Provérbio: “O fogo cozinha o alimento, mas também queima a aldeia.”
Nas terras
secas de Lunje, onde a savana se estendia até perder de vista e o sol
parecia dançar sobre a areia, o fogo era mais do que uma chama: era vida.
Servia para cozinhar o milho, afastar os animais selvagens, aquecer as noites
frias e até iluminar as danças em volta do tambor.
Mas também era
temido. Um só descuido, e o fogo podia devorar casas de capim, bosques
inteiros, até mesmo ceifar vidas.
Naquela aldeia
vivia um rapaz chamado Kimbanda, cujo nome significava “curador” em
homenagem ao avô. Mas, ironicamente, Kimbanda não tinha paciência nem
temperança. Gostava de brincar com aquilo que não compreendia.
Entre todas as
coisas que despertavam sua curiosidade, nenhuma brilhava mais em seus olhos do
que o fogo.
Desde pequeno,
Kimbanda passava horas olhando as chamas dançarem nas fogueiras do entardecer.
Via nelas espíritos que rodopiavam, guerreiros que lutavam, animais que
saltavam.
— O fogo é meu
amigo — dizia ele. — Obedece-me porque não tenho medo dele.
Sua mãe, Mama Sefu, repreendia:
— Kimbanda, não digas isso! O fogo não é brinquedo. Ele não tem dono, só
respeito.
Mas o rapaz
ria, convencido de que podia controlá-lo. Com um pedaço de madeira em brasa,
costumava desenhar círculos no chão, atirava fagulhas para o alto e até
desafiava os amigos a pular sobre pequenas fogueiras.
— Vedes? Ele
me obedece! — vangloriava-se.
Certo dia, durante uma reunião do conselho, o
velho Mwalimu, chefe da aldeia, chamou Kimbanda e disse:
— Filho de Lunje, ouvimos que brincas demais com as chamas. Lembra-te: o fogo é
servo fiel quando é bem tratado, mas se sente-se desrespeitado, vira senhor
cruel.
Kimbanda sorriu com arrogância:
— Avô Mwalimu, eu conheço o fogo melhor que qualquer um. Ele dança para mim,
nunca me fará mal.
O chefe suspirou e respondeu:
— Aquele que pensa dominar o leão, cedo ou tarde sente seus dentes.
Mas as
palavras caíram em ouvidos surdos.
Chegou o tempo
da festa da colheita. Toda a aldeia se reuniu em cânticos e tambores. Mulheres
trouxeram cestos de milho e abóboras, homens caçaram antílopes, crianças
corriam em volta da grande fogueira no centro da praça.
Era o momento
que Kimbanda mais esperava. Enquanto os tambores rufavam, ele acendeu pequenas
tochas e começou a girá-las como se fossem serpentes de luz. A multidão
aplaudia, impressionada com sua ousadia.
— Vedes? Eu
comando o fogo! — gritava, girando as chamas no ar.
Até que, num
instante de descuido, uma das tochas caiu sobre a cerca de palha. Em segundos,
as chamas se espalharam. O vento soprou forte, e o fogo começou a devorar as
casas vizinhas.
Gritos
ecoaram. Mulheres correram para salvar crianças, homens tentaram conter as
chamas com baldes de água, mas o fogo crescia como um monstro insaciável.
A aldeia de
Lunje queimava.
No meio da
confusão, Kimbanda ficou paralisado. Pela primeira vez, viu que o fogo não
dançava para ele. Rugia contra todos, inclusive contra si.
— Fogo, eu sou
teu amigo! Para! — gritou desesperado.
Mas o fogo não
respondia. Ele não tinha ouvidos, não tinha coração.
De repente, um
pedaço de telhado em chamas caiu sobre o ombro do rapaz, queimando sua pele.
Kimbanda caiu no chão, gritando de dor. Foi salvo por Mama Sefu, que o puxou
para fora às pressas.
Naquela noite,
metade da aldeia virou cinza. Muitos perderam casas, colheitas e objetos
preciosos.
Kimbanda,
ferido e envergonhado, não conseguiu dormir. Cada vez que fechava os olhos, via
o fogo rindo, zombando dele. Sentia as chamas queimarem sua vaidade.
No dia
seguinte, o conselho dos anciãos reuniu-se. O chefe Mwalimu falou com voz
grave:
— Kimbanda, tua arrogância custou caro ao povo. O fogo não é teu brinquedo. É
espírito antigo. Para aprender, deverás passar quarenta dias na mata, longe da
aldeia, vivendo apenas com o que a terra te der. Talvez assim compreendas a
diferença entre dominar e respeitar.
O rapaz
abaixou a cabeça. Sabia que não havia defesa possível.
Na mata,
Kimbanda enfrentou noites frias sem fogueira, pois temia acendê-la. Passou
fome, dormiu no chão úmido e chorou. Mas pouco a pouco aprendeu a olhar o fogo
com outros olhos.
Um dia, após jejuar longamente, decidiu acender
uma pequena chama para cozinhar raízes. Ajoelhou-se diante dela e murmurou:
— Não és meu brinquedo. Não és meu servo. És força de vida. Se eu te respeito,
tu me ajudas; se eu te insulto, tu me destróis.
Assim, começou
a acender fogueiras pequenas, cuidadosas, sempre apagando as brasas ao partir.
Usava o fogo apenas para aquecer e cozinhar, nunca para ostentar.
Quando voltou
à aldeia após quarenta dias, estava mais magro, mas seus olhos tinham outro
brilho: o da humildade.
Mwalimu perguntou-lhe:
— Que aprendeste, filho de Lunje?
Kimbanda respondeu:
— Aprendi que o fogo não é brinquedo nem inimigo. É mestre. Ensina-nos que
poder sem respeito é destruição, mas com sabedoria é vida.
A partir desse dia, Kimbanda passou a ser
conhecido não como o rapaz vaidoso, mas como guardião das chamas. Sempre
lembrava às crianças:
— Nunca desafiem o fogo. Tratem-no como tratariam um ancião.
E quando a
aldeia fazia festas, era ele quem acendia a fogueira central, mas nunca mais
para exibir-se — apenas para unir o povo em volta da luz.
Kimbanda
envelheceu, tornou-se contador de histórias, e sempre repetia às novas
gerações:
— O fogo cozinha o alimento e aquece os corpos, mas também pode queimar aldeias
inteiras. Respeitai-o, e ele será vosso amigo.
E assim, o
povo de Lunje aprendeu a tratar o fogo como um espírito digno de reverência.
MORAL DA HISTÓRIA
Moral resumida: “Quem se julga dono do fogo acaba queimado; quem o respeita encontra
nele um aliado.”
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