Provérbio: “A chuva não escolhe teto; molha tanto a palhota do pobre quanto a casa do rico.”
Na vasta
planície de N’Goma, onde o sol queimava forte e o horizonte parecia
dançar de calor, vivia um povo conhecido pela sua música. Cada estação,
celebravam a chegada das chuvas com tambores, danças e cânticos. Acreditavam
que a chuva era um presente dos ancestrais, que devolvia a vida à terra seca,
alimentava o milho, fazia crescer a mandioca e enchia os rios de peixes.
Mas, com o
tempo, as pessoas começaram a se esquecer. As festas rarearam, os
agradecimentos sumiram. Passaram a tratar a chuva como algo garantido, como se
fosse um direito e não uma bênção.
Entre eles
vivia o velho Mwanza, guardião das histórias da aldeia. Tinha a pele
enrugada como casca de baobá e os olhos brilhantes como brasas. Ele alertava:
— Filhos de N’Goma, não deixem de honrar a chuva, pois ela tem ouvidos.
Mas os jovens riam.
— Avô, isso são palavras antigas. A chuva vem porque deve vir, não por nossas
danças.
Mwanza
suspirava. Ele sabia que o esquecimento do povo traria consequências.
O tempo
passou. As nuvens deixaram de visitar N’Goma. O sol queimava sem piedade,
rachando a terra como pele ferida. As plantações secavam. O rio, antes cheio de
risadas e banhos de crianças, virou um fio de água lamacento.
As mães
choravam por não ter milho para moer. Os caçadores voltavam da mata com mãos
vazias, pois até os animais fugiram em busca de pastos melhores.
E a aldeia perguntava:
— Por que os céus nos abandonaram?
Somente
Mwanza, sentado à sombra de um baobá solitário, murmurava:
— Vocês abandonaram primeiro a chuva.
Nesse tempo
vivia um menino chamado Ayo, de coração curioso e espírito inquieto. Ele
via a tristeza no rosto da mãe, que passava noites tentando cozinhar raízes
secas para alimentar os irmãos. Decidiu procurar resposta.
Certa noite, enquanto a lua iluminava o chão
rachado, Ayo foi até Mwanza.
— Avô, como posso trazer de volta a chuva?
O velho sorriu com ternura:
— Filho, a chuva tem ouvidos, mas não escuta palavras de arrogância. Só retorna
quando o coração dos homens aprende a agradecer.
— Então o que
devo fazer?
— Vai até a
colina de Itanda, onde os ventos falam com os ancestrais. Leva contigo
um tambor. Toca não para pedir, mas para lembrar que ainda sabemos dançar por
gratidão.
Na manhã
seguinte, Ayo amarrou às costas o tambor herdado do pai, feito de pele de cabra
e madeira de mukwa. Partiu sozinho, sob o sol escaldante. Os pés doíam, mas sua
determinação era maior.
Enquanto
caminhava, lembrava das histórias de Mwanza: que a chuva era uma mulher bela,
chamada N’vula, que se enfeitava com colares de nuvens e véus de
relâmpagos. Ela só visitava quem a respeitava.
Chegou à
colina de Itanda à noite. O vento soprava forte, como se carregasse vozes. Ayo
sentou-se e começou a tocar o tambor. No início, suas mãos batiam timidamente.
Depois, ganhou coragem. Tocou ritmos antigos que ouvira nas festas da infância.
Cantou não pedindo, mas agradecendo como se a chuva já estivesse ali.
De repente, o
vento silenciou. O céu clareou com um relâmpago distante. Uma figura se formou
diante de Ayo: uma mulher alta, de pele cintilante como gota de orvalho,
cabelos longos feitos de nuvens e olhos profundos como lagos.
Era N’vula,
a Senhora da Chuva.
— Menino de
N’Goma — disse ela, com voz que soava como trovão distante —, por que cantas
sozinho quando tua aldeia esqueceu minhas canções?
Ayo abaixou a cabeça.
— Não canto para pedir. Canto para lembrar. Ainda há corações que não
esqueceram.
N’vula sorriu suavemente.
— Tu és pequeno, mas tua gratidão é grande. Diz ao teu povo que a chuva não é
serva, mas mãe. E mãe deve ser honrada.
Com essas
palavras, desapareceu, deixando no ar o cheiro fresco de terra molhada.
Ayo desceu a colina correndo, o tambor ainda
preso às costas. Quando chegou à aldeia, reuniu todos diante da praça.
— Escutem! A Senhora da Chuva falou comigo! Se quisermos que ela volte, devemos
dançar, cantar e agradecer como nossos avós faziam!
Muitos riram,
outros duvidaram. Mas Mwanza ergueu-se com esforço e declarou:
— O menino fala verdade. Eu, velho que já viu muitas secas, digo que a chuva
tem ouvidos.
Convencidos
pelo respeito que tinham pelo ancião, os aldeões reuniram seus tambores,
marimbas e vozes. Pela primeira vez em muitos anos, dançaram sob o céu
estrelado, cantando não por fome, mas por gratidão antecipada.
Naquela
madrugada, as nuvens voltaram a se formar. O vento trouxe cheiro de frescor. E
então, como lágrimas dos ancestrais, a chuva caiu forte sobre N’Goma.
As crianças
correram nuas pela lama, rindo. As mães ergueram os braços, agradecendo. Os
homens dançaram até o amanhecer. E no meio deles, Ayo sorria, sabendo que a
lição tinha sido aprendida.
O povo nunca
mais esqueceu. Todos os anos, na época das chuvas, subiam juntos à colina de
Itanda para tocar tambores de gratidão. E Ayo cresceu, tornando-se ele mesmo
guardião das histórias, como Mwanza.
MORAL DA
HISTÓRIA
Este conto ensina que a gratidão e o respeito pelas forças da natureza — e pelos saberes ancestrais — são essenciais para a sobrevivência e prosperidade das comunidades africanas de hoje. A história mostra aos jovens e adultos que não basta tomar recursos como garantidos; é preciso honrar a vida, a terra e as tradições, reconhecendo que cada gesto de respeito fortalece a conexão com o passado e garante o futuro. Inserido na tradição oral africana, o tambor e a figura de N’vula funcionam como metáforas de memória, identidade e resistência cultural: o som do tambor não é apenas música, mas comunicação com os ancestrais, lembrando a aldeia de sua história e de seus valores.
Analiticamente, o conto
reflete sobre como a transmissão de conhecimento e gratidão intergeracional
protege a comunidade e reforça a consciência coletiva, mostrando que a
verdadeira sabedoria está em ouvir, respeitar e agir com coração atento às
lições do passado.
Moral resumida: “Quem não agradece os pequenos favores, um dia perde até os maiores. A
natureza devolve na mesma medida do respeito que recebe.”
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