NARRAÇÃO

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terça-feira, 2 de setembro de 2025

60 - N’BANGASADI & DJAMONDI

 

Havia um homem que era casado com duas mulheres, a primeira se chamava N’bangasadi, a segunda era Djamondi, desde o momento que o homem casou-se com a segunda esposa, ele parou de dar atenção à primeira, ela passou a ser isolada, tudo o que o marido queria pedia para a Djamondi, ela é que organizava tudo em casa, a N’bangasadi ficava triste mas não sabia o que fazer, ele era o seu marido, ela tinha que aguentar com aquela traição na sua cara. O marido delas era caçador, certo dia ele foi caçar, no caminho da mata viu uma árvore que tinha frutas maduras caídos no chão, ele apanhou e levou para casa, passando alguns dias ele voltou de novo para apanhar as frutas, encontrou com uma Onça, ele não sabia que as frutas daquela árvore eram comidas pela Onça. Quando viu a Onça, ele decidiu combinar com ela para matar a sua primeira esposa N’bangasadi, pois ele não queria mais ela, e queria se livrar dela de qualquer jeito, achou por bem que fosse dessa forma iria resolver tudo.

O homem falou para a Onça:

-Amanhã de madrugada, virá aqui uma mulher, assim que ela chegar pode comer ela, Onça falou: - tudo bem. O homem apanhou as frutas e voltou para casa, ao chegar em casa chamou a primeira esposa, ela foi responder, a Djamondi, ficou muito curiosa em saber porque será que o seu marido chamou a N’bangasadi e não ela, se escondeu atrás da porta para escutar o que o marido vai dizer a outra. O marido falou para N’bangasadi que:

-Quando eu estava vindo da mata, encontrei um pé de frutas, num local tinha muitas frutas maduras só não peguei porque estava muito cansado, queria que fosse apanhar pra mim amanhã bem cedinho. Ela sem recusar falou: - certo irei.

Eles não sabiam que a Djamondi estava a escutar atrás de porta, antes de nascer do sol a Djamondi saiu para o caminho da mata, ela foi apanhar frutas, porque queria agradar o seu marido, pois ela era a preferida dele, como é que ele foi pedir esse favor logo na N’bangasadi e não nela! O que ela não sabia é que o marido estava tramando para a primeira esposa. Ao chegar na árvore, viu a Onça sentado à espera talvez da N’bangasadi, ou dela, mas como a Onça não conhecia nenhuma das duas partiu por cima dela logo, à matou.

Ao amanhecer, a N’bangasadi saiu para ir percebeu que a outra já tinha ido, ela desistiu de ir logo, pegou na vassoura começou a passar pela casa, o marido saiu de dentro viu ela fazendo limpeza pela casa, entusiasmado perguntou a ela: - N’bangasadi, por que você não foi apanhar a fruta? Ela respondeu calmamente: - Quando acordei, percebi que a Djamondi já tinha ido, porque ela nos ouviu ontem, quando você estava a falar comigo, desisti de ir logo. O marido assustado falou: - É, É, É! Ela perguntou para ele, - o que foi? Respondeu: Nada.

Ele desceu para o caminho da mata, ao chegar encontrou a Onça do pé da fruta falou logo: - Não era ela que você tinha que matar era a outra, ela nos escutou ontem quando eu estava a falar com a outra, e veio logo de madrugada. A Onça falou para ele: - Mas você não me falou quem eu deveria comer, só me disse que vinha uma mulher hoje, por isso que comi ela. O homem saiu chorando no caminho de volta para casa, ao chegar em casa ele chamou a outra: - N’bangasadi, Djamondi está morta! Queria que fosse você, mas ela é que foi comida. N’bangasadi gritou: - Ei! A que ponto chegamos! Você não gosta de mim até ao ponto de me desejar a morte! Você combinou com a Onça para me matar. Agora a sua preferida é que morreu, pois, senhor Deus não deixou isso acontecer.

A família da N’bangasadi fora para casa dela, fizeram uma confusão danado com o marido, os vizinhos vieram acalmar a confusão, conversaram com o marido da N’bangasadi e ele pediu perdão a sua esposa e viveram juntos para sempre.

 

 O conto “N’Bangasadi & Djamondi” é de origem oral africana, provavelmente do conjunto de narrativas populares da Guiné-Bissau ou de regiões vizinhas de tradição crioula. Por ser uma história tradicional transmitida de geração em geração, não há um autor específico, pois reflete a sabedoria coletiva e valores culturais locais. (grifo nosso)

 

 MORAL DA HISTÓRIA

 A narrativa ensina que a maldade, a inveja e a traição tendem a se voltar contra quem as pratica. Planejar o mal para prejudicar alguém pode resultar em consequências inesperadas e desfavoráveis. A lição é que a justiça divina ou natural protege os inocentes, e que a honestidade, paciência e prudência prevalecem sobre a malícia e o egoísmo. (grifo nosso)

 

59 - MULHER E UMA COXA DE BOI

 

Havia uma tabanca, onde moravam uma mulher e o seu marido, ela subestimava o marido em tudo o que fazia. Chegou a época célebre em que cada aldeia tinha a sua data de fazer uma festa. Todos os homens da tabanca tinham que ir caçar, o homem dessa senhora foi, mas ele não conseguiu encontrar nenhum animal, todos os outros encontraram, ao voltar em casa, disse a sua esposa:

-Não encontrei a caça...

A mulher começou a brigar com ele, - todos os homens da cidade encontraram a caça menos você!

Seu inútil. Nunca consegue fazer algo, se eu for agora à procura mesmo que for no caminho de fonte vou encontrar carne.

Um espírito a escutou, quando ela foi para a fonte pegar água, na volta ela encontrou uma Coxa de Boi bem grande. Mas, ela não sabia que era um espírito que tinha se transformado numa Coxa, esse espírito é aquele que tinha lhe escutado quando estava brigando com o marido. Ela ficou feliz em ver aquela coxa, pegou nela e levou pra casa. Ao chegar em casa viu o marido sentado, disse logo:

-Viu, não te falei que eu ia encontrar carne mesmo que fosse aqui no caminho de fonte! O marido disse:

-Está bom já que encontrou prepara só.

Ela pegou numa faca, começou cortar a Coxa, a Coxa pegou na faca, cortou ela, ela disse:

-Ei! Pegou na faca, cortou de novo, a Coxa devolveu, ela desistiu, deixou a Coxa num canto da casa.

À noite, ela e o marido quando estavam se preparando para dormir, a Coxa veio e disse para ela:

-Eu vou dormir com vocês.

Ela ficou sem o que dizer, a Coxa subiu na cama e deitou- se no meio. Todos os dias fazia a mesma coisa, os vizinhos dessa senhora vivenciavam a situação começaram a comentar, “ela vivia subestimando o marido até ao ponto de trazer uma desgraça em casa, ela agora ela tem que aguentar tudo isso em casa, assim nunca mais vai reclamar com ele”.

A mulher não estava mais aguentando a situação. Ela decidiu planejar uma fuga, falou para o marido que fugissem da cidade, ele aceitou. Arrumaram suas coisas sem que a Coxa percebesse, decidiram fugir a noite na hora que a Coxa fosse dormir. A noite a Coxa que não estava sabendo de nada, ficou com sono foi dormir. Os dois pegaram nas suas coisas e saíram da cidade. Quando estavam um pouco longe da cidade, a mulher lembrou que esqueceu a sua colher de pau que ela disse que não podia deixar ficar teria que ir buscá-lo.

