contas, ele conta... Estórias africanas", org. de Aldónio Gomes, 1999

 

Este conto “Todos Dependem da Boca” tem origem moçambicana, recolhido da tradição oral e transmitido como fábula moral, típica da literatura africana que ensina através de elementos do corpo humano personificados. Ele segue o padrão das fábulas africanas, em que animais ou órgãos simbolizam lições sobre cooperação, hierarquia e interdependência. (grifo nosso)

 

  

MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

Este conto ensina-nos quatro lições importantes:

1. A interdependência é fundamental.

Cada órgão representa uma função essencial, mas todos dependem da boca para se alimentar e manter a vida. Na visão africana, isso simboliza que todos na comunidade ou família têm papéis diferentes, mas cada um depende dos outros para sobreviver.

2. A liderança vem com responsabilidade.

A boca só é “rei” porque exerce a função que mantém todos vivos: alimentar-se. Isto reflete o princípio africano de que o poder ou estatuto não se baseia apenas na força ou habilidade, mas na responsabilidade e no cuidado que se exerce em benefício de todos.

3. Reconhecimento do papel de cada um.

O conto mostra que não há funções menores: cada órgão contribui, mas a harmonia depende de todos colaborarem. Na tradição africana, valorizar o esforço e o papel de cada indivíduo na comunidade é essencial.

4. A vida depende da cooperação.

Se um órgão falha ou se recusa a cumprir sua função, todo o corpo sofre. Assim, simbolicamente, na vida africana, a recusa de cooperar dentro da família ou comunidade gera desequilíbrio e sofrimento coletivo.

 Em resumo:

A moral africana é que cada membro da comunidade tem um papel essencial, mas a sobrevivência e o bem-estar de todos dependem da cooperação. A liderança responsável e o reconhecimento da função de cada um são fundamentais para a harmonia coletiva.

 

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