NARRAÇÃO

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

45 - TATÁ E MORRÓ

 

Era uma cidade onde existia um casal humilde, a mulher veio a engravidar e deu à luz a gémeos que deram os nomes de Tatá e Moró. Essa família humilde, depois de terem as crianças ampliaram o esforço para conseguir manter as despesas da família.

Passados alguns tempos os meninos começaram a crescer até atingirem a fase da adolescência, os pais chamaram-lhes para uma reunião.

Disseram para eles, que vieram de uma família humilde e queriam que eles estivessem sempre unidos. - Se um falar uma coisa o outro teria que aceitar, mesmo não estando de acordo, porque não queriam ver a divergência no seio dos dois irmãos. Depois que chegaram na fase adulta, os pais pediram-lhes para triturar amendoim misturado com arroz com o intuito de fazer o prato tradicional guineense (Kuntchuro).

Tatá fez mau uso dos conselhos dos pais: pediu ao irmão grémio que triturassem os vidros junto com a mistura (amendoim e arroz). O Morró ao analisar o pedido do irmão, recusou à priori. Então, o Tatá lembrou ao irmão sobre um dos conselhos dados pelo país “de não se divergirem”. Morró acabou aceitando a ideia do irmão mesmo contra a sua vontade, obedecendo assim o que eram recomendados.

Assim sendo, alguns minutos depois entregaram essa mistura para a mãe deles, que resolveu fazer o almoço com a mistura. Quando foi servido a comida os pais que não sabiam de nada, da conspiração dos filhos degustaram esse saboroso prato, os filhos como já sabiam do que tinham feito não aceitaram almoçar fingindo não terem fome, que só iriam comer mais tarde.

Após trinta minutos da ingestão dessa comida os pais começaram a passar mal, vomitando sangue e perdendo a força totalmente e acabaram morrendo. O Tatá pediu ao Morró que enterrassem os pais secretamente de modo a evitar suspeitas por parte dos familiares sobre as mortes estranhas dos pais e assim fizeram.

Logo após as cerimónias fúnebres, Tatá sugeriu ao irmão que queimassem a casa dos pais e mudarem para outra cidade de modo encobrir o rastro. O irmão recusou novamente alegando que a casa era o único bens que os pais tinham deixado para eles serviria como abrigo e tem um valor sentimental como lembrança do legado dos pais, o Tatá usou mais uma vez os conselhos dos pais negativamente fazendo atos covardes e bárbaros.

Como Tatá alegou os conselhos dados pelos pais, Morró acabou aceitando honrando assim os pais. Incendiaram a casa e mudaram-se para outro reino, ao chegarem lá se apresentaram ao palácio onde foram recebidos pelo rei, tradicionalmente todos os hóspedes que chegarem eram encaminhados até o palácio, para que o rei lhes passasse as orientações pois esse reino era diferenciado lá não existia o dia, porque tinha um demónio que botou um encantamento ao reno e a partir desta data nunca mais tinham visto Sol.

Todos eram obrigados a se recolherem antes das dezoito horas, caso contrário eram devorados sem piedade por esse demónio. Tatá ao ouvir esse aviso do rei riu- se e falou com uma voz suave e silenciosa que não dava para ninguém ouvir “era isso que eu queria mesmo, desafiar esse tal demónio”. Depois dessa conversa o rei ordenou aos guardas que mostrassem a casa dos hóspedes para os dois irmãos.

Por parte das dezassete e trinta, as pessoas começaram a entrar nas suas casas e trancarem suas portas até o rei e tanto seus guardas, nesse momento que o famoso Tatá pegou umas armas brancas (Espada, lança, facão, etc.) acendeu uma fogueira em frente da casa onde tinham hospedado. Os guardas avisaram ele que o fogo iria chamar atenção do demónio que ele apagasse aquele fogo, mas ele simplesmente ignorou, o irmão também lhe avisou sobre as orientações do rei também não ouviu o irmão.

