NARRAÇÃO

domingo, 31 de agosto de 2025

14 - OS GAVIÕES E OS CORVOS

 

Koongoo′roo, sultão dos corvos, enviou certo dia uma carta a Mway′way, sultão dos gaviões, dizendo:

“Quero que seu povo seja meu exército.”

A resposta de Mway′way para essa breve mensagem foi também curta:

“Declinamos sua oferta.”

Para amedrontar o gavião, Koongoo′roo mandou então a seguinte ameaça:

“Caso se recuse, iniciaremos uma guerra.” A réplica do sultão dos gaviões foi à altura:

“Ótimo. Vamos ao combate. Se você nos vencer, se- remos seu exército. Mas se formos vitoriosos, vocês serão nossos escravos.”

Reuniram suas tropas e deram início a uma grande batalha. Em pouco tempo ficou claro que os corvos sofreriam uma derrota incontestável.

Se algo não fosse feito rapidamente, os corvos seriam dizimados. Um deles, chamado Jeeoo′see, sugeriu então que todos voassem para longe.

Dito e feito. Os corvos deixaram suas casas e se estabeleceram em uma cidade longe dali. Quando os gaviões finalmente invadiram sua aldeia, não encontraram ninguém e acabaram fixando residência na Cidade dos Corvos.

Um dia, quando os corvos estavam reunidos em conselho, Koongoo′roo disse:

—Meu povo, sigam minhas ordens e tudo ficará bem. Arranquem algumas de minhas penas e me joguem na cidade dos gaviões. Então voltem para cá e aguardem notícias minhas.

Os corvos obedeceram aos comandos de seu sultão sem questionar.

Pouco tempo após ser deixado na rua, alguns gaviões que passavam por ali viram o sultão e o interpelaram:

—O que faz em nossa cidade?

—Meus compatriotas me espancaram e me expulsaram da cidade — gemeu Koongoo′roo —, porque tentei convencê-los a seguir Mway′way, sultão dos gaviões.

Ao ouvir tal justificativa, pegaram-no e levaram-no até o sultão.

—Encontramos este sujeito jogado na rua. Segundo ele, sua presença involuntária em nossa cidade se deve a circunstâncias tão insólitas que achamos por bem trazê-lo para que se explique pessoalmente.

Koongoo′roo repetiu sua história, acrescentando que havia sofrido muito por defender sua opinião de que Mway′- way era o sultão por direito.

Obviamente sua farsa causou uma ótima impressão, e o sultão dos corvos disse:

— Você tem mais juízo do que todos da sua tribo. Acre- dito que possa ficar aqui e viver conosco.

Após expressar sua gratidão, Koongoo′roo resignou-

-se, ou assim fez parecer, a passar o resto de sua vida com os gaviões.

Certo dia seus vizinhos o convidaram para acompa- nhá-los à igreja. Ao retornarem, perguntaram-lhe:

—Quem tem a melhor religião, os gaviões ou os corvos?

—Ah, os gaviões, sem dúvida! — respondeu com en- tusiasmo o traiçoeiro corvo.

A resposta agradou muito aos gaviões, e Koongoo′roo passou a ser visto como uma ave de notável discernimento.

Passada quase uma semana, o corvo conseguiu escapulir no meio da noite e voltou à sua cidade. Lá chegando, reuniu seus súbditos.

—Amanhã é o grande feriado religioso dos gaviões. Todos irão à igreja de manhã. Vão, recolham lenha, façam fogo e esperem nos arredores da cidade. Quando eu der o sinal, invadam a igreja rapidamente e queimem tudo.

E então voou de volta à cidade de Mway′way.

Os corvos trabalharam muito durante a noite. Ao amanhecer, tinham já uma grande quantidade de lenha queimando, e estavam prontos para o ataque. Colocaram-se então em alerta, próximos à cidade de seus inimigos.

Quando a manhã chegou, todos os corvos se dirigiram à igreja. Não ficou uma só pessoa em casa, exceto o velhaco Koongoo′roo.

Seus vizinhos foram chamá-lo e encontraram-no deitado.

—Ora essa! — exclamaram, surpresos. — Então não vai à igreja hoje?

—Ah, como eu queria! — gemeu o corvo. — Mas estou com tanta dor de barriga que nem posso me mexer.

—Que pena. É melhor ficar na cama mesmo. — E dei- xaram-no sozinho.

Assim que todos saíram, Koongoo′roo voou rapidamente para onde estavam seus soldados e deu a ordem:

—Vamos! Estão todos na igreja!

Em pouco tempo, os corvos cercaram silenciosamente o templo. Alguns empilharam lenha junto à porta e outros atearam fogo.

A madeira começou a queimar quase instantaneamente e, antes que os gaviões se dessem conta do perigo, o fogo já ia alto. Quando a fumaça preencheu a igreja e as chamas começaram a invadir as frestas das paredes, os gaviões tentaram escapar pelas janelas. A maior parte morreu sufocada; outros, entre eles Mway′way, não conseguiram voar por conta das queimaduras em suas asas e foram carbonizados. E assim Koongoo′roo e seu exército retomaram a sua cidade.

Desde esse dia os gaviões fogem ao ver os corvos.

 

GEORGE W. BATEMAN

Em Contos Folclóricos Africanos Vol. 2

 

MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

Na tradição africana, aprendemos que a guerra nunca se vence apenas com força bruta, mas com estratégia e astúcia. Os corvos, fracos em combate, usaram a mentira e a paciência para derrotar os gaviões, que confiavam demais na sua superioridade.

 O conto ensina que:

 1. A força sem vigilância cai na armadilha. Os gaviões eram mais fortes, mas perderam porque se deixaram enganar e abandonaram a prudência.

 2. A astúcia pode ser arma dos fracos. O corvo Koongoo′roo mostrou que quem não tem músculos pode usar a inteligência para mudar a história.

 3. A confiança cega no inimigo é mortal. Os gaviões acreditaram nas palavras do traidor e acabaram queimados dentro da própria cidade.

 Um provérbio africano diz: “O leão pode ser rei, mas é a hiena que lhe rouba a caça.” Isso significa que a vitória não depende apenas da força, mas da capacidade de pensar adiante.

 No fundo, a história mostra que, no contexto africano, as comunidades devem desconfiar de falsos amigos, vigiar mesmo em tempos de paz e nunca desprezar os fracos, pois até o pequeno corvo pode derrubar o grande gavião.




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