NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

36 - 🌙 O Guardião da Lua Cheia

 

Provérbio: “A noite pode esconder segredos, mas a lua sempre mostra o caminho a quem não tem medo de olhar.”


Na antiga aldeia de Kambaxe, cercada por florestas espessas e rios profundos, havia um mistério que os mais velhos sempre contavam às crianças: durante as noites de lua cheia, ninguém deveria atravessar a clareira do monte Kimbanda.

Dizia-se que ali surgia o Guardião da Lua Cheia, um espírito alto como uma palmeira e de olhos que brilhavam como brasas. Ele caminhava silencioso e punia quem ousasse desafiar o silêncio da noite.

As crianças ouviam essa história com medo, e os jovens riam com incredulidade. Mas todos, sem exceção, obedeciam: na lua cheia, ninguém se aproximava do monte.

Entre os jovens da aldeia havia um chamado Makana, filho de pescador. Ele era destemido e curioso, sempre disposto a desafiar o que considerava “superstição dos velhos”.

Numa noite em que a lua cheia estava tão grande que parecia querer descer à terra, Makana disse aos amigos:
— Hoje vou atravessar a clareira. Quero ver com meus próprios olhos esse tal Guardião.

Os outros tentaram convencê-lo a desistir:
— Makana, não desafies os ancestrais. O que está escondido na noite não deve ser perturbado.

Mas Makana riu:
— Eu só acredito no que vejo.

À meia-noite, Makana pegou uma tocha e caminhou até a clareira. O silêncio era profundo; nem os grilos ousavam cantar. A lua iluminava tudo com uma luz prateada.

No início, ele sentiu apenas o vento frio e o farfalhar das árvores. Mas, de repente, ouviu passos pesados, como de um elefante caminhando devagar. A terra tremia.

De trás das sombras, surgiu uma figura imensa. O corpo parecia feito de fumaça, mas os olhos eram duas chamas vivas. O Guardião da Lua Cheia havia aparecido.

Makana tremeu, mas tentou manter a coragem:
— Quem és tu, espírito? Por que assustas a minha aldeia?

A voz que respondeu não era humana: era grave, como se viesse do próprio chão.
— Eu não assusto. Eu protejo. Sou o Guardião, posto aqui pelos ancestrais para guardar o equilíbrio da noite.

O espírito ergueu uma das mãos de fumaça e apontou para o jovem.
— Tu tens coragem, Makana. Mas a coragem sem sabedoria é caminho para a morte. Se desejas passar pela clareira, deves responder ao meu enigma.

Makana respirou fundo e assentiu.

O Guardião disse:
— O que é que cresce quando se divide, e morre quando se guarda só para si?

Makana pensou. Primeiro imaginou comida, depois água, mas nada parecia correto. O espírito aproximava-se, e o calor de seus olhos ardia como fogo.

De repente, lembrou-se das palavras de sua mãe: “O amor só vive quando é partilhado.”

Então respondeu:
— É a palavra. É o amor. São coisas que só crescem quando se dividem.

O Guardião silenciou. Depois ergueu os olhos para a lua e disse:
— Respondeste bem, jovem.

Em vez de atacar, o Guardião abriu a mão de fumaça e dela surgiu um pequeno pó de estrelas, que brilhou intensamente. Ele entregou a Makana.

— Leva este pó à tua aldeia. Mistura-o à água do rio e todos terão coragem e sabedoria para enfrentar os dias difíceis.

Makana ajoelhou-se em respeito.
— Não voltarei a rir das histórias dos mais velhos. Agora sei que cada conto esconde uma verdade.

O Guardião então desapareceu, dissolvendo-se no vento.

Makana correu de volta. Ao amanhecer, mostrou o pó brilhante ao ancião Kiala, que entendeu de imediato.
— Foste ousado, rapaz. O Guardião só se mostra a quem a lua escolhe.

Misturaram o pó nas águas do rio, e os aldeões sentiram um vigor novo. As crianças perderam o medo, os caçadores voltaram com fartura, e a comunidade tornou-se mais unida.

A história de Makana espalhou-se por aldeias vizinhas. Mas o jovem nunca se vangloriou. Quando lhe perguntavam sobre o Guardião, respondia apenas:
— Aprendi que a coragem não é enfrentar o perigo sozinho, mas respeitar o que os antepassados já sabiam.

 

MORAL DA HISTÓRIA

  • Na vida pessoal: A curiosidade é boa, mas deve vir acompanhada de respeito e sabedoria.
  • Na comunidade: As histórias e avisos dos mais velhos não são apenas lendas para assustar, mas guardam ensinamentos sobre prudência, união e respeito à natureza.
  • Na vida moderna: Muitas vezes, rejeitamos tradições por parecerem “antigas”, mas elas escondem valores que ainda hoje evitam erros e fortalecem identidades.
  • Na vida espiritual: A verdadeira coragem não é desafiar os mistérios sem sentido, mas buscar entendimento e aprender a partilhar o que se descobre.

Assim, Makana ensinou que o medo pode ser vencido, mas nunca à custa da arrogância — e que a sabedoria dos ancestrais é um farol tão necessário quanto a luz da lua cheia.

 

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