O Irmão recolheu- se antes das dezoito horas para não ser morto pelo demónio. Há algum tempo depois apareceu o demónio rodando por toda a cidade encontrou a fogueira acendida pelo Tatá com um menino na frente “o famoso Tatá”, o demónio falou assim:

-Quem é você?

O Tatá ergueu a cabeça e lhe fez a mesma pergunta. Aí o demónio sentiu- se ofendido. Imagine um demónio que até o rei e o seu exército não tinham a ousadia de enfrentar. O demónio disse-lhe: vou te perguntar só mais uma vez.

-Quem é você? O Tatá retribuiu novamente.

-Quem é você?

O demónio atacou-o para matar, ele que era corajoso e valente posicionou- se com as suas armas brancas, atirou uma lança que atingiu o demónio no olho esquerdo, mesmo assim continuou a briga. o Tatá atirou a lança pela segunda vez que atingiu o olho direito do demónio e atravessou o cérebro, que se enfraqueceu. Então, o Tatá avançou- se e o decapitou, colocou a cabeça num saco e guardo debaixo da cama no quarto em que estavam hospedados.

Em seguida arrastou o corpo pesado desse demónio e o encostou na porta principal do palácio e foi dormir. Naquele dia o Sol amanheceu naquele reino, o povo todo alegre pôs- se a gritar de felicidade. O rei e os guardas concordaram e encontraram, por incrível que pareça, o corpo do demónio no portão do palácio. O rei ficou assustado e alegre ao mesmo tempo, mandou os guardas retirarem o corpo e colocarem no centro da cidade.

Convocou toda a população para um comício de forma descobrir quem tinha feito aquele ato heroico. Oferecendo a mão de sua filha em casamento e o seu trono

futuramente, quando da sua morte. Feito isso, apareceram um monte de sujeitos alegando que tinham sido responsáveis pelo massacre do demónio. Outros matavam animais e sujavam- se todo de sangue só para provar o feito.

Do nada apareceu o Tatá no meio da multidão com um saco pelas costas, saco este em que havia colocado a cabeça do demónio, gritou numa viva voz: eu que matei o demónio e todos ficaram olhando para ele, o rei ordenou seguranças que o levassem para o palco. O rei lhe perguntou: - Ó meu hóspede foi você quem matou esse demónio?

O Tatá olhou para o rei com convicção e jogou o sacou no palco e falou:

- Está aqui a minha prova.

O rei ordenou que os seguranças abrissem o saco e encontraram a cabeça do demónio. Após provar, o rei cumpriu a sua promessa, anos depois por envelhecimento e doença faleceu o rei e Tatá se casou- se com a filha do rei e assumiu o trono.

 

Esse conto de “Tatá e Morró” tem uma configuração diferente dos anteriores: já não é só fábula de animais, mas uma narrativa de heróis humanos, com elementos de oralidade africana misturados a um enredo épico de bravura, traição e destino. A origem também parece ser da tradição oral guineense ou mandinga (a presença do prato Kuntchuro, de referências à vida aldeã, ao demónio que impede o nascer do sol e à prova de coragem do herói são traços muito característicos da Guiné-Bissau e da África Ocidental). Aqui vemos claramente a transição entre conto moralizante e mito fundador — Tatá acaba como rei, após derrotar o mal e devolver o sol ao reino. O texto provavelmente não tem autor individual, mas sim um contador tradicional que passou a história oralmente, mais tarde transcrita. (grifo nosso)


 

MORAL DA HISTÓRIA

A narrativa mostra dois caminhos opostos: Morró, obediente mas submisso, segue os conselhos cegamente e torna-se cúmplice de crimes; Tatá, pelo contrário, usa os mesmos conselhos como desculpa para a desobediência, a rebeldia e a ousadia. Apesar da sua crueldade inicial contra os pais, é a coragem e a determinação de Tatá que libertam o reino da escuridão. A lição é paradoxal: a obediência cega pode levar à perdição, enquanto a ousadia pode transformar-se em heroísmo — mas só quando é usada para enfrentar verdadeiros males e não apenas para satisfazer caprichos pessoais. (grifo nosso)

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