O marido disse a ela:

-Vamos assim que chegarmos na outra cidade vou fazer outra colher, ela disse:

-Não posso deixar essa colher porque ela é que faz a minha comida ficar gostosa, eu vou buscar. Ela regressou para casa, ao chegar foi direto para onde ela guardou a colher. A casa dessa senhora era de barro, não tinha paredes muito altos, ela tinha botado a colher entre o telhado e a parede de casa, como estava com muita pressa, ela puxou a colher, mas, não tinha lhe agarrado com muita força, a colher caiu e fez um barulho acordou a Coxa.

A Coxa assustada viu a mulher e disse-lhe: - ah!

Vocês iam fugir pra me deixar aqui sozinha?

A mulher ficou sem palavras, a Coxa disse: vai me levar nas costas. Ela pegou a colher e botou a Coxa nas costas, fora ao encontro do marido. Ao chegarem o marido viu que ela tinha levado a Coxa, ele disse:

É! É! É! Você a trouxe de novo? A esposa disse:

-Quando eu puxei a colher, caiu fez barulho que acordou ela.

Os três continuaram suas caminhadas passaram o dia todo caminhando, como naquele período era de celebração das festas nas cidades, estava tendo festa naquela cidade, chegaram a noite, estavam de passagem, viram a festa, todo mundo dançando no centro da cidade, decidiram assistir as danças um pouco para depois passar. A Coxa, que estava na costa da mulher, disse para mulher para lhe descer queria dançar um pouco, a mulher sem excitar, a deixou para dançar.

A Coxa estava gostando da música, ficou empolgada na dança, a mulher e seu marido perceberam logo que ela estava amando a música, ela disse ao marido:

-Vamos fugir sem que ela perceba. Os dois fugiram, quando estavam bem longe daquela cidade, a Coxa percebeu a ausência, começou a lhes procurar, mas não encontrou, disse:

-A! Ela teve sorte, nunca mais vai subestimar o seu marido!

 

 O conto “Mulher e uma Coxa de Boi” é de origem oral africana, possivelmente das tradições populares da Guiné-Bissau ou de outras regiões de língua crioula, transmitido de geração em geração. Não há um autor específico, pois trata-se de narrativa tradicional que reflete costumes e valores comunitários. (grifo nosso)

 

 MORAL DA HISTÓRIA

A narrativa mostra que a arrogância e o desprezo podem trazer consequências inesperadas. Subestimar os outros, especialmente aqueles próximos, pode gerar situações complicadas e até perigosas. A lição é que o respeito e a consideração pelos outros, mesmo em pequenas tarefas, são essenciais, e que a humildade e a cooperação podem evitar problemas e desastres desnecessários. (grifo nosso)

58 - O MENINO SENE


Era uma vez, numa tabanca distante vivia um jovem com a sua mãe, ele era o filho único. Certo dia os jovens da sua tabanca saíram para queimar a mata na outra parte da aldeia, levaram arroz na esperança de encontrarem um animal na caça durante a queimação, para servir de acompanhante de arroz. Mas, não foi o caso, pois os animais tinham fugido da mata para arrumar um outro abrigo.

Eles caçaram, só conseguiram, um animal eram muitos, porque todos os jovens da aldeia foram nesse acampamento, a carne da caça não daria para todos, logo, o superior deles falou assim:

-Vamos ter que matar uma pessoa para podermos acrescentar a carne, porque a carne não vai dar para todo mundo. Quando ele falou isso, todo mundo começou a brigar, pois

ninguém queria que o seu irmão ou irmã fosse morto para aumentar na carne da caça. Quando uma pessoa falava:

-Vamos matar fulano!

O irmão daquela pessoa não deixava que matassem. Nessa reviravolta, tinha uma pessoa que falou assim:

-Por que não vamos matar o Sene?

Como falei antes, o Sene era filho único, não tinha ninguém para lhe defender, todos concordaram para matá-lo. Chegou a hora de voltar para a tabanca, estavam todos preocupados, em como iriam levar a notícia na comunidade de que mataram o Sene! Resolveram dar a notícia antes de voltarem à tabanca. Botaram uma peneira cheia de arroz, cada pássaro que passava por perto eles o chamavam e faziam a proposta de levar notícia para a comunidade, muitos passaram, mas, não podiam cantar bem, até que passou um Pavão por perto, eles chamaram logo.

Explicaram ao Pavão tudo o que tinha passado, ela disse que podia levar a notícia, deram-lhe aquela peneira de arroz para comer, ao terminar de comer ele deu um grito:

- Kun’há, kun’há, kun’há! Saiu voando a tabanca, todas as mulheres tinham um lugar onde machucavam o arroz com um pilão e machucador para descascar, elas estavam lá, tinha umas árvores, elas ficavam debaixo delas para não pegarem o sol, pois faziam essa atividade no período da tarde.

O Pavão foi direto para lá, pousou numa árvore, começou a cantar: - Kun’há, kun’há, kun’há!

-Fomos caçar na outra margem da cidade, kuan’ah áh dé kun’ah, conseguimos uma caça, acrescentamos ela com o Sene, kuan’ah áh dé, kun’ah, Sene óh Sene Basangue, kuan’ah áh dé kun’ah!

Tinha uma menina que estava debaixo da árvore com as mulheres, machucando arroz, ele disse para elas escutem, esse pássaro está contando e chamando o nome do Sene, elas falaram logo para ela mentira como é que o pássaro sabe chamar o nome das pessoas!

O pássaro começou a cantar de novo elas escutaram, logo, começaram a chorar a Nhali mãe do falecido Sene, falou que vão ter que devolver o seu filho.

Os mais velhos da tabanca lhe consolaram, pois, cada mãe que os mais velhos falavam para devolver o filho para ela, as mães se negavam, ela acabou por se conformar com a perda.

 

 O conto “O Menino Sene” tem origem na tradição oral africana, especialmente nas comunidades da Guiné-Bissau, onde aves e animais são frequentemente usados como intermediários de justiça ou mensageiros na narrativa popular. Por ser um relato tradicional, não há um autor específico identificado. (grifo nosso)

 

 MORAL DA HISTÓRIA

A narrativa ensina sobre a importância da empatia, da responsabilidade coletiva e do valor da vida de cada indivíduo. Tentativas de injustiça ou decisões precipitadas, como escolher alguém para sofrer pelo grupo, podem ser confrontadas pela intervenção da sabedoria ou da natureza, mostrando que toda vida merece respeito e proteção. (grifo nosso)

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

57 - LOBO E LEBRE


Lobo e Lebre são amigos, certo dia a Lebre pediu para o seu amigo Lobo lhe acompanhar para ir visitar a sua namorada. Quando chegaram em casa dela, ela lhes serviu dendê cozido, os dois começaram a comer, a Lebre armando de mais inteligente, começou a jogar o caroço de dendê debaixo do Lobo sem ele perceber, ao terminarem de comer o pai da namorada saiu para lhes cumprimentar, perguntou a Lebre:

-Lebre, você não comeu? Respondeu ao sogro:

-Comi sim, só que não como muito!

