Provérbio: “A paciência e a astúcia vencem a força bruta e a pressa.”
Nas florestas
húmidas de Kasanji, onde os rios se entrelaçam como serpentes de prata e
as árvores crescem tão altas que parecem conversar com o céu, vivia uma
tartaruga chamada N’Kutu.
N’Kutu não era
rápida nem imponente. Carregava seu casco pesado como se fosse uma casa de
pedra e movia-se com a calma de quem sabe que o tempo nunca tem pressa. Muitos
animais zombavam dela:
— Olha a velha pedra ambulante! — gritavam os
macacos.
— Se a floresta pegasse fogo, morreria queimada sem dar um passo fora! — ria a
hiena.
N’Kutu, porém, não se ofendia. Limitava-se a
sorrir e responder:
— Cada um caminha no ritmo que a vida lhe deu.
Naquela mesma
floresta vivia Sengo, o leopardo. Forte, veloz, com a pele manchada de
ouro e carvão, era temido por todos. Quando ele passava, os arbustos tremiam e
os pássaros voavam em silêncio.
Um dia, o
destino pôs frente a frente os dois extremos da natureza: a lentidão da
tartaruga e a pressa do leopardo.
Sengo estava
caçando, mas não encontrava presa alguma. Irritado, encontrou N’Kutu
atravessando lentamente um atalho.
— Ora veja! —
rugiu Sengo. — A floresta inteira foge de mim, menos tu, pedra com patas.
N’Kutu ergueu a cabeça com calma:
— Eu não fujo porque sei que o medo não acelera minhas pernas.
O leopardo
riu, zombando:
— Tens coragem demais para quem mal consegue andar. Que tal uma corrida até o
rio grande? Se venceres, prometo não te caçar nunca. Mas se perderes… bem,
terás servido de jantar.
Os animais da
floresta, que já espiavam curiosos, murmuraram entre si. Corrida entre leopardo
e tartaruga? Seria como apostar o vento contra uma pedra.
Mas N’Kutu respondeu, tranquila:
— Aceito, mas com uma condição: a corrida será ao nascer do sol.
Sengo, certo
de sua vitória, aceitou.
Naquela noite,
N’Kutu chamou discretamente seus parentes. Pois as tartarugas, embora lentas,
eram muitas. Havia N’Kima, N’Zola, Kambwiri, Sola, e tantas outras espalhadas
pela floresta.
— Irmãs e
irmãos — disse N’Kutu —, amanhã preciso da vossa ajuda. O leopardo desafia não
apenas a mim, mas todos os que acreditam que só a força importa. Vamos
mostrar-lhe que a união e a astúcia podem mais do que músculos e garras.
As tartarugas
assentiram. Cada uma posicionou-se ao longo do caminho até o rio, escondendo-se
atrás de pedras, troncos e folhas.
Quando o sol
tingiu de vermelho o horizonte, a corrida começou. O leopardo partiu como
flecha, deixando poeira no ar. Em segundos, já estava longe.
De repente, ouviu uma voz calma à frente:
— Estou aqui, Sengo.
Era N’Kutu! Ou
melhor, era a irmã dela, N’Kima, que já estava adiantada no percurso.
— Como pode? —
rosnou o leopardo, acelerando ainda mais.
Correu até
quase perder o fôlego, mas logo à frente ouviu de novo:
— Estou aqui, Sengo.
Era outra
tartaruga, N’Zola, já à frente.
O leopardo não
entendia. Quanto mais corria, mais a tartaruga parecia estar adiante. Suas
patas já doíam, o coração batia como tambor de guerra.
Quando
finalmente chegou ao rio grande, quase desmaiado de cansaço, lá estava N’Kutu,
tranquila, bebendo água como se tivesse chegado há muito tempo.
Sengo caiu de
joelhos, ofegante. Os animais que assistiam à corrida não acreditavam no que
viam. O grande caçador, derrotado pela “pedra ambulante”!
Com raiva, Sengo tentou acusar:
— Usaste truques, tartaruga! Isso não é justo.
N’Kutu olhou para ele com serenidade:
— Tu usaste a pressa, eu usei a inteligência. Cada um correu com as armas que
tem. A floresta não é apenas do mais forte, mas também do mais sábio.
Os anciãos dos
animais bateram palmas, e o eco soou como trovão. O leopardo, humilhado,
afastou-se e nunca mais ousou zombar da lentidão.
Desde aquele
dia, quando alguém menospreza a paciência de outro, logo alguém lembra:
— Cuidado, não subestimes a tartaruga diante do leopardo.
E N’Kutu
passou a ser respeitada não por sua força, mas pela sua astúcia e
tranquilidade.
MORAL DA HISTÓRIA
Este conto mostra que na vida não é sempre o mais
forte, o mais rico ou o mais rápido que vence. Muitas vezes, quem alcança seus
objetivos é aquele que pensa com clareza, usa a inteligência e sabe esperar
o momento certo.
Na vida real,
isso se aplica a muitas situações:
- No trabalho, pode ser que alguém talentoso
mas impulsivo fracasse, enquanto uma pessoa persistente e paciente
consegue resultados melhores.
- Nos estudos, nem sempre quem aprende rápido
é o que mais sabe no fim; muitas vezes vence quem revisa com calma e
persevera.
- Nos relacionamentos, a pressa em exigir
resultados ou mudanças pode desgastar; mas a paciência constrói confiança.
- Na vida em geral, a pressa pode levar a
erros graves, enquanto a paciência guia à vitória segura.
Assim, o conto
ensina que cada pessoa deve valorizar seus dons próprios. Se não temos a
velocidade de um leopardo, temos a persistência de uma tartaruga. A vitória
pertence a quem sabe usar aquilo que tem, com sabedoria.
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