O Porco e o Milhafre eram dois inseparáveis amigos. O porco invejava as asas do Milhafre e insistia continuamente com o amigo para que lhe arranjasse umas iguais para voar também.
O Milhafre dispôs-se a fazer-lhe a vontade. Conseguiu arranjar penas de outra ave e, com cera, colou-as nos ombros e nas pernas do seu amigo Porco. Este ficou radiante e começou a voar ao lado do seu amigo Milhafre.
Quis acompanhá-lo até às grandes alturas, mas a cera começou a derreter-se com o calor e as penas foram caindo uma a uma. À medida que as penas se despegavam, ia o porco descendo, contrariado. Quando as penas acabaram de se soltar, o porco caiu e bateu no chão com o focinho. E com tanta força bateu, que este, ficou achatado.
Zangou-se o Porco com o Milhafre dizendo que tinha querido matá-lo, porque grudara mal as asas.
Desde essa ocasião deixou de ser amigo do Milhafre e, quando o vê pairar no alto, dá um grunhido e olha para ele desconfiado. E aqui está a razão porque o Porco tem o focinho achatado e nunca mais quis voar.
Esse tipo de narrativa etiológica (explicar por que um animal tem determinada característica física ou comportamental) é muito comum na tradição oral africana bantu. Histórias semelhantes encontram-se em Angola e Moçambique, onde se explicam fenómenos naturais ou características dos animais através de mitos com humor e moralidade.
O “Milhafre” (ave de rapina muito comum em África e Europa) aparece em muitos contos orais, simbolizando astúcia, elevação e liberdade. Já o porco, no imaginário popular africano, representa o apego à terra, à comida e à preguiça, sempre em contraste com aves ou animais considerados mais nobres. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
O conto ensina quatro lições importantes:
l A inveja leva à desgraça – O Porco não se conformou com a sua condição e quis ser como o Milhafre. Em vez de aceitar os seus limites, tentou imitá-lo e acabou por se magoar.
l Cada ser tem o seu lugar no mundo – Na cosmovisão africana, a natureza é organizada de modo que cada animal, planta e pessoa tem o seu papel. Quando alguém tenta ultrapassar esse papel à força, o equilíbrio quebra-se.
l A culpa mal dirigida destrói amizades – O Porco, em vez de reconhecer o seu erro, culpou o Milhafre, e por isso perdeu o amigo. É uma crítica à dificuldade de assumir responsabilidades.
l Explicação cultural – O conto dá uma razão “mítica” para o focinho achatado do porco, mas no fundo transmite valores sociais: não se deve agir movido pela inveja, nem destruir amizades por orgulho.
Moral resumida: “Quem vive de inveja cai por terra; cada ser deve aceitar o seu destino e valorizar a amizade, em vez de culpar os outros pelos seus próprios erros.”
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