Provérbio: “A noite pode esconder segredos, mas a lua sempre mostra o caminho a quem não tem medo de olhar.”
Na antiga
aldeia de Kambaxe, cercada por florestas espessas e rios profundos,
havia um mistério que os mais velhos sempre contavam às crianças: durante as
noites de lua cheia, ninguém deveria atravessar a clareira do monte Kimbanda.
Dizia-se que
ali surgia o Guardião da Lua Cheia, um espírito alto como uma palmeira e
de olhos que brilhavam como brasas. Ele caminhava silencioso e punia quem
ousasse desafiar o silêncio da noite.
As crianças
ouviam essa história com medo, e os jovens riam com incredulidade. Mas todos,
sem exceção, obedeciam: na lua cheia, ninguém se aproximava do monte.
Entre os
jovens da aldeia havia um chamado Makana, filho de pescador. Ele era
destemido e curioso, sempre disposto a desafiar o que considerava “superstição
dos velhos”.
Numa noite em que a lua cheia estava tão grande
que parecia querer descer à terra, Makana disse aos amigos:
— Hoje vou atravessar a clareira. Quero ver com meus próprios olhos esse tal
Guardião.
Os outros tentaram convencê-lo a desistir:
— Makana, não desafies os ancestrais. O que está escondido na noite não deve
ser perturbado.
Mas Makana riu:
— Eu só acredito no que vejo.
À meia-noite,
Makana pegou uma tocha e caminhou até a clareira. O silêncio era profundo; nem
os grilos ousavam cantar. A lua iluminava tudo com uma luz prateada.
No início, ele
sentiu apenas o vento frio e o farfalhar das árvores. Mas, de repente, ouviu
passos pesados, como de um elefante caminhando devagar. A terra tremia.
De trás das
sombras, surgiu uma figura imensa. O corpo parecia feito de fumaça, mas os
olhos eram duas chamas vivas. O Guardião da Lua Cheia havia aparecido.
Makana tremeu, mas tentou manter a coragem:
— Quem és tu, espírito? Por que assustas a minha aldeia?
A voz que
respondeu não era humana: era grave, como se viesse do próprio chão.
— Eu não assusto. Eu protejo. Sou o Guardião, posto aqui pelos ancestrais para
guardar o equilíbrio da noite.
O espírito
ergueu uma das mãos de fumaça e apontou para o jovem.
— Tu tens coragem, Makana. Mas a coragem sem sabedoria é caminho para a morte.
Se desejas passar pela clareira, deves responder ao meu enigma.
Makana
respirou fundo e assentiu.
O Guardião disse:
— O que é que cresce quando se divide, e morre quando se guarda só para si?
Makana pensou.
Primeiro imaginou comida, depois água, mas nada parecia correto. O espírito
aproximava-se, e o calor de seus olhos ardia como fogo.
De repente,
lembrou-se das palavras de sua mãe: “O amor só vive quando é partilhado.”
Então
respondeu:
— É a palavra. É o amor. São coisas que só crescem quando se dividem.
O Guardião
silenciou. Depois ergueu os olhos para a lua e disse:
— Respondeste bem, jovem.
Em vez de
atacar, o Guardião abriu a mão de fumaça e dela surgiu um pequeno pó de
estrelas, que brilhou intensamente. Ele entregou a Makana.
— Leva este pó
à tua aldeia. Mistura-o à água do rio e todos terão coragem e sabedoria para
enfrentar os dias difíceis.
Makana ajoelhou-se em respeito.
— Não voltarei a rir das histórias dos mais velhos. Agora sei que cada conto
esconde uma verdade.
O Guardião
então desapareceu, dissolvendo-se no vento.
Makana correu
de volta. Ao amanhecer, mostrou o pó brilhante ao ancião Kiala, que
entendeu de imediato.
— Foste ousado, rapaz. O Guardião só se mostra a quem a lua escolhe.
Misturaram o
pó nas águas do rio, e os aldeões sentiram um vigor novo. As crianças perderam
o medo, os caçadores voltaram com fartura, e a comunidade tornou-se mais unida.
A história de
Makana espalhou-se por aldeias vizinhas. Mas o jovem nunca se vangloriou.
Quando lhe perguntavam sobre o Guardião, respondia apenas:
— Aprendi que a coragem não é enfrentar o perigo sozinho, mas respeitar o que
os antepassados já sabiam.
MORAL DA HISTÓRIA
- Na vida pessoal: A curiosidade é boa, mas deve vir acompanhada de respeito e
sabedoria.
- Na comunidade: As histórias e avisos dos mais velhos não são apenas lendas para
assustar, mas guardam ensinamentos sobre prudência, união e respeito à
natureza.
- Na vida moderna: Muitas vezes, rejeitamos tradições por parecerem “antigas”, mas elas
escondem valores que ainda hoje evitam erros e fortalecem identidades.
- Na vida espiritual: A verdadeira coragem não é desafiar os mistérios sem sentido, mas
buscar entendimento e aprender a partilhar o que se descobre.
Assim, Makana
ensinou que o medo pode ser vencido, mas nunca à custa da arrogância — e que a
sabedoria dos ancestrais é um farol tão necessário quanto a luz da lua cheia.
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