NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

34 - A CURANDEIRA ZINGA E O VENENO DA SERPENTE

 

Provérbio: “A cobra que mata pode também curar, se soubermos extrair o seu segredo.”

 

Nas terras de Mbanza Kitembo, cercadas por rios largos e florestas de árvores centenárias, vivia uma mulher conhecida em toda a região: Zinga, a curandeira. Seu nome era pronunciado com respeito e um certo temor. Diziam que ela conhecia a linguagem das ervas, o sussurro das águas e até o segredo dos animais.

Certa manhã, um caçador da aldeia foi mordido por uma mamba-preta, a mais temida das serpentes. O veneno espalhava-se rápido por suas veias, e todos acreditavam que a morte já o esperava. O ancião da aldeia enviou mensageiros apressados à casa de Zinga, que vivia à beira da floresta.

Ela ouviu o relato com serenidade.
— Levem-me até o homem — disse apenas.

Ao chegar, encontrou o caçador estendido, com respiração fraca e olhos turvos. A família chorava em redor. Zinga aproximou-se, pousou a mão sobre o peito do homem e murmurou palavras antigas.

— Ainda não é hora dele partir — afirmou. — Mas só viverá se tivermos coragem de enfrentar a própria serpente.

A aldeia estremeceu com aquelas palavras. Como poderiam buscar a mesma cobra que quase matara o caçador?

Zinga pediu que três jovens a acompanhassem. Munida de um cesto, uma faca de osso e um pequeno tambor que usava para invocar forças da floresta, adentrou a mata.

Por horas caminharam sob o dossel fechado de árvores. O silêncio era quebrado apenas pelo som de pássaros e pelo farfalhar das folhas. Zinga parava de vez em quando, tocava suavemente o tambor e murmurava cantos que falavam com os espíritos da natureza.

Finalmente, chegaram a uma clareira onde a mamba-preta se enrolava sobre uma pedra, reluzindo sob o sol como uma corrente de azeviche. Os jovens recuaram, apavorados.

Mas Zinga avançou, calma, e começou a cantar:
Serpente que mata, serpente que guarda, dá-me o veneno para que ele se torne vida.

A cobra ergueu a cabeça, a língua bifurcada dançando no ar. Por um instante pareceu pronta para atacar, mas logo repousou, como se hipnotizada.

Zinga, com movimentos lentos, usou a faca de osso para recolher algumas gotas do veneno, que escorreram para o pequeno recipiente no cesto.

De volta à aldeia, todos aguardavam ansiosos. Zinga misturou o veneno com raízes secas e folhas que trouxera, preparando uma poção amarga.

— O que mata também pode curar, se usado com sabedoria — explicou.

Com cuidado, fez o caçador beber a mistura. Depois, colocou sobre a ferida um unguento feito de folhas esmagadas. O homem contorceu-se em dores, suou em abundância, mas, ao amanhecer, sua respiração tornou-se firme e seus olhos voltaram a brilhar.

A aldeia inteira celebrou.

O ancião chamou Zinga diante de todos e disse:
— Tu nos ensinaste hoje que a morte pode se transformar em vida, e que a coragem abre caminhos onde só havia medo.

Zinga, porém, respondeu:
— Não foi a minha mão que curou, mas o equilíbrio da própria natureza. A serpente não é apenas inimiga. É também guardiã de segredos. O bem e o mal vivem juntos; cabe-nos aprender a escolher.

A partir daquele dia, Zinga passou a ensinar jovens aprendizes, homens e mulheres, para que o saber não morresse com ela. Transmitia a ciência das ervas, mas também a lição maior: não temer aquilo que não se entende, pois muitas vezes o perigo guarda a chave da salvação.

Os descendentes de Mbanza Kitembo contam até hoje que foi Zinga quem primeiro mostrou que até o veneno pode ser transformado em remédio.

 

MORAL DA HISTÓRIA

  • Na vida pessoal: muitas vezes, os maiores desafios carregam em si a semente da nossa superação. O que parece ameaça pode ser fonte de crescimento.
  • Na saúde e na ciência: os perigos da natureza também escondem remédios. É a sabedoria — e não o medo — que transforma o que destrói em cura.
  • Nas relações humanas: pessoas difíceis ou situações dolorosas podem ensinar lições valiosas, se tivermos coragem de enfrentá-las.
  • Na sociedade moderna: preconceito e ignorância alimentam o medo. Mas o conhecimento abre caminhos, permitindo transformar perigos em oportunidades.

A história de Zinga mostra que a verdadeira sabedoria não foge do perigo, mas olha para ele com olhos de quem busca aprender.


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