NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

35 - O COLAR DE N’ZINGA

 

Provérbio: “Quem não guarda a memória dos antigos, perde-se no caminho dos novos.”


Na aldeia de Muxima, à beira do grande rio Kwanza, vivia uma mulher idosa chamada N’Zinga. Ela não era rainha, nem guerreira, nem curandeira famosa, mas era considerada a Mãe da Aldeia.
Sua maior riqueza era um colar de contas vermelhas e pretas, feito de sementes raras que herdara da avó. O colar não tinha ouro nem pedras preciosas, mas carregava histórias de gerações: cada conta representava um antepassado, uma luta vencida, uma canção esquecida.

N’Zinga dizia:
Enquanto o colar existir, a memória da nossa gente viverá.

Os jovens de Muxima, porém, começavam a olhar para o mundo com outros olhos. Alguns queriam partir para a cidade, outros sonhavam com roupas modernas e riquezas que não vinham da terra, mas do comércio e do dinheiro. Para eles, o colar parecia apenas um enfeite velho, sem valor.

Um dia, o neto mais novo de N’Zinga, chamado Kiala, perguntou:
— Avó, para que serves tuas sementes antigas, se com elas não podemos comprar pão nem sal?

A velha suspirou e respondeu:
— Filho, o pão alimenta o corpo, mas a memória alimenta a alma. Sem memória, não somos nada.

Certa madrugada, enquanto todos dormiam, estranhos vindos da cidade invadiram a aldeia. Procuravam objetos antigos para vender como artesanato. Ao entrar na casa de N’Zinga, viram o colar e o levaram.

Quando o roubo foi descoberto, a velha chorou como se tivesse perdido parte de si.
— Levaram a minha voz, levaram o coração dos nossos antepassados.

A juventude, que até então não dava importância ao colar, começou a sentir um vazio. O que antes era só um adorno agora parecia essencial.

Movido pela culpa, o jovem Kiala decidiu procurar o colar. Com outros rapazes, seguiu o rastro até a cidade. Viram os ladrões tentando vender o colar num mercado, entre bugigangas sem valor.

Kiala aproximou-se e disse:
— Esse colar não tem preço. É a alma de uma aldeia. Devolvam-no.

Os ladrões riram.
— Se querem, paguem.

Kiala, sem ter dinheiro, ofereceu em troca a sua única posse: um pequeno rádio que guardava com orgulho. Os ladrões aceitaram, e o colar voltou às mãos do jovem.

Ao regressar à aldeia, Kiala ajoelhou-se diante da avó e colocou o colar em seu pescoço.
— Perdoa-me, avó. Eu não entendia o valor destas contas. Agora sei que sem elas não sabemos quem somos.

N’Zinga sorriu, enxugando as lágrimas.
— Não me peças perdão, filho. O importante é que aprendeste. O colar não é meu. É teu. É de todos.

A partir desse dia, N’Zinga passou a ensinar as histórias escondidas em cada conta do colar. Os jovens, antes distraídos com sonhos de cidade, começaram a reunir-se para ouvir. O colar tornou-se um livro vivo, passando de geração em geração.

Quando N’Zinga sentiu que o tempo de sua partida se aproximava, chamou os netos e disse:
— Um povo que esquece seus antepassados é como árvore sem raízes. Guardem este colar, mas, mais do que isso, guardem a memória. Porque a memória é o verdadeiro colar que nunca se perde.

Depois disso, fechou os olhos e partiu em paz.

 

MORAL DA HISTÓRIA

  • Na vida pessoal: respeitar a história da família e ouvir os mais velhos ajuda a formar identidade e caráter.
  • Na comunidade: tradições, línguas e costumes não são atrasos, mas tesouros que fortalecem a cultura de um povo.
  • No mundo moderno: em meio à globalização, é fácil perder raízes. Mas sem raízes, não há crescimento sólido.
  • Na vida espiritual e moral: a memória dos que vieram antes de nós é bússola para os que virão depois.

Assim, o colar de N’Zinga ensina que a verdadeira riqueza não está no ouro, mas na memória viva que sustenta gerações.

 


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