Provérbio: “Quando o tambor se parte, a dança do povo também se cala.”
No antigo
reino de N’Gola, o tambor não era apenas um instrumento musical: era o coração
da comunidade. Cada batida ecoava como a pulsação do povo, marcando
casamentos, funerais, colheitas e guerras. O mais sagrado de todos os tambores
chamava-se Ngoma Ya Moyo — o Tambor da Vida. Ele era guardado na casa
dos anciãos, coberto de panos de ráfia e protegido por oferendas.
O tambor havia
sido passado de geração em geração, e dizia-se que fora moldado com madeira do
primeiro baobá da savana. Seu som profundo era capaz de unir aldeias distantes
e reconciliar inimigos em tempos de desavença.
Mas um dia, o
que parecia impossível aconteceu. O tambor sagrado rachou.
Era noite de
lua cheia. Os jovens tocavam o Ngoma Ya Moyo em celebração à colheita
abundante de milho e feijão. De repente, um som estranho ecoou: em vez do grave
que fazia o peito estremecer, ouviu-se um estalo seco. O couro rompeu-se, a
madeira abriu-se ao meio. O tambor estava partido.
O povo entrou
em pânico. Alguns murmuraram que era castigo dos ancestrais; outros acusavam os
jovens de terem tocado com demasiada força. Em pouco tempo, a aldeia estava
dividida.
Dois grupos
surgiram: o de Chuma, um dos anciãos, que defendia que o tambor devia
ser enterrado como um espírito morto, e o de Ayo, um jovem aprendiz de
ferreiro, que acreditava que o tambor podia ser restaurado.
— Quem ousa
remendar o coração do povo? — gritava Chuma. — O tambor viveu, cumpriu sua
missão, e deve descansar!
— Não, ancião!
— respondia Ayo. — O tambor ainda tem voz. Só precisa de novas mãos para
despertar.
A discussão
foi crescendo até chegar ao ouvido do rei Mwenda, um homem de fala calma
e olhar profundo, conhecido por sua justiça.
Reunidos na
grande praça, diante da árvore de mulemba, o rei escutou as duas partes.
Chuma falou
primeiro, apoiando-se em seu cajado entalhado:
— Majestade, este tambor é espírito, não objeto. Quem tentar restaurá-lo
desafiará os ancestrais. Deve ser enterrado com ritos sagrados, para que não
amaldiçoe nosso povo.
Em seguida, Ayo ergueu a voz, firme, mas
respeitosa:
— Ó rei, um tambor não é apenas madeira e couro; é memória. Se enterrarmos o
Ngoma Ya Moyo, perderemos o elo com nossos pais e avós. Permita-me tentar
restaurá-lo. Se falhar, aceitarei o destino do tambor.
A praça
murmurou, dividida entre o respeito ao ancião e a ousadia do jovem. Mwenda,
pensativo, ergueu a mão pedindo silêncio.
— A verdade
não se decide no grito — disse. — Faremos um julgamento diante de todos.
Na manhã
seguinte, o tambor rachado foi colocado no centro da praça. O rei estabeleceu a
prova: cada um deveria mostrar, diante de todos, o destino que defendia para o
tambor.
Chuma, com
passos lentos, aproximou-se primeiro. Cobriu o tambor com panos brancos e
entoou um cântico fúnebre. As mulheres ululavam, os homens batiam palmas
compassadas. A cena era solene, e muitos choraram.
Quando terminou, disse:
— Vede como o povo sente a morte do tambor. Ele deve ser honrado como um
ancião.
O rei assentiu
e fez sinal para Ayo.
O jovem, sem
cerimônias, ajoelhou-se ao lado do tambor. Retirou das suas costas um pequeno
saco de couro e espalhou ferramentas simples: lascas de ferro, cordas de fibra,
e pedaços de couro curtido. Trabalhou em silêncio. Ajustou a madeira rachada,
prendeu as fibras com firmeza e esticou o novo couro sobre a boca do tambor. O
povo observava em expectativa.
Então, Ayo
levantou-se, respirou fundo e bateu suavemente no tambor restaurado.
BUM… BUM… BUM…
O som grave
ecoou pela savana. Não era tão perfeito como antes, mas vivo, quente, cheio de
alma. As crianças começaram a dançar. As mulheres acompanharam com palmas. Até
os anciãos não conseguiram conter o sorriso.
Ayo ergueu a voz:
— Vede! O tambor vive outra vez. Não o enterramos; demos-lhe uma segunda vida.
Assim como nós, que caímos e nos levantamos, o tambor também pode renascer.
O rei Mwenda levantou-se, imponente, e declarou:
— O tambor é como o povo. Pode rachar, pode sangrar, pode cair. Mas enquanto
houver mãos dispostas a restaurá-lo, ele viverá. A morte só vem quando
desistimos de lutar.
Apontou para Ayo:
— O jovem mostrou coragem e fé. Assim será lembrado.
E voltou-se para Chuma:
— Ancião, honras-te o tambor como espírito. Mas também é espírito manter viva a
memória, não enterrá-la.
Assim, o rei
decretou que o Ngoma Ya Moyo continuaria a ser usado, como símbolo da
resistência do povo.
Os anos
passaram, e o tambor restaurado ainda batia nas festas e rituais. Sua cicatriz
era visível, mas tornou-se motivo de orgulho: lembrava que até o que se parte
pode se recompor.
Ayo tornou-se
grande ferreiro e guardião do tambor. Chuma, apesar da derrota, reconheceu que
havia sabedoria no jovem e tornou-se seu conselheiro.
Dizia-se,
desde então, que no reino de N’Gola não havia medo das rachaduras da vida,
porque sabiam que cada cicatriz podia ser uma nova canção.
MORAL DA
HISTÓRIA
O conto O Julgamento do Tambor Partido lembra-nos que, na África contemporânea, os “tambores rachados” — escolas precárias, sistemas de saúde frágeis, culturas marginalizadas e juventudes sem oportunidades — não devem ser enterrados como se fossem derrotas definitivas, mas restaurados com criatividade, coragem e fé na reconstrução. Tal como Ayo, a juventude africana é chamada a transformar ruínas em recomeços, mostrando que as cicatrizes podem ser sinais de resistência e não de fraqueza.
Na tradição oral africana, o tambor simboliza o
elo entre vivos e ancestrais, memória coletiva e identidade partilhada; ao ser
restaurado e continuar a tocar, ele reafirma a ideia de que mesmo partidos
podemos renascer. Este conto, ao articular conflito, julgamento público e
reconciliação, inscreve-se na lógica da oralidade africana, onde a narrativa é
ensinamento e metáfora: a comunidade só cala quando aceita o silêncio imposto,
mas enquanto houver mãos e vozes dispostas a restaurar o som, a dança do povo
continua viva.
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