Era uma vez um rapaz que vivia com os pais desde a infância, sem nunca ter saído de sua terra e nem ter frequentado a escola. Um dia, o seu pai decidiu mandá-lo ler, apreender, mas este processo de aprendizagem, segundo o pai, deveria durar três dias. O filho ficou estranhando... Então, perguntou ao pai: “como é possível aprender numa duração de apenas três dias?”
Em resposta, o pai ordenou: “filho, é o que eu disse! Antes de dormir, arruma a sua mala. Amanhã pela manhã cedinho vais”. O filho obedeceu. No primeiro canto do galo, o pai já estava esperando para se despedir e disse: “siga a direção da saída do sol e encontre a cidade onde mora o sábio. Ao chegar, diga que eu lhe mandei para estudar”.
O filho fez conforme a recomendação do pai. Ao chegar na casa do sábio, contou a razão da sua chegada. O mestre disse: “não tem problema. vai dormir até o amanhecer”. No dia seguinte, o sábio disse ao jovem: “Eu sei por que o seu pai lhe mandou e tenho certeza de que vamos terminar na data prevista. Vais aprender aquilo que precisa para sobreviver”.
No primeiro dia de aula, o sábio disse ao jovem: "Quando for atribuída responsabilidade a você, não a recuse". E terminou: “por hoje, é tudo. Daremos seguimento amanhã”. No segundo dia da aula, o mestre lhe disse: “Se não fizeres nada, nada vai acontecer contigo, ou seja, quem não deve não temer". No terceiro e último dia, o mestre disse: “por mais que estejas com pressa, quando alguém lhe chamar, pare e ouça o que essa pessoa lhe tem a dizer”. Desta forma, termina o seu ciclo de aprendizados. Agora, podes voltar para casa do seu pai, uma vez que já tens conhecimentos suficientes para viver em qualquer lugar.
O jovem voltou e contou ao seu pai sobre o que foi ensinado. O pai ficou muito contente e disse ao filho: “Agora você está pronto para conhecer o mundo”. O filho ficou alguns dias com o pai, mas depois decidiu se despedir e ir conhecer outros lugares. O pai respondeu: “Para mim, não tem problema. Eu já fiz a minha parte: mandei-lhe estudar”.
O jovem se levantou cedo e disse: “Estou pronto”. O pai derramou água na porta e asseverou: “Não se esqueça do que aprendeu”. O filho respondeu: “Não vou esquecer”. E foi embora, até que chegou na fronteira entre o seu e o reino vizinho. Neste reino, os hóspedes sempre não são bem-vindos. Quando chegou, foi levado para o Palácio do rei. O rei olhou e gostou do jovem, disse-lhe: “Vais ficar na minha casa”. O jovem aceitou o convite.
Este rei tinha três mulheres e nenhum filho/a. Cada dia que passava, o rei ficava mais impressionado com o jovem, foi gostando dele cada vez mais. Entretanto, esta atitude do rei não contentou o seu povo. Convocaram uma reunião para chamar a atenção ao rei: “Este jovem pode ser um perigo ao reino”. Ao que o rei respondeu: “Vou assumir qualquer consequência”. Um dia, o rei decidiu viajar e chamou o jovem: “Quero que se responsabilize pelo meu reino em minha ausência”. O jovem ficou sem palavras. O rei disse: “Vais dormir. Amanhã, terminaremos a nossa conversa”.
O jovem ficou preocupado, foi se deitar, mas, na verdade, não conseguiu dormir durante toda noite, pensando na proposta do rei. Ainda na madrugada, o jovem se lembrou da lição do seu mestre: "Quando lhe for atribuída uma responsabilidade, não a recuse”. Depois de amanhecer, foi até o rei e disse-lhe: “Aceito a sua proposta. Pode me deixar com o seu reino. Vou cuidar dele”. O rei ficou muito satisfeito. Então, convocou uma reunião para informar ao povo de que o jovem seria seu representante em sua ausência.
O povo nunca tinha gostado do jovem, principalmente agora como seu representante. No entanto, não podiam reclamar da decisão do rei. Foi aí que decidiram convocar uma reunião, na qual criaram estratégias para atrair o jovem e o rei seria obrigado a matá-lo. Concordaram, então, que a única forma de fazer o rei desacreditar do jovem seria envolvê-lo com uma das esposas do rei. O povo falou com as esposas do rei e elas concordaram com o plano!
No primeiro dia da tentativa, a dona da casa foi até o rapaz e lhe disse: “Venho dormir contigo. Como és o nosso responsável, então podes tomar o lugar do rei”. O jovem respondeu: “Não posso. Este não foi o meu combinado com o rei”. A mulher insistiu até amanhecer, mas não convenceu o jovem. A dona da casa foi ter com os mentores. Explicou-lhes tudo. Então, pensaram que talvez a razão da recusa do jovem seria pela idade elevada da mulher. Assim, decidiram enviar a segunda esposa do rei. Depois de anoitecer, a segunda esposa do rei foi com o mesmo propósito. O jovem igualmente recusou. Ela ficou até o amanhecer e nada aconteceu. Ela voltou e explicou o sucedido.
Na última tentativa, decidiram enviar a noiva do rei. Como ela era a mais jovem, talvez conseguisse convencer o jovem. Desta vez, ele não lhes poderia escapar, dizem os mentores. A noiva do rei preparou-se bem. Depois de anoitecer, foi ter com o jovem com o mesmo intuito, mas nada funcionou. O povo decidiu mudar de planos.
