NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

8 - 👑 O JULGAMENTO DO TAMBOR PARTIDO

 

Provérbio: “Quando o tambor se parte, a dança do povo também se cala.”

 

No antigo reino de N’Gola, o tambor não era apenas um instrumento musical: era o coração da comunidade. Cada batida ecoava como a pulsação do povo, marcando casamentos, funerais, colheitas e guerras. O mais sagrado de todos os tambores chamava-se Ngoma Ya Moyo — o Tambor da Vida. Ele era guardado na casa dos anciãos, coberto de panos de ráfia e protegido por oferendas.

O tambor havia sido passado de geração em geração, e dizia-se que fora moldado com madeira do primeiro baobá da savana. Seu som profundo era capaz de unir aldeias distantes e reconciliar inimigos em tempos de desavença.

Mas um dia, o que parecia impossível aconteceu. O tambor sagrado rachou.

Era noite de lua cheia. Os jovens tocavam o Ngoma Ya Moyo em celebração à colheita abundante de milho e feijão. De repente, um som estranho ecoou: em vez do grave que fazia o peito estremecer, ouviu-se um estalo seco. O couro rompeu-se, a madeira abriu-se ao meio. O tambor estava partido.

O povo entrou em pânico. Alguns murmuraram que era castigo dos ancestrais; outros acusavam os jovens de terem tocado com demasiada força. Em pouco tempo, a aldeia estava dividida.

Dois grupos surgiram: o de Chuma, um dos anciãos, que defendia que o tambor devia ser enterrado como um espírito morto, e o de Ayo, um jovem aprendiz de ferreiro, que acreditava que o tambor podia ser restaurado.

— Quem ousa remendar o coração do povo? — gritava Chuma. — O tambor viveu, cumpriu sua missão, e deve descansar!

— Não, ancião! — respondia Ayo. — O tambor ainda tem voz. Só precisa de novas mãos para despertar.

A discussão foi crescendo até chegar ao ouvido do rei Mwenda, um homem de fala calma e olhar profundo, conhecido por sua justiça.

Reunidos na grande praça, diante da árvore de mulemba, o rei escutou as duas partes.

Chuma falou primeiro, apoiando-se em seu cajado entalhado:
— Majestade, este tambor é espírito, não objeto. Quem tentar restaurá-lo desafiará os ancestrais. Deve ser enterrado com ritos sagrados, para que não amaldiçoe nosso povo.

Em seguida, Ayo ergueu a voz, firme, mas respeitosa:
— Ó rei, um tambor não é apenas madeira e couro; é memória. Se enterrarmos o Ngoma Ya Moyo, perderemos o elo com nossos pais e avós. Permita-me tentar restaurá-lo. Se falhar, aceitarei o destino do tambor.

A praça murmurou, dividida entre o respeito ao ancião e a ousadia do jovem. Mwenda, pensativo, ergueu a mão pedindo silêncio.

— A verdade não se decide no grito — disse. — Faremos um julgamento diante de todos.

Na manhã seguinte, o tambor rachado foi colocado no centro da praça. O rei estabeleceu a prova: cada um deveria mostrar, diante de todos, o destino que defendia para o tambor.

Chuma, com passos lentos, aproximou-se primeiro. Cobriu o tambor com panos brancos e entoou um cântico fúnebre. As mulheres ululavam, os homens batiam palmas compassadas. A cena era solene, e muitos choraram.

Quando terminou, disse:
— Vede como o povo sente a morte do tambor. Ele deve ser honrado como um ancião.

O rei assentiu e fez sinal para Ayo.

O jovem, sem cerimônias, ajoelhou-se ao lado do tambor. Retirou das suas costas um pequeno saco de couro e espalhou ferramentas simples: lascas de ferro, cordas de fibra, e pedaços de couro curtido. Trabalhou em silêncio. Ajustou a madeira rachada, prendeu as fibras com firmeza e esticou o novo couro sobre a boca do tambor. O povo observava em expectativa.

Então, Ayo levantou-se, respirou fundo e bateu suavemente no tambor restaurado.

BUM… BUM… BUM…

O som grave ecoou pela savana. Não era tão perfeito como antes, mas vivo, quente, cheio de alma. As crianças começaram a dançar. As mulheres acompanharam com palmas. Até os anciãos não conseguiram conter o sorriso.

Ayo ergueu a voz:
— Vede! O tambor vive outra vez. Não o enterramos; demos-lhe uma segunda vida. Assim como nós, que caímos e nos levantamos, o tambor também pode renascer.

O rei Mwenda levantou-se, imponente, e declarou:
— O tambor é como o povo. Pode rachar, pode sangrar, pode cair. Mas enquanto houver mãos dispostas a restaurá-lo, ele viverá. A morte só vem quando desistimos de lutar.

Apontou para Ayo:
— O jovem mostrou coragem e fé. Assim será lembrado.

E voltou-se para Chuma:
— Ancião, honras-te o tambor como espírito. Mas também é espírito manter viva a memória, não enterrá-la.

Assim, o rei decretou que o Ngoma Ya Moyo continuaria a ser usado, como símbolo da resistência do povo.

Os anos passaram, e o tambor restaurado ainda batia nas festas e rituais. Sua cicatriz era visível, mas tornou-se motivo de orgulho: lembrava que até o que se parte pode se recompor.

Ayo tornou-se grande ferreiro e guardião do tambor. Chuma, apesar da derrota, reconheceu que havia sabedoria no jovem e tornou-se seu conselheiro.

Dizia-se, desde então, que no reino de N’Gola não havia medo das rachaduras da vida, porque sabiam que cada cicatriz podia ser uma nova canção.

 

MORAL DA HISTÓRIA

O conto O Julgamento do Tambor Partido lembra-nos que, na África contemporânea, os “tambores rachados” — escolas precárias, sistemas de saúde frágeis, culturas marginalizadas e juventudes sem oportunidades — não devem ser enterrados como se fossem derrotas definitivas, mas restaurados com criatividade, coragem e fé na reconstrução. Tal como Ayo, a juventude africana é chamada a transformar ruínas em recomeços, mostrando que as cicatrizes podem ser sinais de resistência e não de fraqueza. 

Na tradição oral africana, o tambor simboliza o elo entre vivos e ancestrais, memória coletiva e identidade partilhada; ao ser restaurado e continuar a tocar, ele reafirma a ideia de que mesmo partidos podemos renascer. Este conto, ao articular conflito, julgamento público e reconciliação, inscreve-se na lógica da oralidade africana, onde a narrativa é ensinamento e metáfora: a comunidade só cala quando aceita o silêncio imposto, mas enquanto houver mãos e vozes dispostas a restaurar o som, a dança do povo continua viva.


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