Há muito tempo, quando os cães ainda não tinham sido domesticados pelo homem, viviam organizados em dois países. Cada país tinha um chefe e cada chefe gabava-se de ser mais poderoso que o outro. Um desses chefes quis um dia casar com a irmã do outro. Mas, como eles estavam sempre zangados, o outro respondeu:
—Não. Não quero que sejas o marido da minha irmã.
O chefe que queria casar ficou furioso, porque gostava muito da irmã do outro chefe. Por isso mandou um dos seus servidores à terra do outro para lhe dizer:
—Se me recusas a tua irmã eu vou aí com o meu exército e destruo tudo. Quando o servidor se preparava para partir, os conselheiros do chefe viram que ele estava todo sujo. Não tinha lavado a cara e tinha a cauda muito suja.
Ora era costume naqueles países uma pessoa ir limpa e bem apresentada quando ia à terra dos pais da noiva pedir-lhes a filha em casamento. Por isso perguntaram-lhe:
—Como se compreende que não te tenhas lavado?
Ele ficou muito envergonhado e os conselheiros encarregaram outros servidores de o lavarem muito bem e de lhe deitarem perfume na cauda para que ele cheirasse bem.
Quando o mensageiro ia pelo caminho, sentia-se muito vaidoso por ir tão limpo e com a cauda perfumada. Por isso esqueceu-se do que ia fazer. Começou a procurar uma esposa para ele próprio e desapareceu sem cumprir a sua tarefa até hoje.
É por isso que, desde essa altura, os cães andam todos sempre muito ocupados a cheirar a cauda uns dos outros para ver se encontram o mensageiro que desapareceu.
Fonte: Contos Moçambicanos: INLD, 1979
Este tipo de narrativa é encontrado em tradições orais da África Austral e Central, sobretudo entre povos que preservaram fábulas etiológicas (as que explicam a origem de costumes ou fenómenos naturais). O conto “Porque é que os cães se cheiram uns aos outros” circula em versões de Moçambique e Angola, recolhidas em coletâneas de contos tradicionais africanos no século XX (por exemplo, nos Contos Moçambicanos do INLD, 1979).
Assim, podemos atribuí-lo com segurança à tradição oral moçambicana, ainda que variantes semelhantes existam em outras regiões da África de língua portuguesa. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
O conto ensina quatro lições importantes:
1. Orgulho e vaidade podem desviar-nos da missão principal.
O mensageiro, em vez de cumprir a palavra do chefe, deixou-se levar pela vaidade do perfume e esqueceu a sua responsabilidade.
2. Nas comunidades africanas, a palavra dada tem valor sagrado.
Quem falha ao cumprir uma mensagem importante quebra a confiança da comunidade e pode gerar conflito ou desordem.
3. A cooperação e a disciplina são mais fortes que o exibicionismo.
O conto lembra que, nas culturas africanas, a harmonia da comunidade depende de cada um cumprir a sua parte com humildade.
4. Explicação simbólica de costumes e comportamentos.
Ao transformar a falha do mensageiro numa razão “mítica” para o hábito dos cães cheirarem-se, o conto cumpre uma função pedagógica: transmitir valores (responsabilidade, seriedade, respeito pelos ritos) enquanto diverte e ensina às crianças porque “as coisas são como são”.
Portanto, “Quem se deixa levar pela vaidade esquece o dever, e quem esquece o dever põe em risco a comunidade. A palavra dada deve ser cumprida com humildade e seriedade.”
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