Foi assim que, desta vez, envolveram a noiva do rei com o jovem mais famoso do reino. Assim, quando ele engravidasse a noiva do rei, iriam atribuir culpa ao jovem braço direito do rei. Depois da reunião, a mulher e o famoso jovem concordaram. Satisfeitos, acreditaram que finalmente tudo daria certo. Conforme o combinado, o jovem famoso começou a se relacionar com a esposa do rei.
A mulher ficou grávida. Em alguns dias, o rei mandou recado de que voltaria nos próximos cinco meses. Antes da chegada do rei, a mulher teria seis meses de gravidez. Justamente depois de cinco meses, o rei voltou, foi recebido e cumprimentado por todos/as, menos por sua noiva. Todo o reino foi lá para ver qual seria a reação do rei face a situação ou como o rei iria matar o jovem. O rei disse: “Vi todos, menos uma pessoa, a minha noiva.
O que está acontecendo? Estão escondendo algo de mim? Sabem que, de qualquer jeito, sou o vosso rei. Não podem esconder nada de mim. Sou o responsável.” O povo começou a murmurar. O rei mandou chamar a noiva. Ela veio com uma barriga de seis meses de gestação. O rei não acreditou e mandou todo mundo ir embora. Chamou a sua mulher mais velha e perguntou-lhe sobre o ocorrido. Ela respondeu: “Você nos entregou nas mãos daquele jovem. Por que confiou nele mais do que em qualquer um deste reino? Foi ele quem fez este trabalho”.
O rei não acreditou. Chamou a segunda esposa. Ela falou a mesma coisa. Por último, chamou a própria noiva. Ela também afirmou a mesma coisa. Assim, o rei convocou uma reunião dos mais velhos, os quais também confirmaram a mesma versão da história. Disseram ao rei: “Nós avisamos ao senhor de que não devia confiar neste jovem. Ele poderia trazer perigo ao reino. Agora já viu”. O rei chamou o rapaz e pediu- lhe explicações.
Mas o rei não acreditou nele. Mandou todos embora. O rapaz ficou abalado com a situação. Foi dormir e se lembrou da segunda lição do seu mestre: "Se não fizeres nada, não deve temer" ou melhor "quem não deve não teme". O jovem ficou um pouco mais tranquilo. No reino, havia um local de punição, no qual as pessoas eram decapitadas. Primeiro, o rei mandava a pessoa que seria punida a cavalo. Depois, mandava uma segunda pessoa, a qual trazia a cabeça ao rei. Todos que trabalham ali, portanto, sabiam que a primeira pessoa que chegasse ao local seria decapitada.
Depois de amanhecer, o rei mandou o jovem montar no cavalo. Indicou-lhe essa localidade. O jovem foi correndo, com pressa, pois o rei lhe disse que era urgente. O jovem estava correndo em grande velocidade, mas de repente uma mulher velha saiu e começou a chamar o jovem: “Meu filho, meu filho. Espera!” O jovem não queria esperar, mas lembrou a última lição do seu mestre: "Por mais que estiver com pressa, quando alguém lhe chamar, pare e escute o que essa pessoa tem a dizer". O jovem parou. A velha convidou-o para o almoço, dizendo-lhe: “Meu filho,você pode estar com fome”.
Durante aquele diálogo, o outro jovem famoso do reino passou em grande velocidade para pegar a cabeça do jovem, mas ambos não sabiam de nada. O jovem terminou a conversa com a velha e seguiu a sua viagem. Finalmente, havia chegado ao destino para o qual foi mandado. Lá, então, foi entregue a cabeça do jovem famoso. Quando o cavalo se aproximou da cidade, os que suspeitavam o que ia acontecer pensaram que iriam se livrar do jovem. Mas, felizmente, o jovem apareceu com a cabeça do outro traidor. Todo mundo ficou pasmado. O rei disse ao seu povo: “Este jovem é inocente. Tentaram humilhá-lo, mas Deus fez a justiça”. Os mais velhos admitiram que foi traição. Então, o rei, como não tinha herdeiros, decidiu nomear o jovem como o novo rei.
Esse conto, “O Rei e o Jovem Viajante”, tem estrutura típica da literatura oral africana, em que um jovem humilde parte em busca de sabedoria, recebe ensinamentos simples mas profundos e, com eles, consegue sobreviver a provas de injustiça e traição. O enredo também tem semelhanças com contos populares árabes e africanos islamizados (pela presença de mestres sábios, reis, conselhos curtos com valor de máximas e provas morais), o que sugere origem na África Ocidental (provavelmente Guiné-Bissau ou região mandinga). Não há um autor individual — é uma narrativa transmitida por contadores tradicionais, adaptada em diferentes versões. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA
A verdadeira sabedoria não está na quantidade de estudos, mas na prática de princípios simples que orientam a vida: aceitar responsabilidades, viver sem medo quando se tem a consciência limpa, e dar ouvidos aos outros mesmo em meio à pressa. Esses conselhos, aparentemente pequenos, salvaram a vida do jovem e abriram-lhe o caminho para a realeza. A lição é que disciplina, retidão e atenção aos detalhes podem ser mais poderosos do que riqueza, status ou falsos testemunhos. (grifo nosso)
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