Provérbio: “Mesmo o pote rachado pode levar água à aldeia.”
Havia numa
aldeia à beira do grande rio Lukunga uma jovem chamada Makena.
Seus olhos brilhavam como o reflexo do sol na água e sua voz tinha a suavidade
da marimba ao entardecer. Makena era filha de Soba N’Golo, o chefe
respeitado da aldeia, conhecido por sua justiça.
Mas a moça
guardava um segredo que a entristecia: carregava sempre água em um pote
rachado.
As outras jovens riam dela.
— Makena, por que não pedes ao teu pai um pote novo? Tu és filha do soba, podes
ter o mais bonito de todos!
Makena sorria timidamente e respondia:
— Um dia, este pote me mostrará o que vale.
Naquele tempo,
era costume que as jovens buscassem água no rio todas as manhãs. O caminho era
longo, cercado por árvores frondosas e trilhas de areia quente. As moças iam em
grupo, cantando para espantar o cansaço. Cada uma carregava o pote cheio na
cabeça, caminhando com elegância, equilibrando-se como se dançassem.
Makena, porém, sempre chegava à aldeia com o pote
apenas pela metade. A rachadura deixava escapar parte da água no caminho. Isso
fazia com que os outros a tratassem como desajeitada.
— Que vergonha para a filha do soba! — murmuravam.
— Como pode ajudar a aldeia, se nem água inteira consegue trazer?
Essas palavras
pesavam no coração da moça.
Certa manhã, após serem zombadas, uma das moças
disse em voz alta:
— Se fosse eu, quebrava logo esse pote inútil e comprava outro. Assim não
passarias vergonha.
Makena calou-se, mas lágrimas escorreram por seu
rosto. Naquela noite, sentou-se junto ao rio e falou baixinho, como se o pote
pudesse escutá-la:
— Pote, todos riem de ti. Mas eu sinto que tens algo a ensinar. Mostra-me, por
favor.
O vento soprou
entre as árvores, e Makena sentiu que deveria esperar.
Meses se
passaram. Durante esse tempo, sem que ninguém percebesse, algo começou a brotar
ao longo do caminho que Makena fazia diariamente. Onde a água escorria do pote
rachado, pequenas sementes, levadas pelo vento e pelos pássaros, começaram a
germinar.
Primeiro foram
pequenas ervas, depois flores coloridas. Em pouco tempo, o caminho que Makena
percorria transformou-se em um corredor florido, cheio de borboletas e
perfumes.
As mulheres mais velhas repararam primeiro:
— Olha só, o caminho que Makena trilha está cheio de flores!
Logo, toda a
aldeia percebeu. As crianças corriam por ali para brincar, e os jovens passavam
entre as flores para namorar.
Um dia, o soba N’Golo reuniu a aldeia na praça e
chamou a filha:
— Makena, dize-nos como fizeste nascer flores neste caminho?
A jovem, envergonhada, contou:
— Pai, não fiz nada. Apenas usei o pote rachado que todos desprezavam. A água
que se perdia molhou a terra, e a terra devolveu-nos flores.
Um silêncio
caiu sobre a multidão. Então o soba ergueu o pote diante de todos e declarou:
— Este pote, que muitos julgavam inútil, trouxe beleza e alegria à aldeia. E
minha filha nos mostrou que até as imperfeições podem servir a um propósito.
A partir desse
dia, ninguém mais riu de Makena. Pelo contrário, todos passaram a respeitar o
caminho florido como um lugar sagrado. As mulheres passavam ali para colher
flores medicinais, os anciãos iam buscar inspiração para contar histórias, e
até os caçadores descansavam entre as cores antes de partir para o mato.
Makena
continuou usando seu pote rachado, com orgulho. Tornou-se símbolo de esperança,
lembrando a todos que não se deve julgar pela aparência.
O próprio
M’Bemba, o neto do guardião do tambor Kialo, ao visitar a aldeia, disse:
— Assim como o ngoma fala com sua voz profunda, este pote fala com flores.
Anos depois, Makena casou-se e ensinou a seus
filhos:
— Não escondam suas falhas. Muitas vezes, é através delas que a vida encontra
caminhos para florescer.
E, mesmo
quando novos potes surgiram, feitos de barro polido e sem rachaduras, o povo de
Lukunga manteve o pote de Makena como lembrança. Ele ficou guardado na cabana
do soba, não como objeto de vergonha, mas como tesouro da aldeia.
MORAL DA HISTÓRIA
O conto de Makena ensina que valor e propósito não se medem pela perfeição aparente, mas pelo impacto que se deixa na comunidade. O pote rachado, símbolo das imperfeições individuais, mostra que aquilo que parece inútil pode gerar beleza, vida e transformação quando usado com paciência e dedicação. Inserido na tradição oral africana, o conto funciona como metáfora para resistência, criatividade e identidade: assim como as sementes espalhadas pela água rachada florescem, a cultura, a memória e os talentos de cada pessoa, mesmo imperfeitos, podem nutrir o coletivo e fortalecer o tecido social.
Analiticamente, a história ressalta a importância
de reconhecer e valorizar diferenças, mostrando que a verdadeira contribuição
surge quando se aceita a própria vulnerabilidade e se atua com propósito em
prol do bem comum.
Moral resumida: “Cada imperfeição pode carregar uma bênção escondida; é na fragilidade
que muitas vezes nasce a força da vida.”
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