Provérbio: “Dois leões não reinam na mesma savana.”
No coração das
matas de Angola, onde os rios se enroscam como serpentes e as montanhas se
erguem como muralhas de pedra, existia o poderoso Reino de Mbwanza. O
rei, Mwene Kafutila, era um soberano respeitado, dono de uma voz grave
que ecoava como trovão e de olhos que penetravam como lâmina. Governara por
quarenta anos com justiça, mas também com firmeza de ferro.
O tempo,
porém, é inimigo até dos mais fortes. Quando os cabelos de Mwene ficaram
brancos como algodão e sua pele enrugada como casca de árvore antiga, surgiu a
questão que inquietava toda a corte: quem herdaria a coroa?
O rei tinha
dois filhos:
- Kiala, o
primogênito, ambicioso, orgulhoso, de fala sedutora.
- Kalunga, o
segundo, sereno, paciente, de coração generoso e amado pelo povo.
O trono só
poderia ser de um. Mas qual deles?
Quando o rei
caiu doente, os príncipes começaram a disputar em segredo.
Kiala ia pelos mercados, prometendo ouro, festas
e terras.
— Se eu reinar — dizia —, Mbwanza será rico e poderoso.
Kalunga, em contrapartida, visitava aldeias
humildes, escutava os camponeses, ajudava nas colheitas e dizia:
— Se eu reinar, nenhum ventre ficará vazio e nenhuma injustiça ficará sem
resposta.
A corte
dividiu-se: os guerreiros apoiavam Kiala; o povo simples inclinava-se para para
Kalunga. O reino estava prestes a se fragmentar.
Um dia, o rei
chamou o Conselho dos Anciãos, guardiões da memória do reino. Entre eles
estava Tata Mukwando, homem de voz lenta, barba branca até o peito e
olhos marejados de sabedoria.
— Meus filhos
— disse o rei, quase sem forças —, não quero que meu reino seja dividido pela
ambição. Decidam quem é digno da coroa.
Os anciãos se
reuniram durante três dias. No quarto, Tata Mukwando pediu ao rei que
convocasse os dois príncipes.
No terreiro
real, diante do povo e dos espíritos dos ancestrais, o velho ancião falou:
— A coroa de
Mbwanza não pode ser dada a quem fala mais alto ou promete mais riqueza. Ela
pertence àquele que mostrar sabedoria. Portanto, darei uma prova.
Os dois
príncipes se aproximaram.
— Vejam esta
coroa — disse Tata Mukwando, mostrando um círculo de ferro e ouro, pesado e
brilhante. — Amanhã ao nascer do sol, cada um de vocês deverá trazer algo que
caiba dentro desta coroa e que represente o que significa governar um povo.
Quem trouxer a maior verdade será rei.
O povo
murmurou. Era um desafio misterioso.
Na manhã
seguinte, Kiala veio primeiro. Colocou dentro da coroa um punhado de pedras
preciosas.
— Eis o que significa governar: riqueza, poder, brilho que faz respeitar um
reino diante dos estrangeiros.
O povo
aplaudiu, mas alguns cochichavam: “Pedras não alimentam barriga.”
Chegou a vez
de Kalunga. Ele se curvou diante da coroa e, com cuidado, colocou dentro dela um
pequeno punhado de sementes de milho.
— Eis o que
significa governar: cuidar para que o povo nunca passe fome, plantar hoje para
colher amanhã, pensar não apenas no brilho, mas na vida que cresce.
O povo
exclamou de surpresa.
Tata Mukwando ergueu-se com a ajuda de um cajado.
— O ouro de Kiala é belo, mas não pode ser comido, não mata a sede, não gera
futuro. As sementes de Kalunga, pequenas e humildes, carregam dentro delas
florestas, pães, vida.
O ancião virou-se para o rei doente.
— Mwene Kafutila, os ancestrais já decidiram: Kalunga deve ser teu sucessor.
O velho rei
sorriu, fechou os olhos e partiu para o descanso eterno.
Kiala, tomado pela fúria, quis pegar em armas.
— Nunca aceitarei que o mais novo reine sobre mim!
Mas o povo,
unido, ergueu-se ao lado de Kalunga. E os guerreiros, que antes seguiam Kiala,
ao verem a vontade da maioria, baixaram suas lanças.
O ambicioso
príncipe fugiu para longe, e Kalunga foi coroado rei. Seu reinado durou muitos
anos e foi lembrado como a época em que nenhum celeiro ficou vazio e nenhuma
boca dormiu sem pão.
MORAL DA
HISTÓRIA
Este conto
ensina quatro verdades importantes:
- Na liderança: governar não é apenas buscar riqueza e glória, mas pensar no
bem-estar coletivo. O líder verdadeiro é aquele que planta para o futuro,
não quem colhe apenas para si.
- Na família: disputas por poder e herança podem destruir laços, mas quando há
sabedoria e justiça, prevalece a harmonia.
- Na vida pessoal: é melhor cultivar sementes (trabalho, estudo, humildade) do que
perseguir brilhos vazios (vaidade, poder, ostentação).
- Na política: povos prosperam não com líderes que enchem cofres, mas com aqueles
que enchem celeiros.
Assim terminou
a história de Kalunga, o rei das sementes, lembrando a todos que o
verdadeiro poder está em alimentar vidas, não em acumular pedras.
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