Provérbio: “Quem ouve apenas um tambor, dança sempre na mesma batida.”
No coração do
reino de Kwanza-Ndongo, havia um soberano chamado Rei Kiwetu,
homem de grande bravura e justiça, mas que, como todo humano, carregava também
dúvidas e inseguranças. Era um governante amado, mas a cada decisão sentia o
peso de milhares de olhos voltados para ele.
O rei possuía
dois conselheiros principais, ambos respeitados, porém diferentes como a noite
e o dia.
- O primeiro chamava-se N’Goma, homem
de fala doce e postura curvada. Ele era rápido em agradar, dizendo sempre
o que o rei queria ouvir. Jamais ousava contrariar o soberano.
- O segundo era Bemba, de olhar firme e
língua afiada. Não temia dizer verdades amargas, mesmo que ferissem o
orgulho real.
O tempo
mostraria qual dos dois realmente desejava o bem do povo.
Certo dia,
chegaram mensageiros trazendo notícia sombria: o reino vizinho, Mbanza-Kongo,
planeava invadir Kwanza-Ndongo para tomar suas terras férteis junto ao rio.
O povo
murmurava em desespero, e todos aguardavam a decisão do rei. Kiwetu convocou os
dois conselheiros à sala do trono, para ouvir suas opiniões.
N’Goma foi o
primeiro a falar. Aproximou-se com reverência, inclinando-se exageradamente, e
disse:
— Grande leão do nosso povo, tua força é inigualável, teu exército é
invencível. Se fores à guerra, esmagarás teus inimigos como se fossem formigas
debaixo dos pés.
Kiwetu sorriu,
satisfeito com a adulação.
Mas Bemba ergueu a mão e falou em tom grave:
— Majestade, não subestimeis o inimigo. O reino de Mbanza-Kongo é forte, e seus
guerreiros são muitos. Se fores à guerra sem preparo, perderemos sangue e
colheitas. A vitória não está apenas na espada, mas também na cabeça.
O rei franziu
o cenho. Não gostava de ser contrariado. No entanto, ordenou que os dois
elaborassem um plano.
No conselho seguinte, N’Goma apresentou seu
plano.
— Ó rei, devemos atacar imediatamente. Uma guerra rápida trará glória ao teu
nome. Não precisamos de preparação, pois os deuses estão do nosso lado.
O rei,
novamente envaidecido, quase aceitou sem pensar.
Mas Bemba pediu a palavra:
— Majestade, em vez de lançar o povo ao perigo, proponho enviar mensageiros de
paz, enquanto fortalecemos nossas defesas. Se a paz falhar, lutaremos
preparados.
O rei,
dividido, resolveu testar ambos. Deu a N’Goma a responsabilidade de conduzir
uma tropa contra uma pequena aldeia vizinha, como ensaio. E deu a Bemba a
missão de negociar com os chefes de outra fronteira.
N’Goma, cheio
de confiança e vaidade, reuniu guerreiros às pressas e partiu. Ignorou os
sinais de emboscada, não ouviu os caçadores locais que o avisaram sobre o
terreno, e atacou imprudentemente. O resultado foi desastroso: perdeu metade
dos homens, e voltou humilhado, com feridas e vergonha.
Enquanto isso,
Bemba foi às aldeias vizinhas levando presentes: sal, panos de ráfia e
histórias. Sentou-se com os chefes, ouviu suas queixas, fez alianças.
Convenceu-os a se unirem ao reino de Kwanza-Ndongo contra a ameaça comum.
Voltou ao rei não com derrotas, mas com novos aliados e promessas de
cooperação.
O povo
reuniu-se na praça para ouvir o resultado.
O rei chamou N’Goma e Bemba diante de todos.
— N’Goma, que me disseste? — perguntou.
O conselheiro, de cabeça baixa, respondeu:
— Eu disse que a força bastaria… mas falhei, meu rei.
— E tu, Bemba,
que me disseste?
— Eu disse que
a guerra sem preparo é caminho para a morte. Com a paciência da palavra, trouxe
novos aliados.
O povo
aplaudiu em uníssono.
Kiwetu, emocionado, ergueu-se e declarou:
— Aprendi que o ouvido do rei não pode ouvir apenas o que lhe agrada. Precisa
ouvir também o que dói, mas salva.
E, diante de
todos, nomeou Bemba Conselheiro Supremo do Reino, agradecendo-lhe pela
coragem de falar a verdade.
N’Goma,
envergonhado, pediu perdão ao povo. O rei, magnânimo, perdoou-o, mas advertiu:
— Que este erro te ensine que adular é tão perigoso quanto mentir.
Graças à
aliança feita por Bemba, o reino de Kwanza-Ndongo fortaleceu-se. Quando
finalmente os guerreiros de Mbanza-Kongo tentaram atacar, encontraram não um
reino isolado, mas uma confederação de aldeias unidas. A guerra nunca chegou a
acontecer, pois o inimigo recuou diante da força da união.
O nome de
Bemba ficou gravado como exemplo de sabedoria e coragem para dizer a verdade,
enquanto N’Goma tornou-se lembrança viva do perigo da bajulação.
MORAL DA HISTÓRIA
Tal como na tradição oral africana, onde os provérbios e histórias sempre funcionaram como bússolas éticas, este relato ecoa a memória coletiva de que a sabedoria não está na força bruta nem no aplauso fácil, mas na coragem de ouvir múltiplos tambores, ou seja, várias vozes e experiências; é uma metáfora de resistência porque lembra que só comunidades unidas pela escuta crítica vencem as crises, é memória porque preserva a lição dos ancestrais contra a bajulação, e é identidade porque reafirma o valor africano da palavra como arma maior do que a espada. Portanto, O governante sábio é aquele que ouve vozes diferentes, pois a verdade não mora apenas no elogio, mas também na crítica sincera.
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