NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

20 - A TARTARUGA E O LEOPARDO

 

Provérbio: “A paciência e a astúcia vencem a força bruta e a pressa.”

 

Nas florestas húmidas de Kasanji, onde os rios se entrelaçam como serpentes de prata e as árvores crescem tão altas que parecem conversar com o céu, vivia uma tartaruga chamada N’Kutu.

N’Kutu não era rápida nem imponente. Carregava seu casco pesado como se fosse uma casa de pedra e movia-se com a calma de quem sabe que o tempo nunca tem pressa. Muitos animais zombavam dela:

— Olha a velha pedra ambulante! — gritavam os macacos.
— Se a floresta pegasse fogo, morreria queimada sem dar um passo fora! — ria a hiena.

N’Kutu, porém, não se ofendia. Limitava-se a sorrir e responder:
— Cada um caminha no ritmo que a vida lhe deu.

Naquela mesma floresta vivia Sengo, o leopardo. Forte, veloz, com a pele manchada de ouro e carvão, era temido por todos. Quando ele passava, os arbustos tremiam e os pássaros voavam em silêncio.

Um dia, o destino pôs frente a frente os dois extremos da natureza: a lentidão da tartaruga e a pressa do leopardo.

Sengo estava caçando, mas não encontrava presa alguma. Irritado, encontrou N’Kutu atravessando lentamente um atalho.

— Ora veja! — rugiu Sengo. — A floresta inteira foge de mim, menos tu, pedra com patas.

N’Kutu ergueu a cabeça com calma:
— Eu não fujo porque sei que o medo não acelera minhas pernas.

O leopardo riu, zombando:
— Tens coragem demais para quem mal consegue andar. Que tal uma corrida até o rio grande? Se venceres, prometo não te caçar nunca. Mas se perderes… bem, terás servido de jantar.

Os animais da floresta, que já espiavam curiosos, murmuraram entre si. Corrida entre leopardo e tartaruga? Seria como apostar o vento contra uma pedra.

Mas N’Kutu respondeu, tranquila:
— Aceito, mas com uma condição: a corrida será ao nascer do sol.

Sengo, certo de sua vitória, aceitou.

Naquela noite, N’Kutu chamou discretamente seus parentes. Pois as tartarugas, embora lentas, eram muitas. Havia N’Kima, N’Zola, Kambwiri, Sola, e tantas outras espalhadas pela floresta.

— Irmãs e irmãos — disse N’Kutu —, amanhã preciso da vossa ajuda. O leopardo desafia não apenas a mim, mas todos os que acreditam que só a força importa. Vamos mostrar-lhe que a união e a astúcia podem mais do que músculos e garras.

As tartarugas assentiram. Cada uma posicionou-se ao longo do caminho até o rio, escondendo-se atrás de pedras, troncos e folhas.

Quando o sol tingiu de vermelho o horizonte, a corrida começou. O leopardo partiu como flecha, deixando poeira no ar. Em segundos, já estava longe.

De repente, ouviu uma voz calma à frente:
— Estou aqui, Sengo.

Era N’Kutu! Ou melhor, era a irmã dela, N’Kima, que já estava adiantada no percurso.

— Como pode? — rosnou o leopardo, acelerando ainda mais.

Correu até quase perder o fôlego, mas logo à frente ouviu de novo:
— Estou aqui, Sengo.

Era outra tartaruga, N’Zola, já à frente.

O leopardo não entendia. Quanto mais corria, mais a tartaruga parecia estar adiante. Suas patas já doíam, o coração batia como tambor de guerra.

Quando finalmente chegou ao rio grande, quase desmaiado de cansaço, lá estava N’Kutu, tranquila, bebendo água como se tivesse chegado há muito tempo.

Sengo caiu de joelhos, ofegante. Os animais que assistiam à corrida não acreditavam no que viam. O grande caçador, derrotado pela “pedra ambulante”!

Com raiva, Sengo tentou acusar:
— Usaste truques, tartaruga! Isso não é justo.

N’Kutu olhou para ele com serenidade:
— Tu usaste a pressa, eu usei a inteligência. Cada um correu com as armas que tem. A floresta não é apenas do mais forte, mas também do mais sábio.

Os anciãos dos animais bateram palmas, e o eco soou como trovão. O leopardo, humilhado, afastou-se e nunca mais ousou zombar da lentidão.

Desde aquele dia, quando alguém menospreza a paciência de outro, logo alguém lembra:
— Cuidado, não subestimes a tartaruga diante do leopardo.

E N’Kutu passou a ser respeitada não por sua força, mas pela sua astúcia e tranquilidade.

 

MORAL DA HISTÓRIA

Este conto mostra que na vida não é sempre o mais forte, o mais rico ou o mais rápido que vence. Muitas vezes, quem alcança seus objetivos é aquele que pensa com clareza, usa a inteligência e sabe esperar o momento certo.

Na vida real, isso se aplica a muitas situações:

  • No trabalho, pode ser que alguém talentoso mas impulsivo fracasse, enquanto uma pessoa persistente e paciente consegue resultados melhores.
  • Nos estudos, nem sempre quem aprende rápido é o que mais sabe no fim; muitas vezes vence quem revisa com calma e persevera.
  • Nos relacionamentos, a pressa em exigir resultados ou mudanças pode desgastar; mas a paciência constrói confiança.
  • Na vida em geral, a pressa pode levar a erros graves, enquanto a paciência guia à vitória segura.

Assim, o conto ensina que cada pessoa deve valorizar seus dons próprios. Se não temos a velocidade de um leopardo, temos a persistência de uma tartaruga. A vitória pertence a quem sabe usar aquilo que tem, com sabedoria.


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