O pai da namorada entusiasmado com a resposta, falou:

-A minha filha come muito, e ela casará com homem que come muito, você não pode casar com ela, o Lobo come muito tem monte de caroço debaixo dele, ele casará com ela. A Lebre se arrependeu por ter feito aquilo, e não podia mais voltar atrás, o Lobo casou- se com a sua namorada.

 

O conto “Lobo e Lebre” tem origem na tradição oral africana, especialmente em comunidades da Guiné-Bissau e arredores, onde os animais são usados como personagens para transmitir lições morais. Por ser um relato tradicional, não há um autor específico identificado. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 O conto ensina que a desonestidade e a esperteza mal-intencionada podem trazer prejuízos a quem a pratica. A Lebre tentou enganar para conseguir vantagem, mas a sua trapaça voltou-se contra si mesma, mostrando que a honestidade e a sinceridade são sempre mais vantajosas do que a astúcia usada para prejudicar os outros. (grifo nosso)

56 - SIRÁ E NIMA


Era uma vez, numa tabanca (aldeia) bem distante vivia uma família com duas filhas, a primogênita se chamava Sirá ela e a irmã mais nova, não eram muitas amigas, pois a mais nova morria de inveja da Sirá. Certo dia, a Sirá foi lavar roupa na beira do mar, apareceu um peixe búzio, lhe cumprimentou, nem conseguiu responder por conta do susto que levou, porque nunca tinha visto um peixe a falar.

O peixe disse: - Não tenha medo! Não vou lhe fazer mal algum Ela ficou sem o que dizer e tremendo de medo, o peixe disse:

-O meu nome é Nima, vejo você sempre aqui sozinha e escuto suas cantigas. Gosto das suas cantigas, como é o seu nome?

-O meu nome é Sirá.

Ela citou o nome com a fala toda tremida, o peixe búzio percebeu que ela estava muito assustada e resolveu não chegar perto dela.

-Gosto de você, quero ser o seu amigo.

Ao escutar isso do peixe ela ficou um pouco mais aliviada, percebeu que o peixe não queria lhe fazer mal algum.

-Sim, podemos ser amigos.

A partir daquele dia a Sirá passou a visitar o peixe quando ia lavar roupas. Os dois se apaixonaram e começaram a namorar, cada dia que a Sirá ia visitar o Nima levava farinha de arroz na cabaça quando chegava, tinha a forma como lhe chamava. - Nima, Nima, Nima…

-Ele aparecia comia farinha e se divertiam um pouco, ela voltava para casa ao pôr do sol.

A irmã apreciava o comportamento dela todos os dias, um dia, ela disse a ela que queria ir com ela para o mar, com a intenção de descobrir o que ela fazia todos os dias lá, só que a Sirá conhecia ela e sabia que, se ela descobrisse vai querer fazer algum maldade contra o Nima, falou não, mas, ela insistia até que a Sirá bateu nela, só para lhe fazer desistir no caminho, ela resolveu fingir que voltou para casa.

Mas só que a Sirá não sabia que a sua irmã tinha poder de transformar num inseto, ela se transformou numa mosca, voou e foi pousar em cima da cabaça de Sirá, ela inocente estava muito apressada porque a irmã lhe atrasou um pouco no caminho. Na beira do mar tinha uma árvore, quando chegaram, a irmã se levantou e foi pousar numa folha de árvore onde podia assistir tudo.

A Sirá disse de novo:

-Nima, Nima, Nima...

Ele apareceu, ela deu a farinha, divertiu, a irmã assistiu tudo, voou de volta para casa, quando chegou contou para os pais que a Sirá namora com um peixe no mar, os pais e ela se reuniram para matar o peixe. No dia seguinte, a mãe ordenou a Sirá para ir à mata pegar lenha (madeira), para fazer fogueira a noite, assim que ela saiu a irmã pegou arroz na “Bemba” (depósito), para fazer farinha, “Bemba” é uma espécie baú usam para conservar arroz e outros produtos na tabanca (aldeia).

Botou arroz de molho, depois botou no pilão e machucou com o machucador, ao terminar de fazer farinha, chamou o pai para irem ao mar. Chegaram, e disse como a irmã dizia:

-Nima, Nima, Nima...

O Nima saiu e viu duas pessoas desconhecidas ficou meio desconfiado, mas, a menina lhe ofereceu a farinha na cabaça como a Sirá fazia, ele começou a comer, mas, com muita desconfiança, pois o homem que estava ao seu lado tinha segurado uma catana (facão), ao terminar de comer, ele deu costas para voltar no mar, o homem deu um golpe no pescoço com a catana, ele morreu, levaram o para casa.

Cozinharam, e tiraram a parte da cabeça botaram na comida de Sirá. Quando ela voltou de apanhar lenhas, viu a irmã toda feliz lhe cumprimentou e disse:

-A sua comida está aqui. Ela pegou na comida, tirou a tampa, deu de cara com cabeça, suspeitou logo pois aquela cabeça era parecida com a do Nima, porém, ela não tinha certeza, botou a tampa de volta, e foi direto para “Bemba”, pegou arroz botou de molho machucou no pilão fez farinha, saiu correndo para o mar, a mãe foi atrás dela.

Chegou, e começou a chamar:

-Nima, Nima, Nima!

-Nima, Nima, Nima...

O Nima não apareceu, chamou de novo, só apareciam outros peixes, começou a chorar, e a cantar ao mesmo tempo.

-Nima lé fi dinmi Nima lé, té bu dinma fum... A mãe dizia:

-Sirá, óh gã nalé n’doba lé n’doba gã n’bambol…

Enquanto cantava ela estava descendo a beira mar, a mãe estava lhe consolando e chamando para voltar para casa, mas, ela não a escutava.

Ela desceu no mar cantando essa cantiga até desaparecer na água. Uns dizem que ela se transformou num peixe búzio e odeia ser pescado, para ser capturado o pescador tem que ser muito experiente, pois se defende, e sua característica física tem ainda algumas partes em comum com do ser humano, as fêmeas têm órgão genitais e seios.

 

O conto “Sirá e Nima” pertence à tradição oral da Guiné-Bissau e regiões próximas da África Ocidental. Como muitos contos orais, não possui um autor formalmente identificado, tendo sido transmitido de geração em geração entre as comunidades locais. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A narrativa ensina que a inveja e a maldade podem trazer consequências graves, enquanto a amizade verdadeira e a lealdade são valiosas, mas também frágeis diante da crueldade humana. Além disso, mostra que a pureza e a bondade, representadas por Sirá e sua relação com Nima, podem transcender a vida, deixando marcas duradouras na memória coletiva, ressaltando a importância de agir com cuidado, justiça e respeito pelos outros. (grifo nosso)

55 - O VELHO SEPU


O velho Sepu de cabelos brancos, pele enrugada e corpo já curvado pelo peso de muitos anos- tantos, que até já perdeu a conta, o velho caminhava vagarosamente pelas ruas da tabanca, apoiado a uma pequena bengala, que é a sua boa companheira de todos os momentos. Durante o seu caminhar, pára várias vezes.

Depois, toma novo alento e prossegue a sua marcha, lenta e despreocupada, pois não tem pressa de chegar ao destino. Percorrem a tabanca de ponta em ponta, várias vezes por dia, embora não tenha qualquer obrigação de o fazer. É que ele gosta de passear e, por isso, percorreu demoradamente os sítios em que se sente mais confortável, observando as crianças mais limpas e cuidadas, os locais onde os homens grandes da tabanca costumam conversar, após a jornada de trabalho.

