NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

16 - O RIO E A MENINA MWANGA

 

Provérbio: “Quem não respeita o rio, cedo ou tarde será levado pela corrente.”


No coração de Kisomoko, uma aldeia cercada por savanas e bosques de mopane, corria o majestoso rio Kalunda. Suas águas serpenteavam entre pedras negras e altas palmeiras, sustentando a vida de homens, animais e plantas.

O povo dizia que Kalunda era mais do que um rio: era um ancião. Um guardião que via passagens de gerações, carregava segredos e castigava aqueles que o desrespeitavam.

Nessa aldeia vivia uma menina chamada Mwanga, cujo nome significava “luz”. Tinha olhos curiosos e inquietos, cabelos trançados que brilhavam ao sol e um espírito tão audacioso quanto a correnteza do rio.

Mwanga ouvia sempre os conselhos da avó, Mama Nalia, que dizia:
— Menina, nunca brinques de desafiar o Kalunda. Ele é amigo quando o honramos, mas pode se tornar inimigo se zombamos dele.

Mas Mwanga, como toda criança cheia de energia, achava que o rio era apenas um lugar de diversão.

Todos os dias, Mwanga descia até as margens do Kalunda para brincar com as amigas. Enquanto as outras meninas recolhiam água em potes de barro, equilibrando-os com graça na cabeça, Mwanga preferia mergulhar fundo, nadar contra a corrente, cantar e até desafiar o rio:

— Kalunda, tu és forte, mas eu sou mais esperta!

As outras riam, mas com nervosismo.
— Não fales assim, Mwanga! O rio ouve!

Ela respondia:
— São histórias de velhos para meter medo em crianças!

Com o tempo, Mwanga ficou convencida de que nada poderia acontecer-lhe.

Um dia, enquanto ela nadava, aproximou-se o velho Kato, pescador conhecido por sua sabedoria. Sentou-se numa pedra e observou a menina lutar contra as ondas.

— Pequena Mwanga, tu brincas com algo maior do que tu. O rio não gosta de orgulho.

Ela, ainda dentro da água, riu:
— Avô Kato, o rio é só água! Não pode me ouvir!

O velho suspirou.
— Tua avó me disse que és como fogo: brilhas, mas também queimas. Escuta-me: respeita o rio, ou ele te ensinará à força.

Mwanga não deu importância e continuou mergulhando.

Alguns dias depois, o céu escureceu de repente. Nuvens pesadas cobriram a savana e trovões sacudiram a terra. As águas do Kalunda começaram a subir, engrossando com fúria.

Mesmo assim, Mwanga correu até o rio, movida por sua ousadia.
— Hoje mostrarei que sou mais forte até que as águas da tempestade! — disse a si mesma.

Entrou na correnteza, mas logo percebeu que não era como antes. O rio rugia, girando em redemoinhos, arrastando troncos e pedras. Mwanga tentou nadar contra a força, mas logo foi puxada. Gritou por socorro, e o rio parecia zombar de suas palavras.

As amigas correram à aldeia em busca de ajuda. Mama Nalia e o ancião Kato chegaram correndo às margens. Vendo a neta em perigo, Nalia ergueu as mãos ao céu e entoou um cântico antigo:

— Kalunda, rio velho, não leves minha neta! Ela é criança, ainda não aprendeu a lição!

O vento silenciou, e por um instante a corrente parou. Mwanga foi empurrada para a margem, tossindo e tremendo de medo.

À noite, Mwanga sonhou com o rio. No sonho, Kalunda tinha forma de um homem gigante, com pele azulada como água e barba de algas. Seus olhos brilhavam como duas luas refletidas na corrente.

Ele falou com voz grave:
— Menina de Kisomoko, tu zombaste de mim. Eu sou o rio que dá peixe e sede sacia, mas também arrasto troncos e vidas. Nunca mais brinques de desafiar-me. Aprende que a água que brinca pode se transformar em água que afoga.

Mwanga acordou assustada, com o corpo ainda molhado de suor.

No dia seguinte, foi até a margem do rio com um pequeno pote de mel e folhas de palma. Ajoelhou-se e disse:
— Kalunda, perdoa minha ousadia. Eu era criança de orgulho, mas agora sei que és mais velho que minhas brincadeiras. Trago-te mel em sinal de amizade.

Atirou a oferenda ao rio. As águas a receberam em silêncio, mas suave, como se aceitassem o gesto.

Desde esse dia, Mwanga mudou. Passou a ensinar às crianças menores que o rio é amigo, mas merece respeito. Acompanhava a avó quando ela entoava canções antigas, ajudava Kato a reparar as redes e nunca mais entrou na água sem primeiro saudar o Kalunda.

E o rio, em troca, passou a abençoar a aldeia com fartura de peixes e águas limpas.

Os anos passaram, e Mwanga cresceu. Tornou-se uma jovem respeitada, conhecida por sua voz melodiosa e por sua sabedoria. Quando crianças atrevidas tentavam zombar do rio, ela contava sua história:

— Eu mesma pensei que era mais esperta que o Kalunda. E quase paguei com a vida. O rio não é inimigo nem brinquedo. É ancião que nos sustenta.

E todos escutavam em silêncio, pois sua lição era marcada não por palavras, mas por cicatrizes invisíveis de uma experiência real.

 

MORAL DA HISTÓRIA

 Essa história carrega uma lição poderosa sobre respeito e humildade diante das forças da natureza. Mwanga aprendeu da maneira mais dura que a ousadia sem consciência pode trazer consequências graves, e que os ensinamentos dos mais velhos — mesmo quando parecem exagerados — têm sabedoria enraizada na experiência.

 O rio Kalunda funciona como um personagem vivo, um “guardião” que recompensa aqueles que o honram e pune os imprudentes, lembrando que a natureza não é apenas recurso, mas interlocutor e protetora da comunidade. A narrativa também reforça a transmissão intergeracional de conhecimento: Mama Nalia e Kato representam a memória ancestral que guia a juventude, e Mwanga, ao aprender e depois ensinar, perpetua esse saber.

 No fundo, é um conto sobre equilíbrio: brincar, explorar e crescer são necessários, mas sempre com consciência e respeito. E a mensagem é clara: quem ignora a sabedoria do passado e a força da natureza, cedo ou tarde paga o preço.

Moral resumida: “A água que sacia também pode afogar. O respeito pela natureza é a ponte entre a vida e a morte.”


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