NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

19 - O VENTO E O TAMBOR DE M’BALA

 

Provérbio: “Quem aprende a escutar o vento, nunca se perde no caminho.”

 

Na aldeia de Kassulo, cercada por colinas verdejantes e vales de rios cintilantes, vivia um jovem chamado M’Bala. Ele era conhecido pelo seu tambor, esculpido à mão por seu pai com madeira de mulemba e couro de cabra.

O tambor de M’Bala não era comum: dizia-se que tinha espírito próprio. Quando ele batia, o som ecoava por quilômetros, chamando caçadores, reunindo o povo e até acalmando crianças inquietas.

Mas havia um segredo: M’Bala só conseguia tocar bem quando o vento soprava do norte. Quando vinha do sul, as notas saíam desordenadas, como se o tambor se recusasse a cantar.

Intrigado, M’Bala começou a desconfiar que o vento era mais que ar em movimento — era um mensageiro invisível que escolhia quando e como sua música podia soar.

Com o tempo, o jovem tornou-se vaidoso. Nas festas, tocava até cansar, e todos dançavam em volta da fogueira. As moças riam, os rapazes batiam palmas, e os anciãos balançavam a cabeça em aprovação.

— Ninguém toca como eu! — gabava-se. — Meu tambor fala mais alto que qualquer voz desta aldeia.

Seu avô, o velho Ngoma, advertia:
— M’Bala, não é o tambor que fala. É o vento que leva a tua batida. Sem ele, teu som não passa de madeira surda.

Mas o rapaz ria:
— Avô, o vento é apenas sopro. O som é meu, não dele.

Um ano depois, os céus fecharam-se. Não choveu por muitos meses. Os rios secaram, a terra rachou, as plantações murcharam. Os tambores, que antes ecoavam em celebrações, agora só batiam em súplica por chuva.

M’Bala acreditava que seu tambor poderia chamar as nuvens. Na praça da aldeia, começou a tocar com toda a força. Tocou durante dias, até ferir as mãos. Mas nada acontecia. O vento, que outrora soprava do norte e carregava sua música, agora estava parado.

— Onde estás, vento? — gritava, exausto. — Preciso de ti!

Mas o silêncio da savana respondia.

Na terceira noite sem vento, M’Bala adormeceu ao lado do tambor. Sonhou com uma figura envolta em redemoinhos de poeira e folhas secas. Era o Espírito do Vento, com voz profunda e ecoante:

— M’Bala, por que reclamas de mim?

— Porque desapareceste! — respondeu o jovem. — Sem ti, meu tambor não fala, e meu povo sofre sem chuva.

O espírito gargalhou como trovão distante:
— E desde quando o vento é servo do tambor? Esqueceste-te de que foste tu quem dançava comigo, e não eu contigo?

M’Bala baixou os olhos, envergonhado.

— Então o que devo fazer?

— Aprende a escutar-me, não a mandar-me. O vento sopra quando quer, não quando tu ordenas. Respeita-me, e talvez eu volte a carregar tua música.

Ao acordar, M’Bala decidiu seguir o conselho. Deixou de tocar para se exibir e começou a escutar. Subia às colinas ao amanhecer, fechava os olhos e ouvia o vento entre as folhas. Aprendeu a diferenciar o sopro suave da manhã, a brisa quente da tarde e o vento frio da noite.

Notou que cada direção trazia um som:

  • O vento do norte era firme, como batida de tambor maior.
  • O vento do sul era leve, quase como flauta.
  • O vento do leste trazia vozes de pássaros.
  • O vento do oeste rugia como leão.

Quanto mais ouvia, mais entendia que o vento era linguagem da terra.

Um mês depois, durante uma madrugada clara, M’Bala ouviu o vento do norte voltar. Pegou o tambor e, em vez de bater com arrogância, tocou em harmonia com o sopro.

— Tu conduzes, eu sigo — murmurou.

As batidas ecoaram suaves, como diálogo entre pele e ar. A música espalhou-se pela aldeia, acordando o povo. Mulheres saíram de suas casas, homens largaram ferramentas, crianças correram atrás do som.

De repente, nuvens começaram a formar-se no horizonte. O vento trouxe trovões, e logo a chuva caiu sobre Kassulo.

O povo gritava de alegria:
— O tambor de M’Bala trouxe a chuva!

Mas ele, humilde, respondeu:
— Não fui eu, foi o vento. Eu apenas o escutei.

Desde então, M’Bala deixou de tocar para vangloriar-se. Tornou-se conhecido como o Guardião do Vento. Ensinava às crianças:
— Antes de falar, aprende a escutar. Antes de tocar, aprende a ouvir o vento.

Com o tempo, sua música deixou de ser apenas festa: era oração, era aviso, era mensagem de união.

E até hoje, nas colinas de Kassulo, quando o vento sopra do norte, dizem que se pode ouvir, misturado ao sopro, o eco do tambor de M’Bala, lembrando que o verdadeiro poder não está em mandar, mas em saber escutar.

O povo de Kassulo aprendeu que o vento não é apenas ar: é espírito que guia viajantes, refresca guerreiros cansados e leva a música de quem sabe respeitar seus caminhos.

 

MORAL DA HISTÓRIA

 O conto de M’Bala é mais do que uma história sobre tambores e vento; é uma metáfora viva da relação entre humildade, escuta e responsabilidade na vida africana contemporânea. Para jovens e adultos, ensina que o verdadeiro poder não está em dominar o mundo à força, mas em compreender e dialogar com ele — seja respeitando os saberes ancestrais, a natureza ou as dinâmicas comunitárias.

Na realidade africana de hoje, marcada por desafios sociais, ambientais e culturais, a lição é clara: só quem aprende a ouvir antes de agir consegue construir soluções duradouras, manter a coesão comunitária e preservar a memória coletiva.

Analiticamente, o conto se encaixa na tradição oral africana como metáfora de resistência e identidade: o tambor simboliza a voz do povo, transmitindo histórias e saberes, enquanto o vento representa as forças invisíveis que guiam a existência, lembrando que a cultura, a memória e a história são instrumentos essenciais de resiliência. Ao harmonizar-se com essas forças, M’Bala não apenas garante a chuva para sua aldeia, mas reafirma a centralidade da tradição oral como fio condutor entre passado e futuro, entre aprendizagem individual e preservação comunitária.

 Moral resumida: “Quem aprende a escutar o vento, descobre que o mundo fala em vozes invisíveis.”


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