Provérbio: “A cobra que mata pode também curar, se soubermos extrair o seu segredo.”
Nas terras de Mbanza
Kitembo, cercadas por rios largos e florestas de árvores centenárias, vivia
uma mulher conhecida em toda a região: Zinga, a curandeira. Seu nome era
pronunciado com respeito e um certo temor. Diziam que ela conhecia a linguagem
das ervas, o sussurro das águas e até o segredo dos animais.
Certa manhã,
um caçador da aldeia foi mordido por uma mamba-preta, a mais temida das
serpentes. O veneno espalhava-se rápido por suas veias, e todos acreditavam que
a morte já o esperava. O ancião da aldeia enviou mensageiros apressados à casa
de Zinga, que vivia à beira da floresta.
Ela ouviu o relato com serenidade.
— Levem-me até o homem — disse apenas.
Ao chegar,
encontrou o caçador estendido, com respiração fraca e olhos turvos. A família
chorava em redor. Zinga aproximou-se, pousou a mão sobre o peito do homem e
murmurou palavras antigas.
— Ainda não é
hora dele partir — afirmou. — Mas só viverá se tivermos coragem de enfrentar a
própria serpente.
A aldeia
estremeceu com aquelas palavras. Como poderiam buscar a mesma cobra que quase
matara o caçador?
Zinga pediu
que três jovens a acompanhassem. Munida de um cesto, uma faca de osso e um
pequeno tambor que usava para invocar forças da floresta, adentrou a mata.
Por horas
caminharam sob o dossel fechado de árvores. O silêncio era quebrado apenas pelo
som de pássaros e pelo farfalhar das folhas. Zinga parava de vez em quando,
tocava suavemente o tambor e murmurava cantos que falavam com os espíritos da
natureza.
Finalmente,
chegaram a uma clareira onde a mamba-preta se enrolava sobre uma pedra,
reluzindo sob o sol como uma corrente de azeviche. Os jovens recuaram,
apavorados.
Mas Zinga avançou, calma, e começou a cantar:
— Serpente que mata, serpente que guarda, dá-me o veneno para que ele se
torne vida.
A cobra ergueu
a cabeça, a língua bifurcada dançando no ar. Por um instante pareceu pronta
para atacar, mas logo repousou, como se hipnotizada.
Zinga, com
movimentos lentos, usou a faca de osso para recolher algumas gotas do veneno,
que escorreram para o pequeno recipiente no cesto.
De volta à
aldeia, todos aguardavam ansiosos. Zinga misturou o veneno com raízes secas e
folhas que trouxera, preparando uma poção amarga.
— O que mata
também pode curar, se usado com sabedoria — explicou.
Com cuidado,
fez o caçador beber a mistura. Depois, colocou sobre a ferida um unguento feito
de folhas esmagadas. O homem contorceu-se em dores, suou em abundância, mas, ao
amanhecer, sua respiração tornou-se firme e seus olhos voltaram a brilhar.
A aldeia
inteira celebrou.
O ancião chamou Zinga diante de todos e disse:
— Tu nos ensinaste hoje que a morte pode se transformar em vida, e que a
coragem abre caminhos onde só havia medo.
Zinga, porém, respondeu:
— Não foi a minha mão que curou, mas o equilíbrio da própria natureza. A
serpente não é apenas inimiga. É também guardiã de segredos. O bem e o mal
vivem juntos; cabe-nos aprender a escolher.
A partir
daquele dia, Zinga passou a ensinar jovens aprendizes, homens e mulheres, para
que o saber não morresse com ela. Transmitia a ciência das ervas, mas também a
lição maior: não temer aquilo que não se entende, pois muitas vezes o perigo
guarda a chave da salvação.
Os
descendentes de Mbanza Kitembo contam até hoje que foi Zinga quem primeiro
mostrou que até o veneno pode ser transformado em remédio.
MORAL DA
HISTÓRIA
- Na vida pessoal: muitas vezes, os maiores desafios carregam em si a semente da nossa
superação. O que parece ameaça pode ser fonte de crescimento.
- Na saúde e na ciência: os perigos da natureza também escondem remédios. É a sabedoria — e
não o medo — que transforma o que destrói em cura.
- Nas relações humanas: pessoas difíceis ou situações dolorosas podem ensinar lições
valiosas, se tivermos coragem de enfrentá-las.
- Na sociedade moderna: preconceito e ignorância alimentam o medo. Mas o conhecimento abre
caminhos, permitindo transformar perigos em oportunidades.
A história de
Zinga mostra que a verdadeira sabedoria não foge do perigo, mas olha para
ele com olhos de quem busca aprender.
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