As crianças gostavam muito dele e, sempre que o vêem, ao longe, correm em sua direção, gritando alegremente:

- Tio Sepu! Tio Sep!

Então, o velho Sepu, cujo rosto irradia uma enorme satisfação, senta- se junto de uma frondosa mangueira e fala para as crianças que o rodeiam. Ele conta- lhes lindas histórias da nossa terra e ensina-lhes os belos cantares do nosso povo.

Nas histórias que o velho Sepu conta às crianças, existe sempre a intenção de lhes aconselhar uma educação e a prática de boas atitudes para com toda a gente. Os bons conselhos do velho Sepu, para as crianças são conselhos de quem tem uma longa experiência da vida, para quem agora começa a despontar para a própria vida.

Noutros tempos, quando ainda podia trabalhar, o velho Sepu era agricultor e, nas horas vagas fazia trabalho de artesão. Mas, hoje, o seu corpo já perdeu a força para os trabalhos de campo e os dedos dantes muito hábeis, mostram- se agora incapazes de fazer belos trabalhos de artesanato, como antigamente.

A arte do velho Sepu é, agora, contar belas histórias às crianças. Talvez as histórias que ele ouviu também, quando era criança, a algum velho que, como ele agora, percorria a tabanca de ponta a ponta…

 

O conto “O Velho Sepu” pertence à tradição oral africana, muito provavelmente da Guiné-Bissau, e não possui autor identificado, sendo transmitido de geração em geração. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A narrativa ensina que a experiência e a sabedoria adquiridas ao longo da vida têm grande valor, sobretudo na transmissão de conhecimentos e bons hábitos às gerações mais novas. Mesmo quando as forças físicas diminuem, a influência positiva de um ancião como Sepu permanece viva, mostrando que respeitar e ouvir os mais velhos é fundamental para aprender a viver com ética, paciência e harmonia na comunidade. (grifo nosso)

54 - O CÃO E O GATO


Antigamente, o Cão e o gato eram amigos. Ambos viviam na mesma casa, caminhando e brincando sempre juntos.

No entanto, um dia o gato acordou muito mal disposto e olhou para o cão, que dormia sossegadamente. E Como ele não tinha dormido bem, ficou com inveja do cão. Então, acordou- o e disse-lhe:

-Você passa a vida somente dormindo! Está sempre a dormir e não quer trabalhar!

O Cão por sua vez, ficou muito aborrecido, porque o gato o tinha acordado do seu maravilhoso sono e respondeu-lhe:

-E você trabalha? Você não trabalha porra nenhuma e está a refilar!

-Mas você é maior que eu e, por isso, deveria trabalhar para que possa seguir os seus exemplos! - Afirmou o gato.

-E você, como é o mais pequeno, devia trabalhar mais, porque os mais novos têm mais força e agilidade que os mais velhos! - respondeu- lhe o cão.

A discussão foi aumentando, até que ficaram zangados. Já não se entendiam.

Desde esse dia, o cão e o gato nunca mais ficaram amigos. Ambos não gostam de trabalhar, mas cada um sente- se incomodado com a presença do outro.

Desta maneira, acabou a boa amizade entre os dois animais, por causa de uma discussão sem importância.


O conto “O Cão e o Gato” pertence à tradição oral africana, sendo parte do acervo de fábulas populares transmitidas de geração em geração, e não possui autor identificado. (grifo nosso)


MORAL DA HISTÓRIA

O relato mostra como pequenas discussões, fruto de inveja ou falta de paciência, podem destruir relações de amizade, ensinando que o diálogo, a compreensão e o respeito mútuo são essenciais para manter laços afetivos e evitar que conflitos banais se transformem em rixas irreversíveis. (grifo nosso)

53 - O CÃO E O LOBO


Um dia, o cão foi caçar para o Mato.

Mas, em vez de lebres encontrou o lobo, que gostava de atacar os bois e por vezes os rebanhos de cabras.

Fingindo- se amigos, logo ali fizeram um contrato a pedido do lobo.

Este ensinaria o cão a uivar, o cão por sua vez, teria que ensiná-lo a farejar.

Convencido que tinha enganado o cão, o lobo começou logo a uivar até que o cão aprendeu. Mas este, quando o lobo pediu que lhe mostrasse como é que se fareja virou- lhe as costas gritando:

- Se eu ensinar você a farejar à cama, me ias matar.

 

O conto “O Cão e o Lobo” também pertence à tradição oral africana, comum em regiões como a Guiné-Bissau, e não tem um autor identificado. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

A fábula ensina que a prudência e a desconfiança podem salvar a vida; o cão percebeu que ensinar o lobo a farejar seria perigoso, mostrando que nem toda amizade ou acordo deve ser confiável, principalmente quando envolve alguém com más intenções. (grifo nosso)

52 - O JOÃO-DOIDO


De entre as várias espécies de ratos que vivem na nossa terra, existe um que possui um comportamento original: tudo o que consegue apanhar- pequenas peças de roupas, canetas, diversos alimentos, joias, moedas, etc. transporta para o seu esconderijo.

É do tamanho de um gato jovem, tem cor acinzentada escura e possui uma longa cauda, tão comprida como o próprio corpo.

Vive geralmente nos quintais das casas ou em terrenos próximos. Esconde- se nas tocas, que constrói junto das árvores e das paredes.

A sua esperteza é tanta que, por vezes, cava junto das paredes, longos buracos no chão, que lhe dão acesso ao interior das residências.

Anda sorrateiro, principalmente pela calada da noite, em busca de alimentos e outras coisas que depois arrasta para sua toca.

Sempre que as pessoas dão pelo desaparecimento de coisas ou objectos, logo desconfiam que o ladrão é o João-doido, nome vulgar porque é conhecido este rato amigo alheio. Então, procuram descobrir-lhe a toca o que, por vezes, é muito difícil e colocam junto dela uma pequena lata contendo uma bebida alcoólica bem açucarada. O guloso do João-doido, logo que descobre esse bebedouro, ingere o líquido e, depois, fica embriagado.

A partir desse momento, como que arrependido da sua má ação pela pilhagem que fez, passa a ser um rato bom: tira para fora do esconderijo tudo o que lá conseguiu armazenar, assim devolvendo às pessoas aquilo que tinha furtado, porém, no dia seguinte, perde de novo a dignidade e volta a transportar para seu esconderijo tudo o que lhe aparece pela frente.

O João-doido, que mais acertadamente deveria ser designado por rato-ladrão, não deixa de ser um bicho curioso, pelo seu comportamento estranho. No entanto, ele dá- nos um mau exemplo de desonestidade, pois vai obtendo, pelo furto, aquilo que não lhe pertence e que aos outros custou a ganhar.

 

O conto “O João-doido” é típico da tradição oral africana, especialmente da Guiné-Bissau, transmitido de geração em geração, e não possui um autor conhecido. Trata-se de uma fábula que combina observação da natureza com lições de moral. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A narrativa mostra que a desonestidade, mesmo que temporariamente interrompida, sempre traz consequências; o João-doido simboliza como a ganância e o egoísmo podem levar a comportamentos repetitivos e prejudiciais, lembrando que a honestidade deve ser constante e não apenas circunstancial. (grifo nosso)

51 - COMO SE SALVOU O CABRITO

 

Certo dia, estava o cabrito muito desocupadamente saborear tenra erva, numa lála sem saber que por perto se encontrava o lobo que o vigiava.

