NARRAÇÃO

domingo, 31 de agosto de 2025

15 - A LUA DO ENCANTO E A FILHA QUE NÃO SABIA PILAR

 

A lua tinha uma filha branca e em idade de casar. Um dia apareceu-lhe em casa um monhé pedindo a filha em casamento. A lua perguntou-lhe:

— Como pode ser isso, se tu és monhé? Os monhés não comem ratos nem carne de porco e também não apreciam cerveja... Além disso, ela não sabe pilar...

O monhé respondeu:

— Não vejo impedimento porque, embora eu seja monhé, a menina pode continuar a comer ratos e carne de porco e a beber cerveja... Quanto a não saber pilar, isso também não tem importância pois as minhas irmãs podem fazê-lo.

A lua, então, respondeu:

— Se é como dizes, podes levar a minha filha que, quanto ao mais, é boa rapariga. O monhé levou consigo a menina. Ao chegar a casa foi ter com a sua mãe e fez-lhe saber que a menina com quem tinha casado comia ratos, carne de porco e bebia cerveja, mas que era necessário deixá-la à-vontade naqueles hábitos. Acrescentou também que ela não sabia pilar mas que as suas irmãs teriam a paciência de suprir essa falta.

Dias depois, o monhé saiu para o mato à caça. Na sua ausência, as irmãs chamaram a rapariga (sua cunhada) para ir pilar com elas para as pedras do rio e esta desatou a chorar.

As irmãs censuraram-na:

— Então tu pões-te a chorar por te convidarmos a pilar?... Isso não está bem! Tens de aprender porque é trabalho próprio das mulheres.

E, sem mais conversas, pegaram-lhe na mão e conduziram-na ao lugar onde costumavam pilar. Quando chegaram ao rio puseram-lhe o pilão na frente, entregaram-lhe um maço e ordenaram que pilasse.

A rapariga começou a pilar, mas com uma mágoa tão grande que as lágrimas não paravam de lhe escorrer pela cara. Enquanto pilava ia-se lamentando:

— Quando estava em casa da minha mãe não costumava pilar... Ao dizer estas palavras, a rapariga, sempre a pilar e juntamente com o pilão, começou a sumir-se pelo chão abaixo, por entre as pedras que, misteriosamente, se

afastavam. E foi mergulhando, mergulhando... até desaparecer.

 

 Este conto “A Lua do encanto e a Filha que Não Sabia Pilar” é de origem moçambicana, recolhido na tradição oral e registado em coletâneas de contos africanos (notadamente em Contos Populares de Moçambique, organizados por missionários e etnógrafos durante o período colonial e pós-colonial).

 Ele pertence ao vasto universo da literatura oral africana, onde a Lua aparece como ser feminino, maternal e mágico, e onde se reforçam valores sociais ligados ao trabalho comunitário, ao casamento e à adaptação cultural.  (grifo nosso)

 

 

MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

 O casamento não é só conveniência, é adaptação cultural.

A rapariga casa sem conhecer nem praticar as tarefas tradicionais do lar (como pilar). No contexto africano rural, saber pilar (reduzir grãos em farinha com pilão) é uma competência fundamental e símbolo de estar preparada para a vida comunitária e para o matrimónio.

 A rapariga tenta manter-se alheia às responsabilidades partilhadas. O choro e o mergulho nas pedras simbolizam a rejeição e a sua incapacidade de se integrar na vida quotidiana da nova família. Na sociedade africana, o trabalho não é apenas individual: é parte de uma rede solidária que garante comida, união e continuidade cultural. Negligenciar essas práticas representa romper com a própria comunidade.

 O conto avisa que o casamento implica responsabilidades práticas e culturais, não apenas aceitação pessoal ou amorosa. Preparar-se para as tarefas domésticas e comunitárias era — e ainda é — visto como essencial para manter a harmonia familiar.

 




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