Provérbio: “A mentira pode correr rápido, mas a verdade caminha e chega primeiro.”
Nas margens do grande rio Kwanza, havia um reino
chamado Kasanji, governado por um soba justo chamado Ngandu wa
Kalunga.
Era conhecido por sua sabedoria, mas também pela firmeza: suas palavras eram
como pedras que nem o vento conseguia mover.
No centro da
aldeia, havia um tambor sagrado, guardado no terreiro do palácio. Não
era um tambor comum — sua pele era de boi sacrificado em rituais antigos, e sua
madeira fora cortada de uma árvore que, segundo os mais velhos, fora tocada
pelos ancestrais.
Esse tambor não servia para festas. Era o Tambor da Verdade.
Sempre que
alguém tinha uma acusação contra outro, batia-se três vezes no tambor diante do
soba. O julgamento começava, e ninguém ousava mentir diante dele, pois o povo
acreditava que o espírito dos antepassados puniria quem tentasse enganar.
Certa manhã, dois homens chegaram diante do
palácio.
Um deles era Muteka, um comerciante de sal e peixe seco. O outro era Chikumbi,
um camponês simples que vivia da mandioca e do milho.
Muteka bateu três vezes no tambor e gritou:
— Grande soba, este homem roubou minha cabra durante a noite!
O povo
murmurou. Roubo de gado era crime grave.
Chikumbi, assustado, respondeu:
— Não é verdade, meu soba! Nunca pus a mão no que não é meu.
Ngandu wa Kalunga franziu o cenho.
— O tambor foi batido. Teremos julgamento.
O soba reuniu
os anciãos. Entre eles estava Mama N’Kulu, uma velha de mais de noventa
anos, cega, mas com a memória tão afiada quanto uma lâmina.
Os anciãos pediram provas.
Muteka falou com segurança:
— Vi pegadas perto do meu curral que levam à casa de Chikumbi. Além disso,
minha cabra sumiu e na manhã seguinte ele tinha carne a secar no quintal!
O povo começou
a cochichar.
Chikumbi respondeu, quase chorando:
— É verdade que tenho carne, mas não de cabra! Um javali caiu na minha
armadilha na mesma noite. As pegadas que ele fala podem ser de qualquer pessoa.
O soba coçou a
barba longa. Era um dilema: Muteka era influente, conhecido no mercado;
Chikumbi, pobre e sem voz.
Então Mama N’Kulu pediu a palavra.
— Grande soba, a mentira veste-se de muitas roupas, mas sempre deixa os pés
descalços. Façamos a prova do tambor.
Ngandu
assentiu.
Colocaram diante do povo o grande tambor da verdade.
A anciã explicou:
— Cada acusado deverá colocar a mão sobre o tambor e dizer a verdade diante dos
ancestrais. Aquele que mentir será castigado.
Muteka foi o primeiro. Aproximou-se com passos
firmes, colocou a mão sobre a pele do tambor e disse:
— Juro diante dos espíritos que este homem roubou minha cabra.
Nada
aconteceu. O povo murmurou: talvez estivesse a dizer a verdade.
Chegou a vez
de Chikumbi. Tremendo, colocou a mão sobre o tambor e falou:
— Juro diante dos espíritos que nunca roubei a cabra de Muteka.
De repente, o
tambor soltou um estrondo profundo, como se alguém o tivesse golpeado
sozinho. O povo estremeceu e se ajoelhou: era sinal dos antepassados.
O soba ergueu-se em seu trono.
— O tambor falou. Chikumbi não mentiu.
Muteka ficou pálido, mas ainda tentou
defender-se:
— Talvez tenha sido um engano… talvez outro tenha roubado minha cabra…
Foi então que
Mama N’Kulu, rindo com sua boca sem dentes, disse:
— O tambor não mente. E os mentirosos sempre esquecem um detalhe. Muteka,
disseste que as pegadas iam até a casa de Chikumbi. Mas se realmente tivesses
seguido, verias que não havia rastro de cabra, apenas de homem. Foste tu mesmo
que pegaste tua cabra e escondeste para acusar o vizinho.
O povo gritou
em indignação. Muteka caiu de joelhos, envergonhado.
O soba levantou a mão, mostrando seu bastão de
autoridade.
— Muteka, tua mentira quase destruiu um homem inocente. Em vez de castigar-te
com chicote ou prisão, condeno-te a devolver tua cabra e a oferecer metade de
teus lucros no mercado, durante um mês, para alimentar os órfãos da aldeia.
E concluiu:
— Que todos aprendam: a mentira pode correr rápido, mas a verdade caminha e
chega primeiro.
O povo
aplaudiu a justiça. Chikumbi foi absolvido e saiu agradecendo aos ancestrais.
Muteka, envergonhado, cumpriu sua pena e, no final, tornou-se mais humilde.
MORAL DA
HISTÓRIA
- No trabalho: quem mente para ganhar vantagem pode até enganar por um tempo, mas
cedo ou tarde a verdade vem à tona.
- Na política: líderes que usam falsidade para destruir adversários acabam sendo
desmascarados.
- Na comunidade: fofocas e calúnias têm força para ferir, mas sempre deixam rastros
que revelam a verdade.
- Na vida pessoal: ser honesto pode custar mais no início, mas garante paz de espírito e
respeito duradouro.
Este conto
ensina que a verdade pode andar devagar, mas nunca perde a corrida.
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