Entretanto, o lobo foi se aproximando muito devagar até ficar pelo do cabrito. Quando este levantou a cabeça se deu com o lobo nas vistas, já não tinha como fugir. Muito assustado, disse então para o lobo:

-Não me faça mal, tio lobo, porque ainda sou pequeno!

Mas o lobo, que estava com grande vontade de comê- lo, respondeu- lhe assim:

-Fique tranquilo, que não vou te comer agora. Irei levar você para um sítio onde haja sombra, para poder descansar, depois que te comer.

Logo que acabou de falar, atirou- se ao pobre cabrito e o levou bem agarrado pelos dentes.

Pelo caminho encontraram a leoa, que estava deitada.

Atrapalhado, o lobo cumprimentou a leoa a tremer: disse que vinha oferecer- lhe o cabrito.

Mas ela respondeu ao lobo:

Não quero somente comer o cabrito, mas você também.

O lobo tentou convencer a leoa que mudasse de ideia, mas essa atirou- se a ele e comeu- o.

Entretanto, no meio daquela confusão, o cabrito aproveitou para fugir e foi assim que se escapou da morte.

 

O conto “Como se salvou o Cabrito” é típico da tradição oral africana, sendo comum em regiões da Guiné-Bissau e de outros países de língua portuguesa na África Ocidental. Não há um autor individual conhecido, pois pertence ao repertório de fábulas populares transmitidas de geração em geração. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A astúcia e a atenção podem salvar quem é aparentemente fraco ou indefeso; mesmo em situações perigosas, a observação do ambiente e a paciência podem criar oportunidades de sobrevivência. Além disso, a narrativa mostra que a ganância ou o descuido podem levar à própria ruína, como aconteceu com o lobo. (grifo nosso)

50 - O PRÉMIO DA ESPERTEZA

 

Na Guiné- Bissau, havia um homem que se julgava o mais esperto de todos. E, de tal forma que se gabava prometeu uma Vaca a quem o vencesse na esperteza.

Um dia, ouviu falar- se de um outro gênio que tinha fama de inteligente e resolveu visita-

lo.

Mas, ao chegar em casa desse outro homem, só encontrou o filho. Questionou-o:

-Onde está o seu pai?

-Está a puxar, para mais perto da nossa casa, o campo em que cultivamos arroz e amendoim- respondeu-lhe o rapaz.

-Você não está bem da cabeça! Como é possível trazer um lugar para mais perto de casa?

-Então o Senhor não sabe que pode- se puxar um lugar?

-Não, não sei!

-Pois pode. Quando limpa- se o caminho o qual você costuma caminhar para sua propriedade, este fica mais próximo, porque não existirá, pedras, buracos ou troncos das árvores atravessados. O caminho torna- se mais fácil de percorrer.

Assim demora- se menos tempo a chegar- lá e parece mais próximo. O homem achou a resposta tão inteligente que disse ao rapaz:

-Eu tinha prometido dar uma Vaca a quem mostrar mais inteligência que eu.

-Por isso, vim experimentar o seu pai. Mas já não é preciso, porque você provou ser muito inteligente me dando lição de moral.

É com grande alegria que te ofereço a Vaca, ela está amarrada aí no tronco da árvore.

 

O conto “O Prémio da Esperteza” é um exemplo de narrativa popular africana, especificamente da Guiné-Bissau, transmitida oralmente ao longo das gerações. Não possui um autor individual identificado, pois faz parte da tradição de fábulas e contos de sabedoria locais. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A verdadeira inteligência não se mede apenas pelo conhecimento ou astúcia, mas pela capacidade de perceber soluções simples e práticas para problemas complexos. O reconhecimento da esperteza e do raciocínio claro traz recompensas, mostrando que a sabedoria e a perspicácia são valorizadas e respeitadas na comunidade. (grifo nosso)

49 - A LEBRE E A TARTARUGA

 

A Lebre andava a gabar- se, diante de todos os animais, que ninguém corria mais que ela.

-Nunca perco uma corrida. Desafio qualquer um!

-Aceito o desafio! - Disse um dia a tartaruga, já farta de ouvir.

-Até parece brincadeira! Eu, a correr contigo, até posso descansar um pouco pelo caminho! … Disse a Lebre.

-Guarda a sua vaidade até o fim da corrida- recomendou- lhe a Tartaruga. Então, a Lebre aceitou o desafio.

A um sinal de partida, lá se puseram as duas em movimento: a Lebre aos saltos e a Tartaruga, do seu jeito muito vagaroso de caminhar.

Entretanto, a Lebre ciente de sua vitória, apenas deu uns saltos e pôs- se a dormir para demonstrar o seu desprezo pela companheira. Mas, a Tartaruga continuou a sua marcha lenta, muito preocupada em atingir a meta, assim que for possível.

Quando a Lebre acordou, já a Tartaruga ia perto da meta. Então, fez um grande esforço e chegou primeiro à meta.

A Tartaruga disse então à Lebre, envergonhada, em frente de todos os animais que assistiam à disputa:

-A sua vaidade te fez perder, minha amiga!

-Para outra vez procure ser mais modesta…

 

O conto “A Lebre e a Tartaruga” é uma fábula clássica de Esopo, filósofo e contador de histórias da Grécia Antiga, cuja obra foi transmitida oralmente e posteriormente registrada em diversos países e culturas. Não se atribui a um autor específico além de Esopo, sendo uma narrativa tradicional com forte valor moral. (grifo nosso)

 

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A vaidade e a confiança excessiva podem levar à derrota, enquanto a perseverança, a paciência e a humildade garantem o sucesso. A Tartaruga vence não por velocidade, mas por consistência e foco, mostrando que a determinação constante supera a arrogância e a precipitação. (grifo nosso)

 

48 - O MENINO MENTIROSO


O Xavier passava a vida somente mentindo, mentia para os amigos, Professores e até para os seus pais. Mentia tanto que já não sabia se alguma vez chegou a falar verdade. Um menino assim tinha de ser castigado.

Certo dia, o Xavier resolveu ir tomar banho perto de uma bolanha onde trabalhavam algumas mulheres da sua tabanca.

Em dado momento começou a gritar:

-Acudam que eu estou a afogar-me! Acudam, que eu estou afogar-me!

Aflitas, as mulheres correram mas, quando chegaram ao rio, viram o Xavier a nadar de costas rindo delas.

Zangadas ralharam com ele, só que ele não se ligou. Repetiu essas mentiras com outras pessoas por diferentes dias, até que…

-Socorro! Acudam- me, que morro afogado!

-Gritou desta vez com toda a sinceridade, realmente se sentia sem forças.

Como já não acreditavam nele, ninguém lhe acudiu e se não fosse o irmão mais velho que passava de bicicleta, teria morrido.

Daí para frente, o Xavier criou juízo e nunca mais mentiu para ninguém.

 

 

O conto “O Menino Mentiroso” é uma versão africana ou afro-portuguesa do clássico conto popular conhecido mundialmente como “O Menino que Gritou Lobo”, originário das fábulas de Esopo da Grécia Antiga. Não há um autor individual identificado, pois trata-se de narrativa tradicional transmitida oralmente, adaptada em várias culturas ao longo do tempo. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 Mentir repetidamente corrói a confiança que os outros têm em ti; quando a verdade realmente importa, ninguém acredita, e isso pode gerar consequências graves, até colocar a própria vida em risco.

