NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

37 - O ELEFANTE KALUNGA


Provérbio: “Um elefante não morre de uma costela quebrada.”

 

Na região do Lubuku e Kitemu, havia um velho elefante chamado Kalunga, respeitado por todos os animais da mata. Um dia, durante uma caçada, uma lança lançada por caçadores feriu-lhe o lado e partiu-lhe uma costela. Os antílopes murmuravam:

 — O fim de Kalunga chegou. Quem resiste a tal ferida?

 Mas Kalunga não caiu. Com dor, sim, mas continuou a andar. Encontrava água no rio, protegia as crias do rebanho e caminhava como se a vida não se resumisse à sua dor.

 Foi então que meu tio, avô Selalo Tayengo, como carinhosamente chamava, sentados à sombra no local onde era a sapataria, disse-me:

— Meu sobrinho, lembre-se disto: um elefante não morre de uma costela quebrada. A força não se mede pela ausência de feridas, mas pela capacidade de continuar apesar delas.

 Fiquei em silêncio, ouvindo a lição que atravessava o coração como flecha:

— Na vida, todos receberão golpes — injustiças, perdas, traições, doenças. Mas esses golpes não têm de ser o nosso fim. Assim como o elefante carrega o peso da floresta, também nós carregamos responsabilidades. Quem cai ao primeiro ferimento não conhece a grandeza da resistência.

 Kalunga, mesmo ferido, viveu muitos anos. Tornou-se um símbolo da mata: um corpo marcado, mas uma alma inteira. E toda vez que alguém se queixava por dificuldades pequenas, os anciãos lembravam:

— Até o elefante anda com uma costela quebrada, e tu reclamas por uma pedra no caminho?

 

MORAL DA HISTÓRIA

O provérbio angolano, recordado pelo avô Selalo, ensina que as feridas da vida não definem o fim, mas a forma como reagimos a elas. A dor faz parte do caminho, mas não é sentença de morte.

No contexto africano, onde a sobrevivência sempre exigiu resiliência — diante da seca, da guerra, da fome ou da perda — a lição é clara: a grandeza está em resistir, adaptar-se e seguir adiante, mesmo marcado pelas cicatrizes. 

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