Certo dia, um rapaz viu uma rapariga muito bonita e apaixonou-se por ela. Como se queria casar com ela, no outro dia, foi ter com os pais da rapariga para tratar do assunto.
—Essa nossa filha não fala. Caso consigas fazê-la falar, podes casar com ela, responderam os pais da rapariga.
O rapaz aproximou-se da menina e começou a fazer-lhe várias perguntas, a contar coisas engraçadas, bem como a insultá-la, mas a miúda não chegou a rir e não pronunciou uma só palavra. O rapaz desistiu e Foi-se embora.
Após este rapaz, seguiram-se outros pretendentes, alguns com muita fortuna, mas, ninguém conseguiu fazê- la falar.
O último pretendente era um rapaz sujo, pobre e insignificante. Apareceu junto dos pais da rapariga dizendo que queria casar com ela, ao que os pais responderam:
—Se já várias pessoas apresentáveis e com muito dinheiro não conseguiram fazê-la falar, tu é que vais conseguir? Nem penses nisso!
O rapaz insistiu e pediu que o deixassem tentar a sorte. Por fim, os pais acederam. O rapaz pediu à rapariga para irem à sua machamba, para esta o ajudar a sachar. A machamba estava carregada de muito milho e amendoim e o rapaz começou a sachá-los.
Depois de muito trabalho, a menina ao ver que o rapaz estava a acabar com os seus produtos, perguntou-lhe:
—O que estás a fazer?
O rapaz começou a rir e, por fim, disse para regressarem a casa para junto dos pais dela e acabarem de uma vez com a questão. Quando aí chegaram, o rapaz contou o que se tinha passado na machamba. A questão foi discutida pelos anciãos da aldeia e organizou-se um grande casamento.
Este conto “A Menina que Não Falava” tem origem moçambicana, recolhido da tradição oral em coletâneas de Contos Populares de Moçambique. Ele pertence ao ciclo de narrativas que usam enigmas, provações ou tarefas difíceis como condição para o casamento, comuns em várias culturas africanas.
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
Os pretendentes ricos e vaidosos falharam porque tentaram impressionar com palavras e status. Já o rapaz pobre usou o trabalho na machamba (horta) como forma de provar esforço e persistência. O trabalho agrícola, na tradição africana, é símbolo de dignidade, sobrevivência e honestidade.
A rapariga só quebrou o silêncio quando viu os frutos do seu sustento ameaçados. Isso mostra que a vida prática, ligada à terra e ao alimento, é mais forte do que o luxo ou o discurso vazio.
O rapaz “sujo, pobre e insignificante” é quem consegue resolver o enigma. A moral aqui sublinha um valor africano recorrente: não se julga alguém pelas aparências, mas pelo caráter e pela utilidade que demonstra à comunidade.
O casamento, na tradição africana, exige trabalho e responsabilidade. Não basta riqueza ou beleza; é preciso mostrar que se sabe cuidar da terra, da família e da comunidade. O casamento é visto como aliança produtiva e não mero capricho pessoal.
Em resumo: A moral é que, em África, a verdadeira riqueza é o trabalho, a humildade e a capacidade de resolver problemas com sabedoria prática. O amor e o casamento não se conquistam com fortuna, mas com esforço e caráter. Na vida comunitária, as acções valem mais do que palavras e o trabalho revela o verdadeiro valor da pessoa. A sabedoria não escolhe aparência.
Sem comentários:
Enviar um comentário