A lição é clara: a honestidade é a base das relações humanas, e enganar deliberadamente não só prejudica os outros, mas acaba por prejudicar quem mente. (grifo nosso)

 

47 - O JAGUDI E O FALCÃO

 

Um dia, o Jagudi encontrava- se pousado numa árvore à espera de ganhar carne morta recebeu a visita de Falcão que veio posar ao lado dele. O Falcão depois de contemplar, em silêncio o Jagudi censurou-o de imediato:

-Você que tem bicos tão grandes e asas como velas dos barcos, deveria ir por esse mundo fora, à procura de caça, como faz toda a gente.

Então, o Jajudi respondeu-lhe logo

-Eu não gosto de fazer mal a ninguém, pois fico contente com as carnes dos animais mortos, que eu encontro pelo caminho. É a norma de conduta, porque é o comportamento que está mais ajustado à minha espécie.

-Pois, eu não penso do mesmo modo que nem você- declarou o Falcão. De esperar a carne morta, eu apanho qualquer animal que aparece pela minha frente. Olha, você aquela pomba pousada no ramo daquela árvore aí? Não me escapa.

Quando o Falcão acabou de dizer isso, voou como uma flecha, em direção à Pomba. Mas era tal a velocidade que levava, para mostrar ao Jagudi que era capaz de caçar a pomba, que foi bater, violentamente a cabeça no tronco de uma árvore, caindo no chão desmaiado e quase morto. Entretanto, a pomba vendo o perigo que a ameaçava fugiu rapidamente. Ao despertar, o Falcão muito assustado viu o Jagudi em cima dele esperando morrer.

Começou a implorar-lhe:

-Tio Jagudi, não me faça mal! Bem que você vê, ainda não estou morto… O Jagudi respondeu- lhe:

-Pode morrer tranquilamente, porque eu sou muito paciente. Nunca tenho pressa. Só quero dizer a você, que já não vai escapar.

Passados alguns minutos, o Falcão soltou o seu último suspiro. Então, o Jagudi vendo- o morto foi lá e começou a comer o arrogante.

 

 

Esse conto, “O Jagudi e o Falcão”, é um clássico exemplo da literatura oral africana, especialmente das fábulas com animais, onde cada animal representa características humanas:

O Jagudi simboliza a paciência, a prudência e a ética — ele espera pela carne já morta, respeita o equilíbrio da vida e não prejudica outros desnecessariamente.

 

O Falcão encarna a arrogância, a impulsividade e a ganância — quer mostrar poder, age com pressa e sem pensar nas consequências.

A narrativa ensina de forma direta: quem age com arrogância e impaciência muitas vezes acaba sofrendo as consequências, enquanto a paciência e a prudência garantem a sobrevivência e até a vantagem sobre os imprudentes. O fato do Jagudi devorar o Falcão no final é quase literal, mas também simbólico — a prudência e a paciência “consomem” a impetuosidade e a soberba. (grifo nosso)

 


MORAL DA HISTÓRIA

 A impaciência e a arrogância podem levar à própria destruição, enquanto a paciência, a prudência e o respeito pelos limites dos outros não só protegem, mas também podem transformar a virtude em vantagem. O Jagudi ensina que a calma e a observação estratégica valem mais do que a pressa e a ostentação de força. (grifo nosso)

46 - O REI E O JOVEM VIAJANTE


Era uma vez um rapaz que vivia com os pais desde a infância, sem nunca ter saído de sua terra e nem ter frequentado a escola. Um dia, o seu pai decidiu mandá-lo ler, apreender, mas este processo de aprendizagem, segundo o pai, deveria durar três dias. O filho ficou estranhando... Então, perguntou ao pai: “como é possível aprender numa duração de apenas três dias?”

Em resposta, o pai ordenou: “filho, é o que eu disse! Antes de dormir, arruma a sua mala. Amanhã pela manhã cedinho vais”. O filho obedeceu. No primeiro canto do galo, o pai já estava esperando para se despedir e disse: “siga a direção da saída do sol e encontre a cidade onde mora o sábio. Ao chegar, diga que eu lhe mandei para estudar”.

O filho fez conforme a recomendação do pai. Ao chegar na casa do sábio, contou a razão da sua chegada. O mestre disse: “não tem problema. vai dormir até o amanhecer”. No dia seguinte, o sábio disse ao jovem: “Eu sei por que o seu pai lhe mandou e tenho certeza de que vamos terminar na data prevista. Vais aprender aquilo que precisa para sobreviver”.

No primeiro dia de aula, o sábio disse ao jovem: "Quando for atribuída responsabilidade a você, não a recuse". E terminou: “por hoje, é tudo. Daremos seguimento amanhã”. No segundo dia da aula, o mestre lhe disse: “Se não fizeres nada, nada vai acontecer contigo, ou seja, quem não deve não temer". No terceiro e último dia, o mestre disse: “por mais que estejas com pressa, quando alguém lhe chamar, pare e ouça o que essa pessoa lhe tem a dizer”. Desta forma, termina o seu ciclo de aprendizados. Agora, podes voltar para casa do seu pai, uma vez que já tens conhecimentos suficientes para viver em qualquer lugar.

O jovem voltou e contou ao seu pai sobre o que foi ensinado. O pai ficou muito contente e disse ao filho: “Agora você está pronto para conhecer o mundo”. O filho ficou alguns dias com o pai, mas depois decidiu se despedir e ir conhecer outros lugares. O pai respondeu: “Para mim, não tem problema. Eu já fiz a minha parte: mandei-lhe estudar”.

O jovem se levantou cedo e disse: “Estou pronto”. O pai derramou água na porta e asseverou: “Não se esqueça do que aprendeu”. O filho respondeu: “Não vou esquecer”. E foi embora, até que chegou na fronteira entre o seu e o reino vizinho. Neste reino, os hóspedes sempre não são bem-vindos. Quando chegou, foi levado para o Palácio do rei. O rei olhou e gostou do jovem, disse-lhe: “Vais ficar na minha casa”. O jovem aceitou o convite.

Este rei tinha três mulheres e nenhum filho/a. Cada dia que passava, o rei ficava mais impressionado com o jovem, foi gostando dele cada vez mais. Entretanto, esta atitude do rei não contentou o seu povo. Convocaram uma reunião para chamar a atenção ao rei: “Este jovem pode ser um perigo ao reino”. Ao que o rei respondeu: “Vou assumir qualquer consequência”. Um dia, o rei decidiu viajar e chamou o jovem: “Quero que se responsabilize pelo meu reino em minha ausência”. O jovem ficou sem palavras. O rei disse: “Vais dormir. Amanhã, terminaremos a nossa conversa”.

O jovem ficou preocupado, foi se deitar, mas, na verdade, não conseguiu dormir durante toda noite, pensando na proposta do rei. Ainda na madrugada, o jovem se lembrou da lição do seu mestre: "Quando lhe for atribuída uma responsabilidade, não a recuse”. Depois de amanhecer, foi até o rei e disse-lhe: “Aceito a sua proposta. Pode me deixar com o seu reino. Vou cuidar dele”. O rei ficou muito satisfeito. Então, convocou uma reunião para informar ao povo de que o jovem seria seu representante em sua ausência.

