NARRAÇÃO

domingo, 31 de agosto de 2025

17 - A GAZELA E O CARACOL

 

Uma gazela encontrou um caracol e disse-lhe:

—Tu, caracol, és incapaz de correr, só te arrastas pelo chão. O caracol respondeu:

—Vem cá no Domingo e verás!

O caracol arranjou cem papéis e em cada folha escreveu: «Quando vier a gazela e disser "caracol", tu respondes com estas palavras: "Eu sou o caracol"». Dividiu os papéis pelos seus amigos caracóis dizendo-lhes:

—Leiam estes papéis para que saibam o que fazer quando a gazela vier.

No Domingo a gazela chegou à povoação e encontrou o caracol. Entretanto, este pedira aos seus amigos que se escondessem em todos os caminhos por onde ela passasse, e eles assim fizeram.

Quando a gazela chegou, disse:

—Vamos correr, tu e eu, e tu vais ficar para trás!

O caracol meteu-se num arbusto, deixando a gazela correr. Enquanto esta corria ia chamando:

—Caracol!

E havia sempre um caracol que respondia:

—Eu sou o caracol.

Mas nunca era o mesmo por causa das folhas de papel que foram distribuídas.

A gazela, por fim, acabou por se deitar, esgotada, morrendo com falta de ar. O caracol venceu, devido à esperteza de ter escrito cem papéis.

 Este conto “A Gazela e o Caracol” é de origem angolana, recolhido da tradição oral e preservado em antologias de contos populares de Angola. Ele pertence ao género das fábulas africanas, onde animais representam características humanas (a gazela = força e orgulho; o caracol = humildade e astúcia). (grifo nosso)

 

 MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

 A gazela confiou apenas na velocidade e na sua superioridade física, mas o caracol, com inteligência e cooperação, conseguiu vencê-la. O caracol só vence porque mobiliza os outros caracóis, mostrando o valor da solidariedade. A gazela, por desprezar o caracol e confiar apenas na sua vaidade, acaba por morrer exausta.

No contexto africano, a união do grupo sempre foi um princípio fundamental para enfrentar dificuldades (seja na agricultura, na guerra, ou nas relações sociais).Muitas vezes a sobrevivência não depende da força bruta, mas da astúcia diante de adversários mais poderosos.

Assim, ensina-se que quem se gaba demais e subestima os outros, termina derrotado.

O caracol, pequeno e aparentemente indefeso, representa os fracos que usam a criatividade para resistir e triunfar diante dos mais fortes. Esta mensagem ecoa nas sociedades africanas marcadas pela necessidade de engenho para enfrentar adversidades maiores (colonialismo, pobreza, desigualdade).





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