NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

9 - 👑 O REI E OS DOIS CONSELHOS

 

Provérbio: “Quem ouve apenas um tambor, dança sempre na mesma batida.”

 

No coração do reino de Kwanza-Ndongo, havia um soberano chamado Rei Kiwetu, homem de grande bravura e justiça, mas que, como todo humano, carregava também dúvidas e inseguranças. Era um governante amado, mas a cada decisão sentia o peso de milhares de olhos voltados para ele.

O rei possuía dois conselheiros principais, ambos respeitados, porém diferentes como a noite e o dia.

  • O primeiro chamava-se N’Goma, homem de fala doce e postura curvada. Ele era rápido em agradar, dizendo sempre o que o rei queria ouvir. Jamais ousava contrariar o soberano.
  • O segundo era Bemba, de olhar firme e língua afiada. Não temia dizer verdades amargas, mesmo que ferissem o orgulho real.

O tempo mostraria qual dos dois realmente desejava o bem do povo.

Certo dia, chegaram mensageiros trazendo notícia sombria: o reino vizinho, Mbanza-Kongo, planeava invadir Kwanza-Ndongo para tomar suas terras férteis junto ao rio.

O povo murmurava em desespero, e todos aguardavam a decisão do rei. Kiwetu convocou os dois conselheiros à sala do trono, para ouvir suas opiniões.

N’Goma foi o primeiro a falar. Aproximou-se com reverência, inclinando-se exageradamente, e disse:
— Grande leão do nosso povo, tua força é inigualável, teu exército é invencível. Se fores à guerra, esmagarás teus inimigos como se fossem formigas debaixo dos pés.

Kiwetu sorriu, satisfeito com a adulação.

Mas Bemba ergueu a mão e falou em tom grave:
— Majestade, não subestimeis o inimigo. O reino de Mbanza-Kongo é forte, e seus guerreiros são muitos. Se fores à guerra sem preparo, perderemos sangue e colheitas. A vitória não está apenas na espada, mas também na cabeça.

O rei franziu o cenho. Não gostava de ser contrariado. No entanto, ordenou que os dois elaborassem um plano.

No conselho seguinte, N’Goma apresentou seu plano.
— Ó rei, devemos atacar imediatamente. Uma guerra rápida trará glória ao teu nome. Não precisamos de preparação, pois os deuses estão do nosso lado.

O rei, novamente envaidecido, quase aceitou sem pensar.

Mas Bemba pediu a palavra:
— Majestade, em vez de lançar o povo ao perigo, proponho enviar mensageiros de paz, enquanto fortalecemos nossas defesas. Se a paz falhar, lutaremos preparados.

O rei, dividido, resolveu testar ambos. Deu a N’Goma a responsabilidade de conduzir uma tropa contra uma pequena aldeia vizinha, como ensaio. E deu a Bemba a missão de negociar com os chefes de outra fronteira.

N’Goma, cheio de confiança e vaidade, reuniu guerreiros às pressas e partiu. Ignorou os sinais de emboscada, não ouviu os caçadores locais que o avisaram sobre o terreno, e atacou imprudentemente. O resultado foi desastroso: perdeu metade dos homens, e voltou humilhado, com feridas e vergonha.

Enquanto isso, Bemba foi às aldeias vizinhas levando presentes: sal, panos de ráfia e histórias. Sentou-se com os chefes, ouviu suas queixas, fez alianças. Convenceu-os a se unirem ao reino de Kwanza-Ndongo contra a ameaça comum. Voltou ao rei não com derrotas, mas com novos aliados e promessas de cooperação.

O povo reuniu-se na praça para ouvir o resultado.

O rei chamou N’Goma e Bemba diante de todos.
— N’Goma, que me disseste? — perguntou.

O conselheiro, de cabeça baixa, respondeu:
— Eu disse que a força bastaria… mas falhei, meu rei.

— E tu, Bemba, que me disseste?

— Eu disse que a guerra sem preparo é caminho para a morte. Com a paciência da palavra, trouxe novos aliados.

O povo aplaudiu em uníssono.

Kiwetu, emocionado, ergueu-se e declarou:
— Aprendi que o ouvido do rei não pode ouvir apenas o que lhe agrada. Precisa ouvir também o que dói, mas salva.

E, diante de todos, nomeou Bemba Conselheiro Supremo do Reino, agradecendo-lhe pela coragem de falar a verdade.

N’Goma, envergonhado, pediu perdão ao povo. O rei, magnânimo, perdoou-o, mas advertiu:
— Que este erro te ensine que adular é tão perigoso quanto mentir.

Graças à aliança feita por Bemba, o reino de Kwanza-Ndongo fortaleceu-se. Quando finalmente os guerreiros de Mbanza-Kongo tentaram atacar, encontraram não um reino isolado, mas uma confederação de aldeias unidas. A guerra nunca chegou a acontecer, pois o inimigo recuou diante da força da união.

O nome de Bemba ficou gravado como exemplo de sabedoria e coragem para dizer a verdade, enquanto N’Goma tornou-se lembrança viva do perigo da bajulação.

 

MORAL DA HISTÓRIA

 Este conto mostra que na vida africana de hoje, assim como no passado, o maior perigo para líderes, jovens e comunidades não é apenas o inimigo externo, mas a cegueira que nasce de ouvir apenas o que massageia o ego — seja na política, na família ou no trabalho; muitos governantes, patrões e até pais ainda preferem o conselho doce que mantém as aparências, em vez da verdade amarga que pode salvar vidas e futuros. 

Tal como na tradição oral africana, onde os provérbios e histórias sempre funcionaram como bússolas éticas, este relato ecoa a memória coletiva de que a sabedoria não está na força bruta nem no aplauso fácil, mas na coragem de ouvir múltiplos tambores, ou seja, várias vozes e experiências; é uma metáfora de resistência porque lembra que só comunidades unidas pela escuta crítica vencem as crises, é memória porque preserva a lição dos ancestrais contra a bajulação, e é identidade porque reafirma o valor africano da palavra como arma maior do que a espada. Portanto, O governante sábio é aquele que ouve vozes diferentes, pois a verdade não mora apenas no elogio, mas também na crítica sincera.

 


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