O povo nunca tinha gostado do jovem, principalmente agora como seu representante. No entanto, não podiam reclamar da decisão do rei. Foi aí que decidiram convocar uma reunião, na qual criaram estratégias para atrair o jovem e o rei seria obrigado a matá-lo. Concordaram, então, que a única forma de fazer o rei desacreditar do jovem seria envolvê-lo com uma das esposas do rei. O povo falou com as esposas do rei e elas concordaram com o plano!

No primeiro dia da tentativa, a dona da casa foi até o rapaz e lhe disse: “Venho dormir contigo. Como és o nosso responsável, então podes tomar o lugar do rei”. O jovem respondeu: “Não posso. Este não foi o meu combinado com o rei”. A mulher insistiu até amanhecer, mas não convenceu o jovem. A dona da casa foi ter com os mentores. Explicou-lhes tudo. Então, pensaram que talvez a razão da recusa do jovem seria pela idade elevada da mulher. Assim, decidiram enviar a segunda esposa do rei. Depois de anoitecer, a segunda esposa do rei foi com o mesmo propósito. O jovem igualmente recusou. Ela ficou até o amanhecer e nada aconteceu. Ela voltou e explicou o sucedido.

Na última tentativa, decidiram enviar a noiva do rei. Como ela era a mais jovem, talvez conseguisse convencer o jovem. Desta vez, ele não lhes poderia escapar, dizem os mentores. A noiva do rei preparou-se bem. Depois de anoitecer, foi ter com o jovem com o mesmo intuito, mas nada funcionou. O povo decidiu mudar de planos.

Foi assim que, desta vez, envolveram a noiva do rei com o jovem mais famoso do reino. Assim, quando ele engravidasse a noiva do rei, iriam atribuir culpa ao jovem braço direito do rei. Depois da reunião, a mulher e o famoso jovem concordaram. Satisfeitos, acreditaram que finalmente tudo daria certo. Conforme o combinado, o jovem famoso começou a se relacionar com a esposa do rei.

A mulher ficou grávida. Em alguns dias, o rei mandou recado de que voltaria nos próximos cinco meses. Antes da chegada do rei, a mulher teria seis meses de gravidez. Justamente depois de cinco meses, o rei voltou, foi recebido e cumprimentado por todos/as, menos por sua noiva. Todo o reino foi lá para ver qual seria a reação do rei face a situação ou como o rei iria matar o jovem. O rei disse: “Vi todos, menos uma pessoa, a minha noiva.

O que está acontecendo? Estão escondendo algo de mim? Sabem que, de qualquer jeito, sou o vosso rei. Não podem esconder nada de mim. Sou o responsável.” O povo começou a murmurar. O rei mandou chamar a noiva. Ela veio com uma barriga de seis meses de gestação. O rei não acreditou e mandou todo mundo ir embora. Chamou a sua mulher mais velha e perguntou-lhe sobre o ocorrido. Ela respondeu: “Você nos entregou nas mãos daquele jovem. Por que confiou nele mais do que em qualquer um deste reino? Foi ele quem fez este trabalho”.

O rei não acreditou. Chamou a segunda esposa. Ela falou a mesma coisa. Por último, chamou a própria noiva. Ela também afirmou a mesma coisa. Assim, o rei convocou uma reunião dos mais velhos, os quais também confirmaram a mesma versão da história. Disseram ao rei: “Nós avisamos ao senhor de que não devia confiar neste jovem. Ele poderia trazer perigo ao reino. Agora já viu”. O rei chamou o rapaz e pediu- lhe explicações.

Mas o rei não acreditou nele. Mandou todos embora. O rapaz ficou abalado com a situação. Foi dormir e se lembrou da segunda lição do seu mestre: "Se não fizeres nada, não deve temer" ou melhor "quem não deve não teme". O jovem ficou um pouco mais tranquilo. No reino, havia um local de punição, no qual as pessoas eram decapitadas. Primeiro, o rei mandava a pessoa que seria punida a cavalo. Depois, mandava uma segunda pessoa, a qual trazia a cabeça ao rei. Todos que trabalham ali, portanto, sabiam que a primeira pessoa que chegasse ao local seria decapitada.

Depois de amanhecer, o rei mandou o jovem montar no cavalo. Indicou-lhe essa localidade. O jovem foi correndo, com pressa, pois o rei lhe disse que era urgente. O jovem estava correndo em grande velocidade, mas de repente uma mulher velha saiu e começou a chamar o jovem: “Meu filho, meu filho. Espera!” O jovem não queria esperar, mas lembrou a última lição do seu mestre: "Por mais que estiver com pressa, quando alguém lhe chamar, pare e escute o que essa pessoa tem a dizer". O jovem parou. A velha convidou-o para o almoço, dizendo-lhe: “Meu filho,você pode estar com fome”.

Durante aquele diálogo, o outro jovem famoso do reino passou em grande velocidade para pegar a cabeça do jovem, mas ambos não sabiam de nada. O jovem terminou a conversa com a velha e seguiu a sua viagem. Finalmente, havia chegado ao destino para o qual foi mandado. Lá, então, foi entregue a cabeça do jovem famoso. Quando o cavalo se aproximou da cidade, os que suspeitavam o que ia acontecer pensaram que iriam se livrar do jovem. Mas, felizmente, o jovem apareceu com a cabeça do outro traidor. Todo mundo ficou pasmado. O rei disse ao seu povo: “Este jovem é inocente. Tentaram humilhá-lo, mas Deus fez a justiça”. Os mais velhos admitiram que foi traição. Então, o rei, como não tinha herdeiros, decidiu nomear o jovem como o novo rei.

 

Esse conto, “O Rei e o Jovem Viajante”, tem estrutura típica da literatura oral africana, em que um jovem humilde parte em busca de sabedoria, recebe ensinamentos simples mas profundos e, com eles, consegue sobreviver a provas de injustiça e traição. O enredo também tem semelhanças com contos populares árabes e africanos islamizados (pela presença de mestres sábios, reis, conselhos curtos com valor de máximas e provas morais), o que sugere origem na África Ocidental (provavelmente Guiné-Bissau ou região mandinga). Não há um autor individual — é uma narrativa transmitida por contadores tradicionais, adaptada em diferentes versões. (grifo nosso)

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A verdadeira sabedoria não está na quantidade de estudos, mas na prática de princípios simples que orientam a vida: aceitar responsabilidades, viver sem medo quando se tem a consciência limpa, e dar ouvidos aos outros mesmo em meio à pressa. Esses conselhos, aparentemente pequenos, salvaram a vida do jovem e abriram-lhe o caminho para a realeza. A lição é que disciplina, retidão e atenção aos detalhes podem ser mais poderosos do que riqueza, status ou falsos testemunhos. (grifo nosso)

 

45 - TATÁ E MORRÓ

 

Era uma cidade onde existia um casal humilde, a mulher veio a engravidar e deu à luz a gémeos que deram os nomes de Tatá e Moró. Essa família humilde, depois de terem as crianças ampliaram o esforço para conseguir manter as despesas da família.

Passados alguns tempos os meninos começaram a crescer até atingirem a fase da adolescência, os pais chamaram-lhes para uma reunião.

