Provérbio: “Quem não respeita o rio, cedo ou tarde será levado pela corrente.”
No coração de Kisomoko,
uma aldeia cercada por savanas e bosques de mopane, corria o majestoso rio Kalunda.
Suas águas serpenteavam entre pedras negras e altas palmeiras, sustentando a
vida de homens, animais e plantas.
O povo dizia
que Kalunda era mais do que um rio: era um ancião. Um guardião que via
passagens de gerações, carregava segredos e castigava aqueles que o
desrespeitavam.
Nessa aldeia
vivia uma menina chamada Mwanga, cujo nome significava “luz”. Tinha
olhos curiosos e inquietos, cabelos trançados que brilhavam ao sol e um
espírito tão audacioso quanto a correnteza do rio.
Mwanga ouvia
sempre os conselhos da avó, Mama Nalia, que dizia:
— Menina, nunca brinques de desafiar o Kalunda. Ele é amigo quando o honramos,
mas pode se tornar inimigo se zombamos dele.
Mas Mwanga,
como toda criança cheia de energia, achava que o rio era apenas um lugar de
diversão.
Todos os dias,
Mwanga descia até as margens do Kalunda para brincar com as amigas. Enquanto as
outras meninas recolhiam água em potes de barro, equilibrando-os com graça na
cabeça, Mwanga preferia mergulhar fundo, nadar contra a corrente, cantar e até
desafiar o rio:
— Kalunda, tu
és forte, mas eu sou mais esperta!
As outras riam, mas com nervosismo.
— Não fales assim, Mwanga! O rio ouve!
Ela respondia:
— São histórias de velhos para meter medo em crianças!
Com o tempo,
Mwanga ficou convencida de que nada poderia acontecer-lhe.
Um dia,
enquanto ela nadava, aproximou-se o velho Kato, pescador conhecido por
sua sabedoria. Sentou-se numa pedra e observou a menina lutar contra as ondas.
— Pequena
Mwanga, tu brincas com algo maior do que tu. O rio não gosta de orgulho.
Ela, ainda dentro da água, riu:
— Avô Kato, o rio é só água! Não pode me ouvir!
O velho suspirou.
— Tua avó me disse que és como fogo: brilhas, mas também queimas. Escuta-me:
respeita o rio, ou ele te ensinará à força.
Mwanga não deu
importância e continuou mergulhando.
Alguns dias
depois, o céu escureceu de repente. Nuvens pesadas cobriram a savana e trovões
sacudiram a terra. As águas do Kalunda começaram a subir, engrossando com
fúria.
Mesmo assim,
Mwanga correu até o rio, movida por sua ousadia.
— Hoje mostrarei que sou mais forte até que as águas da tempestade! — disse a
si mesma.
Entrou na
correnteza, mas logo percebeu que não era como antes. O rio rugia, girando em
redemoinhos, arrastando troncos e pedras. Mwanga tentou nadar contra a força,
mas logo foi puxada. Gritou por socorro, e o rio parecia zombar de suas
palavras.
As amigas
correram à aldeia em busca de ajuda. Mama Nalia e o ancião Kato chegaram
correndo às margens. Vendo a neta em perigo, Nalia ergueu as mãos ao céu e
entoou um cântico antigo:
— Kalunda, rio
velho, não leves minha neta! Ela é criança, ainda não aprendeu a lição!
O vento
silenciou, e por um instante a corrente parou. Mwanga foi empurrada para a
margem, tossindo e tremendo de medo.
À noite,
Mwanga sonhou com o rio. No sonho, Kalunda tinha forma de um homem gigante, com
pele azulada como água e barba de algas. Seus olhos brilhavam como duas luas
refletidas na corrente.
Ele falou com voz grave:
— Menina de Kisomoko, tu zombaste de mim. Eu sou o rio que dá peixe e sede
sacia, mas também arrasto troncos e vidas. Nunca mais brinques de desafiar-me.
Aprende que a água que brinca pode se transformar em água que afoga.
Mwanga acordou
assustada, com o corpo ainda molhado de suor.
No dia
seguinte, foi até a margem do rio com um pequeno pote de mel e folhas de palma.
Ajoelhou-se e disse:
— Kalunda, perdoa minha ousadia. Eu era criança de orgulho, mas agora sei que
és mais velho que minhas brincadeiras. Trago-te mel em sinal de amizade.
Atirou a
oferenda ao rio. As águas a receberam em silêncio, mas suave, como se
aceitassem o gesto.
Desde esse
dia, Mwanga mudou. Passou a ensinar às crianças menores que o rio é amigo, mas
merece respeito. Acompanhava a avó quando ela entoava canções antigas, ajudava
Kato a reparar as redes e nunca mais entrou na água sem primeiro saudar o
Kalunda.
E o rio, em
troca, passou a abençoar a aldeia com fartura de peixes e águas limpas.
Os anos
passaram, e Mwanga cresceu. Tornou-se uma jovem respeitada, conhecida por sua
voz melodiosa e por sua sabedoria. Quando crianças atrevidas tentavam zombar do
rio, ela contava sua história:
— Eu mesma
pensei que era mais esperta que o Kalunda. E quase paguei com a vida. O rio não
é inimigo nem brinquedo. É ancião que nos sustenta.
E todos
escutavam em silêncio, pois sua lição era marcada não por palavras, mas por
cicatrizes invisíveis de uma experiência real.
MORAL DA HISTÓRIA
Moral resumida: “A água que sacia também pode afogar. O respeito pela natureza é a
ponte entre a vida e a morte.”
Sem comentários:
Enviar um comentário