Provérbio: “Quando a mulher segura o tambor, até os homens dançam ao seu ritmo.”
Nos vales
férteis do rio Kwanza, onde as águas cantam como harpas e os campos são
vestidos de milho dourado, havia um reino próspero chamado Sanzala. Seu
povo vivia do comércio, da caça e da agricultura, e o coração da vida
comunitária era o tambor, instrumento que chamava para festas, rituais e
também para decisões sérias.
No trono de Sanzala estava Rainha N’Goma,
filha de um grande guerreiro e de uma sacerdotisa. Herdara o trono num tempo em
que poucos acreditavam que uma mulher poderia governar. Muitos chefes zombaram:
— Como pode uma mulher comandar lanças? — diziam.
Mas o povo logo percebeu que N’Goma tinha algo mais afiado que uma lança: sua
mente e sua justiça.
No centro do
palácio havia um grande tambor chamado Mwana-Kudi, talhado em tronco de
mukula e coberto com pele de leopardo. Era pesado, majestoso, e cada batida
ressoava por quilômetros.
A tradição
dizia: “Quem tiver uma queixa, que venha bater no tambor. O som chamará a
rainha para julgar.”
Assim, o
tambor tornou-se a voz do povo. Não importava se era um camponês, um caçador ou
mesmo um nobre: bastava bater no Mwana-Kudi e N’Goma deixava o que estivesse a
fazer para ouvir.
Certa manhã, um camponês chamado Lukamba
bateu no tambor.
— Grande rainha — disse ele, ajoelhando-se —, meu vizinho roubou parte da minha
colheita de milho.
O vizinho, Kibanza, negou.
— Não roubei nada. O milho é meu!
A rainha
observou os dois homens com calma. Pediu que trouxessem os sacos de milho
disputados. Ordenou então que dois pássaros fossem soltos no terreiro, um perto
de cada saco.
O pássaro de
Kibanza bicou e se afastou. O de Lukamba começou a comer com fome.
— Este milho é
de Lukamba — disse a rainha —, porque é fresco da colheita. O de Kibanza era
velho, e ele tentou enganar-nos.
A multidão
aplaudiu, e a fama da sabedoria de N’Goma cresceu.
Com o tempo, a rainha começou a incomodar alguns
chefes poderosos que lucravam com injustiças. Um deles, Soba Ndonga,
murmurava:
— Essa mulher pensa que pode humilhar homens diante do povo. Vamos ver até onde
vai sua sabedoria.
Numa noite, ele enviou dois homens com uma
disputa falsa. Levaram ao tambor uma criança coberta por um pano.
— Grande rainha — disseram —, diga-nos: esta criança está viva ou morta?
Queriam
confundi-la. Se dissesse viva, matariam a criança. Se dissesse morta,
descobririam o engano.
A rainha
fechou os olhos, escutou o vento e depois falou com firmeza:
— A vida e a morte não são brinquedos. Vocês não me testam: testam os
ancestrais. Portanto, eu não responderei. Vocês próprios devem escolher se
querem ser lembrados como protetores de uma vida ou assassinos de um inocente.
O povo
murmurou, e os dois homens, envergonhados, soltaram a criança, que estava viva.
— Eis a
justiça de N’Goma — disse Tata Mukumbwa, o mais velho dos anciãos. — Ela não
decide com pressa, mas com sabedoria que protege a vida.
Anos depois, o
reino enfrentou sua maior crise: dois generais, Mwanza e Chikuto,
brigavam pela posse de um vasto território fértil. Cada um dizia ter direito às
terras do rio.
O tambor soou,
e todo o povo se reuniu. Os generais levaram mapas, soldados e testemunhas.
A rainha ouviu
todos em silêncio. Depois, pediu apenas duas crianças do povo, uma de cada clã.
— Cada uma plantará uma muda de milho nesta terra disputada. Voltaremos quando
o milho crescer.
Meses se
passaram. Quando voltaram, a plantação da criança de Mwanza estava murcha,
descuidada. A de Chikuto, verdejante e cheia de espigas.
— O verdadeiro
dono da terra é aquele que cuida dela — disse a rainha. — Portanto, Chikuto
governará estas terras.
Mwanza se
curvou, envergonhado. O povo celebrou a justiça que não se baseava em gritos
nem em armas, mas na observação da vida.
Rainha N’Goma
governou até seus cabelos ficarem brancos como algodão. Quando morreu, o tambor
foi colocado em sua sepultura, para que mesmo nos céus ela continuasse a ouvir
o povo.
Até hoje, nas
aldeias do Kwanza, quando um julgamento é difícil, os anciãos dizem:
“Chamemos o espírito de N’Goma, a rainha que batia o tambor da justiça.”
MORAL DA
HISTÓRIA
- Na liderança: não importa se é homem ou mulher — o verdadeiro poder vem da justiça
e da sabedoria, não da força.
- Na comunidade: quem governa deve escutar todos, ricos ou pobres, pois o tambor da
justiça ecoa igual para todos.
- Na vida pessoal: antes de decidir, é preciso observar, refletir e escolher aquilo que
preserva a vida.
- Na sociedade moderna: a participação das mulheres na liderança não é fraqueza, mas fonte de
equilíbrio e renovação.
A história de
N’Goma ensina que a justiça verdadeira é como o som do tambor: ressoa no
coração de todos, sem distinção.
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