Disseram para eles, que vieram de uma família humilde e queriam que eles estivessem sempre unidos. - Se um falar uma coisa o outro teria que aceitar, mesmo não estando de acordo, porque não queriam ver a divergência no seio dos dois irmãos. Depois que chegaram na fase adulta, os pais pediram-lhes para triturar amendoim misturado com arroz com o intuito de fazer o prato tradicional guineense (Kuntchuro).

Tatá fez mau uso dos conselhos dos pais: pediu ao irmão grémio que triturassem os vidros junto com a mistura (amendoim e arroz). O Morró ao analisar o pedido do irmão, recusou à priori. Então, o Tatá lembrou ao irmão sobre um dos conselhos dados pelo país “de não se divergirem”. Morró acabou aceitando a ideia do irmão mesmo contra a sua vontade, obedecendo assim o que eram recomendados.

Assim sendo, alguns minutos depois entregaram essa mistura para a mãe deles, que resolveu fazer o almoço com a mistura. Quando foi servido a comida os pais que não sabiam de nada, da conspiração dos filhos degustaram esse saboroso prato, os filhos como já sabiam do que tinham feito não aceitaram almoçar fingindo não terem fome, que só iriam comer mais tarde.

Após trinta minutos da ingestão dessa comida os pais começaram a passar mal, vomitando sangue e perdendo a força totalmente e acabaram morrendo. O Tatá pediu ao Morró que enterrassem os pais secretamente de modo a evitar suspeitas por parte dos familiares sobre as mortes estranhas dos pais e assim fizeram.

Logo após as cerimónias fúnebres, Tatá sugeriu ao irmão que queimassem a casa dos pais e mudarem para outra cidade de modo encobrir o rastro. O irmão recusou novamente alegando que a casa era o único bens que os pais tinham deixado para eles serviria como abrigo e tem um valor sentimental como lembrança do legado dos pais, o Tatá usou mais uma vez os conselhos dos pais negativamente fazendo atos covardes e bárbaros.

Como Tatá alegou os conselhos dados pelos pais, Morró acabou aceitando honrando assim os pais. Incendiaram a casa e mudaram-se para outro reino, ao chegarem lá se apresentaram ao palácio onde foram recebidos pelo rei, tradicionalmente todos os hóspedes que chegarem eram encaminhados até o palácio, para que o rei lhes passasse as orientações pois esse reino era diferenciado lá não existia o dia, porque tinha um demónio que botou um encantamento ao reno e a partir desta data nunca mais tinham visto Sol.

Todos eram obrigados a se recolherem antes das dezoito horas, caso contrário eram devorados sem piedade por esse demónio. Tatá ao ouvir esse aviso do rei riu- se e falou com uma voz suave e silenciosa que não dava para ninguém ouvir “era isso que eu queria mesmo, desafiar esse tal demónio”. Depois dessa conversa o rei ordenou aos guardas que mostrassem a casa dos hóspedes para os dois irmãos.

Por parte das dezassete e trinta, as pessoas começaram a entrar nas suas casas e trancarem suas portas até o rei e tanto seus guardas, nesse momento que o famoso Tatá pegou umas armas brancas (Espada, lança, facão, etc.) acendeu uma fogueira em frente da casa onde tinham hospedado. Os guardas avisaram ele que o fogo iria chamar atenção do demónio que ele apagasse aquele fogo, mas ele simplesmente ignorou, o irmão também lhe avisou sobre as orientações do rei também não ouviu o irmão.

O Irmão recolheu- se antes das dezoito horas para não ser morto pelo demónio. Há algum tempo depois apareceu o demónio rodando por toda a cidade encontrou a fogueira acendida pelo Tatá com um menino na frente “o famoso Tatá”, o demónio falou assim:

-Quem é você?

O Tatá ergueu a cabeça e lhe fez a mesma pergunta. Aí o demónio sentiu- se ofendido. Imagine um demónio que até o rei e o seu exército não tinham a ousadia de enfrentar. O demónio disse-lhe: vou te perguntar só mais uma vez.

-Quem é você? O Tatá retribuiu novamente.

-Quem é você?

O demónio atacou-o para matar, ele que era corajoso e valente posicionou- se com as suas armas brancas, atirou uma lança que atingiu o demónio no olho esquerdo, mesmo assim continuou a briga. o Tatá atirou a lança pela segunda vez que atingiu o olho direito do demónio e atravessou o cérebro, que se enfraqueceu. Então, o Tatá avançou- se e o decapitou, colocou a cabeça num saco e guardo debaixo da cama no quarto em que estavam hospedados.

Em seguida arrastou o corpo pesado desse demónio e o encostou na porta principal do palácio e foi dormir. Naquele dia o Sol amanheceu naquele reino, o povo todo alegre pôs- se a gritar de felicidade. O rei e os guardas concordaram e encontraram, por incrível que pareça, o corpo do demónio no portão do palácio. O rei ficou assustado e alegre ao mesmo tempo, mandou os guardas retirarem o corpo e colocarem no centro da cidade.

Convocou toda a população para um comício de forma descobrir quem tinha feito aquele ato heroico. Oferecendo a mão de sua filha em casamento e o seu trono

futuramente, quando da sua morte. Feito isso, apareceram um monte de sujeitos alegando que tinham sido responsáveis pelo massacre do demónio. Outros matavam animais e sujavam- se todo de sangue só para provar o feito.

Do nada apareceu o Tatá no meio da multidão com um saco pelas costas, saco este em que havia colocado a cabeça do demónio, gritou numa viva voz: eu que matei o demónio e todos ficaram olhando para ele, o rei ordenou seguranças que o levassem para o palco. O rei lhe perguntou: - Ó meu hóspede foi você quem matou esse demónio?

O Tatá olhou para o rei com convicção e jogou o sacou no palco e falou:

- Está aqui a minha prova.

O rei ordenou que os seguranças abrissem o saco e encontraram a cabeça do demónio. Após provar, o rei cumpriu a sua promessa, anos depois por envelhecimento e doença faleceu o rei e Tatá se casou- se com a filha do rei e assumiu o trono.

 

Esse conto de “Tatá e Morró” tem uma configuração diferente dos anteriores: já não é só fábula de animais, mas uma narrativa de heróis humanos, com elementos de oralidade africana misturados a um enredo épico de bravura, traição e destino. A origem também parece ser da tradição oral guineense ou mandinga (a presença do prato Kuntchuro, de referências à vida aldeã, ao demónio que impede o nascer do sol e à prova de coragem do herói são traços muito característicos da Guiné-Bissau e da África Ocidental). Aqui vemos claramente a transição entre conto moralizante e mito fundador — Tatá acaba como rei, após derrotar o mal e devolver o sol ao reino. O texto provavelmente não tem autor individual, mas sim um contador tradicional que passou a história oralmente, mais tarde transcrita. (grifo nosso)


 

MORAL DA HISTÓRIA

A narrativa mostra dois caminhos opostos: Morró, obediente mas submisso, segue os conselhos cegamente e torna-se cúmplice de crimes; Tatá, pelo contrário, usa os mesmos conselhos como desculpa para a desobediência, a rebeldia e a ousadia. Apesar da sua crueldade inicial contra os pais, é a coragem e a determinação de Tatá que libertam o reino da escuridão. A lição é paradoxal: a obediência cega pode levar à perdição, enquanto a ousadia pode transformar-se em heroísmo — mas só quando é usada para enfrentar verdadeiros males e não apenas para satisfazer caprichos pessoais. (grifo nosso)