NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

29 - O JULGAMENTO DO TAMBOR

 

Provérbio: “A mentira pode correr rápido, mas a verdade caminha e chega primeiro.”


Nas margens do grande rio Kwanza, havia um reino chamado Kasanji, governado por um soba justo chamado Ngandu wa Kalunga.
Era conhecido por sua sabedoria, mas também pela firmeza: suas palavras eram como pedras que nem o vento conseguia mover.

No centro da aldeia, havia um tambor sagrado, guardado no terreiro do palácio. Não era um tambor comum — sua pele era de boi sacrificado em rituais antigos, e sua madeira fora cortada de uma árvore que, segundo os mais velhos, fora tocada pelos ancestrais.
Esse tambor não servia para festas. Era o Tambor da Verdade.

Sempre que alguém tinha uma acusação contra outro, batia-se três vezes no tambor diante do soba. O julgamento começava, e ninguém ousava mentir diante dele, pois o povo acreditava que o espírito dos antepassados puniria quem tentasse enganar.

Certa manhã, dois homens chegaram diante do palácio.
Um deles era Muteka, um comerciante de sal e peixe seco. O outro era Chikumbi, um camponês simples que vivia da mandioca e do milho.

Muteka bateu três vezes no tambor e gritou:
— Grande soba, este homem roubou minha cabra durante a noite!

O povo murmurou. Roubo de gado era crime grave.

Chikumbi, assustado, respondeu:
— Não é verdade, meu soba! Nunca pus a mão no que não é meu.

Ngandu wa Kalunga franziu o cenho.
— O tambor foi batido. Teremos julgamento.

O soba reuniu os anciãos. Entre eles estava Mama N’Kulu, uma velha de mais de noventa anos, cega, mas com a memória tão afiada quanto uma lâmina.

Os anciãos pediram provas.
Muteka falou com segurança:
— Vi pegadas perto do meu curral que levam à casa de Chikumbi. Além disso, minha cabra sumiu e na manhã seguinte ele tinha carne a secar no quintal!

O povo começou a cochichar.

Chikumbi respondeu, quase chorando:
— É verdade que tenho carne, mas não de cabra! Um javali caiu na minha armadilha na mesma noite. As pegadas que ele fala podem ser de qualquer pessoa.

O soba coçou a barba longa. Era um dilema: Muteka era influente, conhecido no mercado; Chikumbi, pobre e sem voz.

Então Mama N’Kulu pediu a palavra.
— Grande soba, a mentira veste-se de muitas roupas, mas sempre deixa os pés descalços. Façamos a prova do tambor.

Ngandu assentiu.
Colocaram diante do povo o grande tambor da verdade.

A anciã explicou:
— Cada acusado deverá colocar a mão sobre o tambor e dizer a verdade diante dos ancestrais. Aquele que mentir será castigado.

Muteka foi o primeiro. Aproximou-se com passos firmes, colocou a mão sobre a pele do tambor e disse:
— Juro diante dos espíritos que este homem roubou minha cabra.

Nada aconteceu. O povo murmurou: talvez estivesse a dizer a verdade.

Chegou a vez de Chikumbi. Tremendo, colocou a mão sobre o tambor e falou:
— Juro diante dos espíritos que nunca roubei a cabra de Muteka.

De repente, o tambor soltou um estrondo profundo, como se alguém o tivesse golpeado sozinho. O povo estremeceu e se ajoelhou: era sinal dos antepassados.

O soba ergueu-se em seu trono.
— O tambor falou. Chikumbi não mentiu.

Muteka ficou pálido, mas ainda tentou defender-se:
— Talvez tenha sido um engano… talvez outro tenha roubado minha cabra…

Foi então que Mama N’Kulu, rindo com sua boca sem dentes, disse:
— O tambor não mente. E os mentirosos sempre esquecem um detalhe. Muteka, disseste que as pegadas iam até a casa de Chikumbi. Mas se realmente tivesses seguido, verias que não havia rastro de cabra, apenas de homem. Foste tu mesmo que pegaste tua cabra e escondeste para acusar o vizinho.

O povo gritou em indignação. Muteka caiu de joelhos, envergonhado.

O soba levantou a mão, mostrando seu bastão de autoridade.
— Muteka, tua mentira quase destruiu um homem inocente. Em vez de castigar-te com chicote ou prisão, condeno-te a devolver tua cabra e a oferecer metade de teus lucros no mercado, durante um mês, para alimentar os órfãos da aldeia.

E concluiu:
— Que todos aprendam: a mentira pode correr rápido, mas a verdade caminha e chega primeiro.

O povo aplaudiu a justiça. Chikumbi foi absolvido e saiu agradecendo aos ancestrais. Muteka, envergonhado, cumpriu sua pena e, no final, tornou-se mais humilde.

 

MORAL DA HISTÓRIA

  • No trabalho: quem mente para ganhar vantagem pode até enganar por um tempo, mas cedo ou tarde a verdade vem à tona.
  • Na política: líderes que usam falsidade para destruir adversários acabam sendo desmascarados.
  • Na comunidade: fofocas e calúnias têm força para ferir, mas sempre deixam rastros que revelam a verdade.
  • Na vida pessoal: ser honesto pode custar mais no início, mas garante paz de espírito e respeito duradouro.

Este conto ensina que a verdade pode andar devagar, mas nunca perde a corrida.


Sem comentários:

Enviar um comentário