Provérbio: “Quem não sabe de onde vem, não saberá para onde vai.”
Na aldeia de Luwawa, cercada de montanhas azuladas ao longe e campos
de capim dourado, vivia uma mulher que todos respeitavam e amavam: a velha N’Kenza.
Seus cabelos, já brancos como a lua cheia, eram trançados com calma pelas
netas; suas mãos, enrugadas e firmes, ainda batiam pilão com graça; e seus
olhos, profundos como o rio depois da chuva, guardavam histórias de muitas
gerações.
N’Kenza não
tinha riquezas de ouro nem terras vastas. Seu maior tesouro era um cesto de
vime, antigo e resistente, que ela mesma herdara da mãe, e esta da avó, e
assim por diante, como corrente que não se quebra. Dentro desse cesto, N’Kenza
guardava pequenas coisas: pedaços de pano colorido, sementes antigas, pedras
lisas do rio, colares partidos, conchas do mar, até cartas e objetos de
parentes que tinham partido.
À primeira
vista, parecia apenas um cesto cheio de tralhas. Mas para ela, cada objeto era
uma chave de memória, um portal para as histórias do povo.
Certa noite,
reunidos à volta da fogueira, N’Kenza chamou seus netos: Kalunga, o mais
curioso; Sefu, o brincalhão; Amara, a sonhadora; e Lemba,
o mais novo, que mal largava o arco de brinquedo.
— Meus filhos,
hoje quero mostrar-vos algo importante.
Ela abriu o
cesto com cuidado, como quem abre um cofre. Tirou uma pedra negra, polida como
espelho.
— Esta pedra
vem do rio onde os guerreiros antigos lavavam suas lanças depois da batalha.
Ela lembra-nos de que a coragem não está em matar, mas em proteger.
Os netos olharam, mas Sefu resmungou:
— Avó, para quê guardar pedra velha? Isso não enche barriga.
Kalunga coçou a cabeça, meio curioso:
— Mas é verdade mesmo, avó, ou é só história?
Amara sorriu, tentando imaginar:
— Eu gosto de pensar que cada objeto fala, mesmo que baixinho.
Lemba,
distraído, continuava a brincar, sem dar importância.
N’Kenza
suspirou. Sentia que as novas gerações já não tinham paciência para escutar
histórias, já não viam valor na memória.
Pouco tempo
depois, uma grande seca assolou Luwawa. O rio secou até virar trilha de areia,
os poços minguaram, e as plantações se perderam. Os jovens da aldeia
murmuravam:
— O que
faremos? Como sobreviveremos?
Alguns queriam abandonar o lugar e procurar novas
terras. Outros brigavam por restos de água. Mas N’Kenza, serena, disse:
— O passado sempre ensina o futuro. O cesto guarda a resposta.
Os netos
riram, pensando que a avó falava como sempre, com enigmas.
Naquela noite,
N’Kenza chamou apenas seus netos e abriu o cesto novamente. De dentro, tirou um
punhado de sementes pequenas e escuras.
— Estas
sementes foram guardadas por minha avó durante outra seca. Elas crescem rápido,
mesmo com pouca água.
Os netos arregalaram os olhos.
— Por que nunca contou isso antes? — perguntou Kalunga.
— Porque a
memória não serve a quem não quer ouvir — respondeu ela calmamente. — Agora que
a aldeia precisa, é hora de plantar.
No dia seguinte, N’Kenza distribuiu tarefas.
— Kalunga, cava pequenos buracos na terra.
— Sefu, busca água do poço, pouca, mas suficiente.
— Amara, cobre as sementes com carinho.
— Lemba, protege a plantação das cabras e pássaros.
Os netos
obedeceram, pela primeira vez sem reclamar. Trabalharam sob o sol, e ao final,
pequenas covas estavam cheias de esperança.
Dias depois,
os brotos verdes romperam a terra seca. Cresciam rápido, como se respondessem à
fé da avó. Em poucas semanas, já havia folhas tenras, frutos pequenos, alimento
para a família.
Os vizinhos, surpresos, foram perguntar:
— N’Kenza, como conseguiste plantar em terra seca?
Ela levantou o cesto diante de todos e disse:
— Porque guardei as sementes de nossos antepassados. Quando todos só viam pedra
velha e coisas sem valor, eu via o futuro escondido no passado.
A aldeia
inteira aprendeu. Passaram a guardar sementes, histórias e memórias. Cada
família começou a ter o seu próprio “cesto da memória”, não só para tempos de
fome, mas para não perder a ligação com os que vieram antes.
Os anos
passaram. N’Kenza envelheceu ainda mais, até que sua voz já era quase um
sussurro. Antes de partir para junto dos ancestrais, chamou seus netos e
entregou-lhes o cesto.
— Este cesto
não é meu. Ele pertence a todos vocês. Guardem nele não apenas objetos, mas
lembranças, histórias, ensinamentos. Porque um povo que esquece quem é perde-se
no caminho.
Kalunga, Sefu,
Amara e Lemba abraçaram a avó. Prometeram nunca deixar o cesto vazio, nunca
abandonar as memórias.
E assim, mesmo
depois que N’Kenza partiu, sua presença vivia em cada pedra, cada semente, cada
conto contado ao redor do fogo.
Muitos anos
depois, quando a aldeia de Luwawa já tinha crescido e se tornado vila próspera,
viajantes vinham de longe para ouvir os descendentes de N’Kenza contar
histórias. O cesto ainda estava lá, cheio de objetos simples, mas cada um
carregava um mundo inteiro.
E os netos, já adultos, diziam sempre:
— Não é o objeto que tem valor, mas a memória que ele carrega.
MORAL DA HISTÓRIA
Este conto ensina que a memória, o respeito às histórias do passado e a preservação das tradições são fundamentais para enfrentar desafios contemporâneos, sejam sociais, ambientais ou culturais. N’Kenza e seu cesto simbolizam a sabedoria ancestral transmitida de geração em geração, mostrando que o conhecimento histórico e a experiência coletiva são recursos essenciais para a sobrevivência e a resiliência de uma comunidade.
Inserido na tradição oral africana, o conto
funciona como metáfora para resistência e identidade: cada objeto no cesto
representa memórias e saberes que fortalecem a ligação entre o povo e sua
terra, entre passado e futuro. Em tempos de seca, escassez ou crise, essa
narrativa lembra que a capacidade de olhar para trás, aprender e preservar a
herança cultural garante que as gerações atuais possam avançar com segurança,
responsabilidade e senso de pertencimento, reforçando a importância da memória
como alicerce da identidade africana. “O passado é raiz que alimenta o
presente e dá sombra ao futuro.”
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