Provérbio: “Quando o tambor fala, a aldeia escuta.”
Na aldeia de Mbanza-Ngandu,
havia um objeto sagrado que unia todos: o ngoma, um grande tambor de
madeira esculpida e couro de antílope. Não era apenas um instrumento musical —
era a voz da comunidade. Batia-se nele para anunciar nascimentos, casamentos,
colheitas, caçadas e até guerras.
O tambor era
guardado por Kialo, um ancião de voz grave e barba rala, escolhido desde
jovem para ser o “zelador do som”. Sua vida inteira tinha sido dedicada a
cuidar do ngoma: hidratava a madeira com óleos, esticava o couro quando o tempo
o afrouxava, e mais do que tudo, conhecia os toques secretos que comunicavam
mensagens à aldeia.
Para Kialo, o
tambor não era apenas madeira e couro. Ele dizia sempre:
— Este tambor tem alma. Quem o ouve, ouve também os espíritos dos nossos
antepassados.
Mas o tempo
passava, e os jovens da aldeia já não se reuniam tanto ao redor do ngoma.
Preferiam brincar à beira do rio, ou disputar corridas, ou simplesmente sonhar
com a vida nas cidades grandes, onde o barulho dos motores substituía o som do
tambor.
Seu próprio neto, M’Bemba, um rapaz
esperto, estava entre esses jovens. Ele gostava da música do tambor, mas achava
que era coisa de velho.
— Avô, para que tanto trabalho com esse tambor? Hoje temos rádios, temos música
que vem das cidades. O ngoma é lento, pesado, não serve mais para nós.
As palavras feriram o coração de Kialo. Mas ele
respondeu com calma:
— O rádio fala de longe, mas o tambor fala daqui. O rádio é voz que não conhece
teu nome, o ngoma é voz que chama pelo teu coração.
M’Bemba riu e
foi brincar.
Numa noite
silenciosa, quando a lua se escondia atrás das nuvens, ladrões vindos de fora
entraram na aldeia. Eram homens que viajavam de terra em terra, vendendo
objetos raros. Para eles, o ngoma não era sagrado — era mercadoria.
Arrancaram-no
da cabana de Kialo e desapareceram.
Na manhã
seguinte, quando o ancião percebeu o roubo, seu grito ecoou como trovão:
— Roubaram a voz da aldeia!
Sem o tambor,
a aldeia mergulhou em silêncio. Não havia como chamar reuniões, nem como
anunciar festas ou caçadas. As mulheres sentiram falta do ritmo nas danças, os
homens sentiram falta dos sinais de caça, e até as crianças ficaram inquietas.
Era como se a aldeia tivesse perdido o próprio coração.
Kialo chamou M’Bemba e disse:
— Agora entenderás o valor do tambor. Vamos buscá-lo.
O rapaz ficou surpreso.
— Eu? Ir contigo, avô?
— Sim. O ngoma
é a herança de todos, mas tu és meu sangue. Se não aprendes a defendê-lo, como
ensinarás teus filhos?
Relutante,
M’Bemba aceitou. E juntos partiram pela estrada de poeira, seguindo rastros
deixados pelos ladrões.
A viagem foi
longa. Passaram por florestas densas, onde o som dos macacos ecoava, e por
planícies abertas, onde o sol queimava como fogo. No caminho, M’Bemba
resmungava:
— Avô, não seria mais fácil comprar outro tambor?
Kialo parava, olhava firme nos olhos do neto e
respondia:
— Um ngoma pode ser feito de madeira e couro, mas este guarda a voz de nossos
antepassados. Não se compra alma no mercado.
Finalmente,
chegaram a uma feira distante, onde os ladrões tentavam vender o tambor a um
estrangeiro.
Kialo
aproximou-se, batendo o cajado no chão. Sua voz ecoou como trovão:
— Esse tambor não é mercadoria! Ele pertence ao povo de Mbanza-Ngandu.
Os ladrões riram:
— Velho, se o queres, paga.
Então Kialo
fez algo inesperado. Tomou o tambor, colocou-o diante de todos e começou a
tocar.
O som ecoou
pela feira inteira, profundo, vibrante, como se a própria terra estivesse a
falar. Os transeuntes pararam, fascinados. As crianças começaram a dançar, as
mulheres balançaram os ombros, e até os mercadores ficaram imóveis, como se um
feitiço tivesse tomado conta deles.
No meio do batuque, Kialo entoou palavras
antigas:
— Este é o coração de meu povo. Quem rouba o tambor, rouba a alma da aldeia.
Os ladrões,
envergonhados diante da multidão, recuaram. Ninguém ousou mais tocar no tambor.
Com o ngoma recuperado, Kialo e M’Bemba voltaram
à aldeia. Quando a aldeia os viu chegar, reuniram-se imediatamente. O tambor
foi colocado no centro da praça, e Kialo disse ao neto:
— Agora, toca tu.
M’Bemba
hesitou. Mas quando suas mãos bateram no couro, sentiu uma energia que nunca
havia sentido. Era como se a batida respondesse ao seu próprio coração.
Entendeu, enfim, o que o avô dizia: o tambor não era apenas som, era ligação,
era vida.
A partir desse
dia, M’Bemba tornou-se aprendiz do avô. Aprendeu cada toque: o que chamava para
a caça, o que avisava perigo, o que convidava para dançar, o que chorava pelos
mortos. Descobriu que cada batida era uma palavra, e que o tambor, de fato,
falava.
Quando Kialo
envelheceu ainda mais e já não tinha forças para bater, passou o cajado ao neto
e disse:
— Agora és tu o guardião da voz da aldeia. Que nunca se cale o ngoma.
Anos depois, quando M’Bemba já era ancião,
contava às crianças:
— Houve um tempo em que quase perdemos a voz. Mas aprendemos que o tambor não é
apenas madeira: é memória, é união, é sangue que pulsa em todos nós.
E a cada
batida do ngoma, a aldeia inteira escutava — não apenas com os ouvidos, mas com
o coração.
MORAL DA
HISTÓRIA
Este conto transmite uma lição profunda sobre identidade, memória coletiva e responsabilidade intergeracional. O tambor de Kialo simboliza a voz da comunidade, a tradição e a ligação com os ancestrais, lembrando que perder ou ignorar esses elementos é como perder o próprio coração cultural. Inserido na tradição oral africana, a narrativa funciona como metáfora para resistência e preservação da memória: cada batida é comunicação, história e ensinamento transmitido de geração em geração.
Analiticamente, o conto evidencia como a herança
cultural exige cuidado, ensino e participação ativa dos mais jovens, mostrando
que a continuidade da identidade africana depende de se ouvir, aprender e
proteger os símbolos vivos da comunidade. Assim, ensina-se que a verdadeira
riqueza de um povo não está apenas em bens materiais, mas na voz, nas histórias
e nos ritmos que mantém todos conectados.
Moral resumida: “Os bens podem ser substituídos, mas a alma de um povo nunca se compra
nem se vende.”
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