NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

30 - A COROA DIVIDIDA

 

Provérbio: “Dois leões não reinam na mesma savana.”

 

No coração das matas de Angola, onde os rios se enroscam como serpentes e as montanhas se erguem como muralhas de pedra, existia o poderoso Reino de Mbwanza. O rei, Mwene Kafutila, era um soberano respeitado, dono de uma voz grave que ecoava como trovão e de olhos que penetravam como lâmina. Governara por quarenta anos com justiça, mas também com firmeza de ferro.

O tempo, porém, é inimigo até dos mais fortes. Quando os cabelos de Mwene ficaram brancos como algodão e sua pele enrugada como casca de árvore antiga, surgiu a questão que inquietava toda a corte: quem herdaria a coroa?

O rei tinha dois filhos:

  • Kiala, o primogênito, ambicioso, orgulhoso, de fala sedutora.
  • Kalunga, o segundo, sereno, paciente, de coração generoso e amado pelo povo.

O trono só poderia ser de um. Mas qual deles?

Quando o rei caiu doente, os príncipes começaram a disputar em segredo.

Kiala ia pelos mercados, prometendo ouro, festas e terras.
— Se eu reinar — dizia —, Mbwanza será rico e poderoso.

Kalunga, em contrapartida, visitava aldeias humildes, escutava os camponeses, ajudava nas colheitas e dizia:
— Se eu reinar, nenhum ventre ficará vazio e nenhuma injustiça ficará sem resposta.

A corte dividiu-se: os guerreiros apoiavam Kiala; o povo simples inclinava-se para para Kalunga. O reino estava prestes a se fragmentar.

Um dia, o rei chamou o Conselho dos Anciãos, guardiões da memória do reino. Entre eles estava Tata Mukwando, homem de voz lenta, barba branca até o peito e olhos marejados de sabedoria.

— Meus filhos — disse o rei, quase sem forças —, não quero que meu reino seja dividido pela ambição. Decidam quem é digno da coroa.

Os anciãos se reuniram durante três dias. No quarto, Tata Mukwando pediu ao rei que convocasse os dois príncipes.

No terreiro real, diante do povo e dos espíritos dos ancestrais, o velho ancião falou:

— A coroa de Mbwanza não pode ser dada a quem fala mais alto ou promete mais riqueza. Ela pertence àquele que mostrar sabedoria. Portanto, darei uma prova.

Os dois príncipes se aproximaram.

— Vejam esta coroa — disse Tata Mukwando, mostrando um círculo de ferro e ouro, pesado e brilhante. — Amanhã ao nascer do sol, cada um de vocês deverá trazer algo que caiba dentro desta coroa e que represente o que significa governar um povo. Quem trouxer a maior verdade será rei.

O povo murmurou. Era um desafio misterioso.

Na manhã seguinte, Kiala veio primeiro. Colocou dentro da coroa um punhado de pedras preciosas.
— Eis o que significa governar: riqueza, poder, brilho que faz respeitar um reino diante dos estrangeiros.

O povo aplaudiu, mas alguns cochichavam: “Pedras não alimentam barriga.”

Chegou a vez de Kalunga. Ele se curvou diante da coroa e, com cuidado, colocou dentro dela um pequeno punhado de sementes de milho.

— Eis o que significa governar: cuidar para que o povo nunca passe fome, plantar hoje para colher amanhã, pensar não apenas no brilho, mas na vida que cresce.

O povo exclamou de surpresa.

Tata Mukwando ergueu-se com a ajuda de um cajado.
— O ouro de Kiala é belo, mas não pode ser comido, não mata a sede, não gera futuro. As sementes de Kalunga, pequenas e humildes, carregam dentro delas florestas, pães, vida.

O ancião virou-se para o rei doente.
— Mwene Kafutila, os ancestrais já decidiram: Kalunga deve ser teu sucessor.

O velho rei sorriu, fechou os olhos e partiu para o descanso eterno.

Kiala, tomado pela fúria, quis pegar em armas.
— Nunca aceitarei que o mais novo reine sobre mim!

Mas o povo, unido, ergueu-se ao lado de Kalunga. E os guerreiros, que antes seguiam Kiala, ao verem a vontade da maioria, baixaram suas lanças.

O ambicioso príncipe fugiu para longe, e Kalunga foi coroado rei. Seu reinado durou muitos anos e foi lembrado como a época em que nenhum celeiro ficou vazio e nenhuma boca dormiu sem pão.

 

MORAL DA HISTÓRIA

Este conto ensina quatro verdades importantes:

  • Na liderança: governar não é apenas buscar riqueza e glória, mas pensar no bem-estar coletivo. O líder verdadeiro é aquele que planta para o futuro, não quem colhe apenas para si.
  • Na família: disputas por poder e herança podem destruir laços, mas quando há sabedoria e justiça, prevalece a harmonia.
  • Na vida pessoal: é melhor cultivar sementes (trabalho, estudo, humildade) do que perseguir brilhos vazios (vaidade, poder, ostentação).
  • Na política: povos prosperam não com líderes que enchem cofres, mas com aqueles que enchem celeiros.

Assim terminou a história de Kalunga, o rei das sementes, lembrando a todos que o verdadeiro poder está em alimentar vidas, não em acumular pedras.


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