Provérbio: “Quem não guarda a memória dos antigos, perde-se no caminho dos novos.”
Na aldeia de Muxima, à beira do grande rio
Kwanza, vivia uma mulher idosa chamada N’Zinga. Ela não era rainha, nem
guerreira, nem curandeira famosa, mas era considerada a Mãe da Aldeia.
Sua maior riqueza era um colar de contas vermelhas e pretas, feito de
sementes raras que herdara da avó. O colar não tinha ouro nem pedras preciosas,
mas carregava histórias de gerações: cada conta representava um antepassado,
uma luta vencida, uma canção esquecida.
N’Zinga dizia:
— Enquanto o colar existir, a memória da nossa gente viverá.
Os jovens de
Muxima, porém, começavam a olhar para o mundo com outros olhos. Alguns queriam
partir para a cidade, outros sonhavam com roupas modernas e riquezas que não
vinham da terra, mas do comércio e do dinheiro. Para eles, o colar parecia
apenas um enfeite velho, sem valor.
Um dia, o neto mais novo de N’Zinga, chamado Kiala,
perguntou:
— Avó, para que serves tuas sementes antigas, se com elas não podemos comprar
pão nem sal?
A velha suspirou e respondeu:
— Filho, o pão alimenta o corpo, mas a memória alimenta a alma. Sem memória,
não somos nada.
Certa
madrugada, enquanto todos dormiam, estranhos vindos da cidade invadiram a
aldeia. Procuravam objetos antigos para vender como artesanato. Ao entrar na
casa de N’Zinga, viram o colar e o levaram.
Quando o roubo
foi descoberto, a velha chorou como se tivesse perdido parte de si.
— Levaram a minha voz, levaram o coração dos nossos antepassados.
A juventude,
que até então não dava importância ao colar, começou a sentir um vazio. O que
antes era só um adorno agora parecia essencial.
Movido pela
culpa, o jovem Kiala decidiu procurar o colar. Com outros rapazes, seguiu o
rastro até a cidade. Viram os ladrões tentando vender o colar num mercado,
entre bugigangas sem valor.
Kiala aproximou-se e disse:
— Esse colar não tem preço. É a alma de uma aldeia. Devolvam-no.
Os ladrões riram.
— Se querem, paguem.
Kiala, sem ter
dinheiro, ofereceu em troca a sua única posse: um pequeno rádio que guardava
com orgulho. Os ladrões aceitaram, e o colar voltou às mãos do jovem.
Ao regressar à
aldeia, Kiala ajoelhou-se diante da avó e colocou o colar em seu pescoço.
— Perdoa-me, avó. Eu não entendia o valor destas contas. Agora sei que sem elas
não sabemos quem somos.
N’Zinga sorriu, enxugando as lágrimas.
— Não me peças perdão, filho. O importante é que aprendeste. O colar não é meu.
É teu. É de todos.
A partir desse
dia, N’Zinga passou a ensinar as histórias escondidas em cada conta do colar.
Os jovens, antes distraídos com sonhos de cidade, começaram a reunir-se para
ouvir. O colar tornou-se um livro vivo, passando de geração em geração.
Quando N’Zinga
sentiu que o tempo de sua partida se aproximava, chamou os netos e disse:
— Um povo que esquece seus antepassados é como árvore sem raízes. Guardem este
colar, mas, mais do que isso, guardem a memória. Porque a memória é o
verdadeiro colar que nunca se perde.
Depois disso,
fechou os olhos e partiu em paz.
MORAL DA
HISTÓRIA
- Na vida pessoal: respeitar a história da família e ouvir os mais velhos ajuda a formar
identidade e caráter.
- Na comunidade: tradições, línguas e costumes não são atrasos, mas tesouros que
fortalecem a cultura de um povo.
- No mundo moderno: em meio à globalização, é fácil perder raízes. Mas sem raízes, não há
crescimento sólido.
- Na vida espiritual e moral: a memória dos que vieram antes de nós é bússola para os que virão
depois.
Assim, o colar
de N’Zinga ensina que a verdadeira riqueza não está no ouro, mas na memória
viva que sustenta gerações.
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