NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

31 - A RAINHA N’GOMA E O TAMBOR DA JUSTIÇA

 

Provérbio: “Quando a mulher segura o tambor, até os homens dançam ao seu ritmo.”


Nos vales férteis do rio Kwanza, onde as águas cantam como harpas e os campos são vestidos de milho dourado, havia um reino próspero chamado Sanzala. Seu povo vivia do comércio, da caça e da agricultura, e o coração da vida comunitária era o tambor, instrumento que chamava para festas, rituais e também para decisões sérias.

No trono de Sanzala estava Rainha N’Goma, filha de um grande guerreiro e de uma sacerdotisa. Herdara o trono num tempo em que poucos acreditavam que uma mulher poderia governar. Muitos chefes zombaram:
— Como pode uma mulher comandar lanças? — diziam.
Mas o povo logo percebeu que N’Goma tinha algo mais afiado que uma lança: sua mente e sua justiça.

No centro do palácio havia um grande tambor chamado Mwana-Kudi, talhado em tronco de mukula e coberto com pele de leopardo. Era pesado, majestoso, e cada batida ressoava por quilômetros.

A tradição dizia: “Quem tiver uma queixa, que venha bater no tambor. O som chamará a rainha para julgar.”

Assim, o tambor tornou-se a voz do povo. Não importava se era um camponês, um caçador ou mesmo um nobre: bastava bater no Mwana-Kudi e N’Goma deixava o que estivesse a fazer para ouvir.

Certa manhã, um camponês chamado Lukamba bateu no tambor.
— Grande rainha — disse ele, ajoelhando-se —, meu vizinho roubou parte da minha colheita de milho.

O vizinho, Kibanza, negou.
— Não roubei nada. O milho é meu!

A rainha observou os dois homens com calma. Pediu que trouxessem os sacos de milho disputados. Ordenou então que dois pássaros fossem soltos no terreiro, um perto de cada saco.

O pássaro de Kibanza bicou e se afastou. O de Lukamba começou a comer com fome.

— Este milho é de Lukamba — disse a rainha —, porque é fresco da colheita. O de Kibanza era velho, e ele tentou enganar-nos.

A multidão aplaudiu, e a fama da sabedoria de N’Goma cresceu.

Com o tempo, a rainha começou a incomodar alguns chefes poderosos que lucravam com injustiças. Um deles, Soba Ndonga, murmurava:
— Essa mulher pensa que pode humilhar homens diante do povo. Vamos ver até onde vai sua sabedoria.

Numa noite, ele enviou dois homens com uma disputa falsa. Levaram ao tambor uma criança coberta por um pano.
— Grande rainha — disseram —, diga-nos: esta criança está viva ou morta?

Queriam confundi-la. Se dissesse viva, matariam a criança. Se dissesse morta, descobririam o engano.

A rainha fechou os olhos, escutou o vento e depois falou com firmeza:
— A vida e a morte não são brinquedos. Vocês não me testam: testam os ancestrais. Portanto, eu não responderei. Vocês próprios devem escolher se querem ser lembrados como protetores de uma vida ou assassinos de um inocente.

O povo murmurou, e os dois homens, envergonhados, soltaram a criança, que estava viva.

— Eis a justiça de N’Goma — disse Tata Mukumbwa, o mais velho dos anciãos. — Ela não decide com pressa, mas com sabedoria que protege a vida.

Anos depois, o reino enfrentou sua maior crise: dois generais, Mwanza e Chikuto, brigavam pela posse de um vasto território fértil. Cada um dizia ter direito às terras do rio.

O tambor soou, e todo o povo se reuniu. Os generais levaram mapas, soldados e testemunhas.

A rainha ouviu todos em silêncio. Depois, pediu apenas duas crianças do povo, uma de cada clã.
— Cada uma plantará uma muda de milho nesta terra disputada. Voltaremos quando o milho crescer.

Meses se passaram. Quando voltaram, a plantação da criança de Mwanza estava murcha, descuidada. A de Chikuto, verdejante e cheia de espigas.

— O verdadeiro dono da terra é aquele que cuida dela — disse a rainha. — Portanto, Chikuto governará estas terras.

Mwanza se curvou, envergonhado. O povo celebrou a justiça que não se baseava em gritos nem em armas, mas na observação da vida.

Rainha N’Goma governou até seus cabelos ficarem brancos como algodão. Quando morreu, o tambor foi colocado em sua sepultura, para que mesmo nos céus ela continuasse a ouvir o povo.

Até hoje, nas aldeias do Kwanza, quando um julgamento é difícil, os anciãos dizem:
“Chamemos o espírito de N’Goma, a rainha que batia o tambor da justiça.”


MORAL DA HISTÓRIA

  • Na liderança: não importa se é homem ou mulher — o verdadeiro poder vem da justiça e da sabedoria, não da força.
  • Na comunidade: quem governa deve escutar todos, ricos ou pobres, pois o tambor da justiça ecoa igual para todos.
  • Na vida pessoal: antes de decidir, é preciso observar, refletir e escolher aquilo que preserva a vida.
  • Na sociedade moderna: a participação das mulheres na liderança não é fraqueza, mas fonte de equilíbrio e renovação.

A história de N’Goma ensina que a justiça verdadeira é como o som do tambor: ressoa no coração de todos, sem distinção.


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