NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

18 - O FOGO DE KIMBANDA

 

Provérbio: “O fogo cozinha o alimento, mas também queima a aldeia.”


Nas terras secas de Lunje, onde a savana se estendia até perder de vista e o sol parecia dançar sobre a areia, o fogo era mais do que uma chama: era vida. Servia para cozinhar o milho, afastar os animais selvagens, aquecer as noites frias e até iluminar as danças em volta do tambor.

Mas também era temido. Um só descuido, e o fogo podia devorar casas de capim, bosques inteiros, até mesmo ceifar vidas.

Naquela aldeia vivia um rapaz chamado Kimbanda, cujo nome significava “curador” em homenagem ao avô. Mas, ironicamente, Kimbanda não tinha paciência nem temperança. Gostava de brincar com aquilo que não compreendia.

Entre todas as coisas que despertavam sua curiosidade, nenhuma brilhava mais em seus olhos do que o fogo.

Desde pequeno, Kimbanda passava horas olhando as chamas dançarem nas fogueiras do entardecer. Via nelas espíritos que rodopiavam, guerreiros que lutavam, animais que saltavam.

— O fogo é meu amigo — dizia ele. — Obedece-me porque não tenho medo dele.

Sua mãe, Mama Sefu, repreendia:
— Kimbanda, não digas isso! O fogo não é brinquedo. Ele não tem dono, só respeito.

Mas o rapaz ria, convencido de que podia controlá-lo. Com um pedaço de madeira em brasa, costumava desenhar círculos no chão, atirava fagulhas para o alto e até desafiava os amigos a pular sobre pequenas fogueiras.

— Vedes? Ele me obedece! — vangloriava-se.

Certo dia, durante uma reunião do conselho, o velho Mwalimu, chefe da aldeia, chamou Kimbanda e disse:
— Filho de Lunje, ouvimos que brincas demais com as chamas. Lembra-te: o fogo é servo fiel quando é bem tratado, mas se sente-se desrespeitado, vira senhor cruel.

Kimbanda sorriu com arrogância:
— Avô Mwalimu, eu conheço o fogo melhor que qualquer um. Ele dança para mim, nunca me fará mal.

O chefe suspirou e respondeu:
— Aquele que pensa dominar o leão, cedo ou tarde sente seus dentes.

Mas as palavras caíram em ouvidos surdos.

Chegou o tempo da festa da colheita. Toda a aldeia se reuniu em cânticos e tambores. Mulheres trouxeram cestos de milho e abóboras, homens caçaram antílopes, crianças corriam em volta da grande fogueira no centro da praça.

Era o momento que Kimbanda mais esperava. Enquanto os tambores rufavam, ele acendeu pequenas tochas e começou a girá-las como se fossem serpentes de luz. A multidão aplaudia, impressionada com sua ousadia.

— Vedes? Eu comando o fogo! — gritava, girando as chamas no ar.

Até que, num instante de descuido, uma das tochas caiu sobre a cerca de palha. Em segundos, as chamas se espalharam. O vento soprou forte, e o fogo começou a devorar as casas vizinhas.

Gritos ecoaram. Mulheres correram para salvar crianças, homens tentaram conter as chamas com baldes de água, mas o fogo crescia como um monstro insaciável.

A aldeia de Lunje queimava.

No meio da confusão, Kimbanda ficou paralisado. Pela primeira vez, viu que o fogo não dançava para ele. Rugia contra todos, inclusive contra si.

— Fogo, eu sou teu amigo! Para! — gritou desesperado.

Mas o fogo não respondia. Ele não tinha ouvidos, não tinha coração.

De repente, um pedaço de telhado em chamas caiu sobre o ombro do rapaz, queimando sua pele. Kimbanda caiu no chão, gritando de dor. Foi salvo por Mama Sefu, que o puxou para fora às pressas.

Naquela noite, metade da aldeia virou cinza. Muitos perderam casas, colheitas e objetos preciosos.

Kimbanda, ferido e envergonhado, não conseguiu dormir. Cada vez que fechava os olhos, via o fogo rindo, zombando dele. Sentia as chamas queimarem sua vaidade.

No dia seguinte, o conselho dos anciãos reuniu-se. O chefe Mwalimu falou com voz grave:
— Kimbanda, tua arrogância custou caro ao povo. O fogo não é teu brinquedo. É espírito antigo. Para aprender, deverás passar quarenta dias na mata, longe da aldeia, vivendo apenas com o que a terra te der. Talvez assim compreendas a diferença entre dominar e respeitar.

O rapaz abaixou a cabeça. Sabia que não havia defesa possível.

Na mata, Kimbanda enfrentou noites frias sem fogueira, pois temia acendê-la. Passou fome, dormiu no chão úmido e chorou. Mas pouco a pouco aprendeu a olhar o fogo com outros olhos.

Um dia, após jejuar longamente, decidiu acender uma pequena chama para cozinhar raízes. Ajoelhou-se diante dela e murmurou:
— Não és meu brinquedo. Não és meu servo. És força de vida. Se eu te respeito, tu me ajudas; se eu te insulto, tu me destróis.

Assim, começou a acender fogueiras pequenas, cuidadosas, sempre apagando as brasas ao partir. Usava o fogo apenas para aquecer e cozinhar, nunca para ostentar.

Quando voltou à aldeia após quarenta dias, estava mais magro, mas seus olhos tinham outro brilho: o da humildade.

Mwalimu perguntou-lhe:
— Que aprendeste, filho de Lunje?

Kimbanda respondeu:
— Aprendi que o fogo não é brinquedo nem inimigo. É mestre. Ensina-nos que poder sem respeito é destruição, mas com sabedoria é vida.

A partir desse dia, Kimbanda passou a ser conhecido não como o rapaz vaidoso, mas como guardião das chamas. Sempre lembrava às crianças:
— Nunca desafiem o fogo. Tratem-no como tratariam um ancião.

E quando a aldeia fazia festas, era ele quem acendia a fogueira central, mas nunca mais para exibir-se — apenas para unir o povo em volta da luz.

Kimbanda envelheceu, tornou-se contador de histórias, e sempre repetia às novas gerações:
— O fogo cozinha o alimento e aquece os corpos, mas também pode queimar aldeias inteiras. Respeitai-o, e ele será vosso amigo.

E assim, o povo de Lunje aprendeu a tratar o fogo como um espírito digno de reverência.


MORAL DA HISTÓRIA

 Essa história é uma lição de humildade e respeito diante do poder da natureza e da força em geral. Kimbanda acreditava que podia dominar o fogo pela audácia e vaidade, mas aprendeu da forma mais dura que poder sem consciência é destruição. O fogo aqui funciona como professor: ele recompensa o respeito e pune a arrogância, ensinando que cada força — seja natural, social ou pessoal — tem limites e exige responsabilidade.

 O ponto forte do conto é a transformação de Kimbanda. Ele passa da imprudência à sabedoria, compreendendo que poder não é sobre mostrar habilidade, mas sobre usar recursos com consciência e cuidado. A metáfora é clara: fogo, água, terra, vento — todas as forças podem servir ou destruir, dependendo da postura de quem as maneja.

Moral resumida: “Quem se julga dono do fogo acaba queimado; quem o respeita encontra nele um aliado.”


Sem comentários:

Enviar um comentário