Provérbio: “O rio não pergunta a idade da chuva antes de correr; a sabedoria pode nascer até na boca de uma criança.”
No coração das
montanhas de Malanje, havia uma aldeia chamada Kipupa, famosa por suas
terras férteis e por sua união. Mas um dia, o velho soba morreu sem deixar
herdeiro homem. Logo, instalou-se o caos. Cada família queria tomar o poder, e
os anciãos discutiam sem fim.
No meio dessa
confusão estava Nandzala, filha do soba falecido. Era jovem, com apenas
dezessete colheitas vividas, mas seus olhos brilhavam como brasas escondidas
sob cinzas. Apesar de sua juventude, conhecia os segredos da floresta, a
medicina das ervas e os cânticos dos ancestrais.
Mas na
tradição da aldeia, uma mulher nunca fora soba.
— Como confiar
o poder a uma menina? — zombava Soba Kinzau, irmão distante do antigo
chefe.
— O trono é para homens, e não para fiandeiras de esteira — murmuravam outros.
Para decidir
quem seria o novo líder, os anciãos convocaram um grande conselho. Cada
candidato deveria provar sua capacidade diante do povo.
No dia
marcado, a praça encheu-se de tambores, perfumes de óleo de palma e murmúrios.
Um a um, os homens apresentaram suas forças: uns mostraram lanças afiadas,
outros prometeram riquezas, outros falaram em alianças com guerreiros vizinhos.
Quando chegou a vez de Nandzala, muitos riram.
— Que pode nos oferecer uma jovem sem barba no rosto, sem armas na mão? — disse
um dos chefes.
Nandzala
ergueu-se. Não trouxe lanças, nem ouro, nem soldados. Apenas uma cabaça com
água.
— Trago-lhes a
vida — disse calmamente. — A água que corre no rio não distingue homem de
mulher. Quem a desprezar, morre de sede. Assim também é o governo: não depende
de músculos, mas de sabedoria.
O povo
murmurou, admirado.
Os anciãos, ainda desconfiados, decidiram testar
Nandzala.
— Se queres ser nossa soba — disse Kinzau, o mais hostil —, então apaga o fogo
que ameaça a aldeia.
De fato, um
incêndio avançava na floresta próxima, ameaçando os campos de milho. Os homens
correram com baldes e folhas de bananeira, mas o vento espalhava as chamas cada
vez mais.
Nandzala, sem
se desesperar, chamou as mulheres e as crianças. Mandou que cavassem cinturões
de terra batida, arrancando o capim seco diante do fogo.
— A água sozinha não vence o fogo quando ele é maior. É preciso abrir-lhe o
caminho do cansaço — disse ela.
Horas depois,
o incêndio bateu na linha de terra nua e, sem alimento para se alimentar,
apagou-se.
O povo vibrou,
e os anciãos ficaram em silêncio.
Ainda assim,
Kinzau não se deu por vencido. No dia seguinte, trouxe dois homens diante do
conselho. Cada um afirmava ser dono de uma vaca que dera cria.
— Se és digna
de governar — disse o desafiante —, mostra-nos de quem é a vaca.
Nandzala pediu
que trouxessem a cria recém-nascida. Soltou-a no terreiro. A pequena bezerra
correu direto ao úbere de uma das vacas.
— Eis o
verdadeiro dono — disse Nandzala. — Pois a natureza não mente, mesmo quando os
homens tentam enganar.
O povo riu,
batendo palmas. Até os mais céticos se entreolharam, reconhecendo que a jovem
tinha o espírito da justiça.
Naquela noite, sob a lua cheia, o povo se reuniu
na praça. Os tambores tocaram, e os anciãos chamaram todos ao centro.
— Hoje — declarou Tata Mbulo, o mais velho entre eles —, testemunhamos a
sabedoria desta jovem. A aldeia precisa de quem pensa além da força. Se os
ancestrais assim permitem, proclamamos Nandzala como nossa soba.
O povo
aclamou. Homens, mulheres e crianças ajoelharam-se.
Mas Nandzala ergueu a mão.
— Não venho governar sozinha. Venho para governar convosco. Que cada homem e
cada mulher seja tambor desta aldeia, e eu apenas a batida que os une.
Assim começou
o reinado de Soba Nandzala, a mais jovem líder que Kipupa conhecera.
Anos depois, a
aldeia de Kipupa tornou-se referência para outras comunidades. Mulheres
passaram a ocupar cargos de conselho, jovens foram ouvidos nas decisões, e até
os mais velhos reconheciam que a sabedoria não tem idade.
E, quando
alguém duvidava da capacidade de uma mulher, os anciãos respondiam:
“Lembras de Nandzala, que apagou o fogo com terra e descobriu a verdade com
um bezerro? Então sabes que a sabedoria não tem sexo.”
MORAL DA
HISTÓRIA
Interpretação
prática para a vida real:
- Na vida comunitária: não devemos desprezar as ideias dos jovens ou das mulheres. Muitas
vezes, a solução para problemas difíceis surge de quem menos se espera.
- Na liderança: o poder verdadeiro não está na força física nem nas ameaças, mas na
capacidade de observar, ouvir e decidir com justiça.
- Na vida cotidiana: subestimar alguém por idade, sexo ou aparência é fechar os olhos para
um tesouro escondido.
- Na sociedade moderna: incluir mulheres e jovens em cargos de decisão traz perspectivas
novas, soluções criativas e fortalece a coletividade.
A história de
Nandzala recorda que o futuro não se constrói apenas com os fortes do
presente, mas com a sabedoria que se permite florescer em qualquer pessoa. “O
rio não pergunta a idade da chuva antes de correr; a sabedoria pode nascer até
na boca de uma criança.”
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