NARRAÇÃO

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

31 - PORQUE É QUE OS CÃES SE CHEIRAM UNS AOS OUTROS

 

Há muito tempo, quando os cães ainda não tinham sido domesticados pelo homem, viviam organizados em dois países. Cada país tinha um chefe e cada chefe gabava-se de ser mais poderoso que o outro. Um desses chefes quis um dia casar com a irmã do outro. Mas, como eles estavam sempre zangados, o outro respondeu:

—Não. Não quero que sejas o marido da minha irmã.

O chefe que queria casar ficou furioso, porque gostava muito da irmã do outro chefe. Por isso mandou um dos seus servidores à terra do outro para lhe dizer:

—Se me recusas a tua irmã eu vou aí com o meu exército e destruo tudo. Quando o servidor se preparava para partir, os conselheiros do chefe viram que ele estava todo sujo. Não tinha lavado a cara e tinha a cauda muito suja.

Ora era costume naqueles países uma pessoa ir limpa e bem apresentada quando ia à terra dos pais da noiva pedir-lhes a filha em casamento. Por isso perguntaram-lhe:

—Como se compreende que não te tenhas lavado?

Ele ficou muito envergonhado e os conselheiros encarregaram outros servidores de o lavarem muito bem e de lhe deitarem perfume na cauda para que ele cheirasse bem.

Quando o mensageiro ia pelo caminho, sentia-se muito vaidoso por ir tão limpo e com a cauda perfumada. Por isso esqueceu-se do que ia fazer. Começou a procurar uma esposa para ele próprio e desapareceu sem cumprir a sua tarefa até hoje.

É por isso que, desde essa altura, os cães andam todos sempre muito ocupados a cheirar a cauda uns dos outros para ver se encontram o mensageiro que desapareceu.

 

Fonte: Contos Moçambicanos: INLD, 1979

 Este tipo de narrativa é encontrado em tradições orais da África Austral e Central, sobretudo entre povos que preservaram fábulas etiológicas (as que explicam a origem de costumes ou fenómenos naturais). O conto “Porque é que os cães se cheiram uns aos outros” circula em versões de Moçambique e Angola, recolhidas em coletâneas de contos tradicionais africanos no século XX (por exemplo, nos Contos Moçambicanos do INLD, 1979).

Assim, podemos atribuí-lo com segurança à tradição oral moçambicana, ainda que variantes semelhantes existam em outras regiões da África de língua portuguesa. (grifo nosso)

 

 MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

O conto ensina quatro lições importantes:

 1. Orgulho e vaidade podem desviar-nos da missão principal.

O mensageiro, em vez de cumprir a palavra do chefe, deixou-se levar pela vaidade do perfume e esqueceu a sua responsabilidade.

2. Nas comunidades africanas, a palavra dada tem valor sagrado.

Quem falha ao cumprir uma mensagem importante quebra a confiança da comunidade e pode gerar conflito ou desordem.

 3. A cooperação e a disciplina são mais fortes que o exibicionismo.

O conto lembra que, nas culturas africanas, a harmonia da comunidade depende de cada um cumprir a sua parte com humildade.

4. Explicação simbólica de costumes e comportamentos.

Ao transformar a falha do mensageiro numa razão “mítica” para o hábito dos cães cheirarem-se, o conto cumpre uma função pedagógica: transmitir valores (responsabilidade, seriedade, respeito pelos ritos) enquanto diverte e ensina às crianças porque “as coisas são como são”.

Portanto, “Quem se deixa levar pela vaidade esquece o dever, e quem esquece o dever põe em risco a comunidade. A palavra dada deve ser cumprida com humildade e seriedade.”

 

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