NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

15 - O MENINO E AS DEZ VARAS

 

Provérbio: “Uma vara sozinha quebra-se facilmente, mas dez varas juntas ninguém consegue partir.”

 

Na aldeia de Kitala, situada entre colinas verdes e o rio Zambeze, vivia o velho Soba Kafumo. Já não tinha a força de antes, mas conservava a sabedoria que guiava seu povo. Ele tinha dez filhos, cada um com sua personalidade: uns fortes, outros habilidosos, outros teimosos. Mas havia um problema — brigavam entre si constantemente.

As discussões eram sobre tudo: a divisão da caça, o uso do campo de cultivo, até mesmo quem deveria carregar a tocha durante as festas. O soba, preocupado, sabia que sua morte se aproximava e temia deixar a aldeia entregue a filhos desunidos.

Certa tarde, quando o sol descia pintando de vermelho o horizonte, os irmãos começaram mais uma briga. Chilombo, o mais velho, acusava Katende, o segundo, de ter tomado mais milho do celeiro. Mulaza, o terceiro, ria com desprezo, enquanto os mais novos gritavam para tomar partido.

O tumulto cresceu até que o soba, cansado, ergueu a voz:
— Silêncio! Vocês, que nasceram do mesmo ventre, comportam-se como inimigos da floresta. Não percebem que a desunião é a porta pela qual os estrangeiros entram para dominar?

Os filhos se calaram, mas seus corações continuavam cheios de orgulho.

Na manhã seguinte, o soba chamou todos diante da casa do conselho. Trouxe consigo um feixe de dez varas, amarradas com uma corda de fibra de palmeira.

— Quem dentre vocês é o mais forte? — perguntou.

Chilombo ergueu o peito e disse:
— Eu, pai.

O soba entregou-lhe o feixe:
— Então quebra estas varas.

O jovem aplicou toda a sua força. Segurou de um lado, tentou dobrar, tentou partir com o joelho. Suava, mas as varas permaneceram firmes.

— Se o mais forte não consegue, tentem os outros.

Um a um, os filhos tentaram. Katende, com seus músculos de caçador; Mulaza, com astúcia; até os mais novos, que riam ao tentar. Nenhum conseguiu partir o feixe.

Então o soba desamarrou a corda e entregou uma vara a cada filho.
— Agora, quebrem.

Num instante, o estalo ecoou no ar. Cada um partiu sua vara sem esforço.

O soba levantou a voz:
— Vocês viram? Unidos, são fortes como este feixe de varas. Separados, são frágeis e facilmente vencidos. Quando eu partir para a morada dos ancestrais, se permanecerem desunidos, outros povos os dominarão. Mas se ficarem juntos, nem a fúria do rio, nem a força da montanha os destruirá.

Os filhos abaixaram a cabeça, envergonhados. Pela primeira vez, compreenderam a gravidade da desunião.

Alguns dias depois, a aldeia foi atacada por ladrões vindos de outra região. Normalmente, os irmãos teriam brigado entre si para decidir quem lideraria a defesa. Mas dessa vez, lembraram-se das palavras do pai.

Chilombo assumiu a linha da frente com sua lança. Katende coordenou os jovens caçadores. Mulaza orientou as armadilhas nas trilhas. Os mais novos levaram mensagens e água para os guerreiros.

Unidos, repeliram os invasores. A aldeia cantou vitória, e os filhos do soba perceberam na prática que a união era mais forte que qualquer espada.

No fim de sua vida, o velho Kafumo reuniu os dez diante da fogueira.
— Não deixem que o orgulho ou a inveja destruam os laços de sangue. Cada um de vocês é uma vara; juntos são um feixe. A aldeia depende de vossa união.

Depois dessas palavras, fechou os olhos e partiu em paz.

Os irmãos, chorando, enterraram o pai ao lado do baobá sagrado e juraram nunca mais deixar que a discórdia os dividisse. Mantiveram o feixe de varas intacto como símbolo da família.

Com o tempo, o povo de Kitala prosperou, pois os dez filhos governaram em conselho, como dedos de uma mesma mão.

 

MORAL DA HISTÓRIA

 Este conto ensina que a força verdadeira não está no indivíduo isolado, mas na união e na cooperação. Assim como as varas separadas se quebram facilmente, comunidades, famílias e povos divididos tornam-se vulneráveis a conflitos internos e a ameaças externas; unidos, tornam-se invencíveis. Inserido na tradição oral africana, a história funciona como metáfora para solidariedade, coesão social e transmissão de valores ancestrais: o feixe de varas simboliza que cada membro, com suas diferenças e habilidades, contribui para o bem comum, preservando identidade, memória e resistência cultural. 

Analiticamente, o conto reforça a importância de ensinar aos jovens que o respeito mútuo e a colaboração não são apenas virtudes morais, mas estratégias práticas de sobrevivência e prosperidade coletiva.

Moral resumida: “A força de uma comunidade está na união de seus membros; sozinho, o homem é frágil, mas junto à família e à aldeia, torna-se inquebrável.”


Sem comentários:

Enviar um comentário