Provérbio: “Uma mão sozinha não consegue amarrar um fardo.”
No coração de
uma aldeia chamada Mbulo, onde o cheiro da terra molhada se misturava ao
canto dos pássaros e o vento dançava por entre os milheirais, vivia uma família
humilde, mas cheia de vida. O velho M’Baku, homem de mãos calejadas e
costas curvadas pelo tempo, tinha três filhos: Kiala, o mais velho, de
espírito valente; Mauzo, o do meio, conhecido por sua esperteza; e Tandeka,
a caçula, moça de coração generoso e sorriso que iluminava até os dias de seca.
Eles possuíam
três cabras que eram o orgulho da família. As cabras chamavam-se N’golo,
de pelo branco e olhar manso; Samba, de chifres retorcidos e
temperamento brincalhão; e Konde, preta como a noite sem lua, mas
esperta como um caçador.
Essas cabras
não eram apenas animais. Eram sustento e companhia. Com seu leite, a família
preparava mingau doce, vendia queijo no mercado e trocava por sal e óleo.
Aquele ano
trouxe uma colheita difícil. As chuvas chegaram tarde e as plantas cresceram
fracas. O milho era pouco, as abóboras miúdas e até as mandiocas não engordaram
como de costume. O velho M’Baku, cansado, chamou os filhos e disse:
— Meus filhos,
a terra deu pouco este ano. Mas se trabalharmos juntos, poderemos atravessar o
tempo da fome. As cabras também precisam ser cuidadas, pois sem elas,
perderemos nossa segurança.
Kiala, o mais velho, encheu o peito e respondeu:
— Pai, deixa comigo. Eu sou forte e cuidarei de tudo sozinho.
Mauzo riu com ironia:
— Sempre quer mostrar que é o mais valente. Mas força sem esperteza não enche
celeiro.
Tandeka, serena, apenas murmurou:
— Se cada um fizer a sua parte, o peso será leve.
Mas os irmãos
não escutaram.
No dia
seguinte, Kiala foi ao campo para carpir a roça. Levava apenas sua enxada e o
orgulho no coração. O sol queimava alto, o chão estava duro, e logo seus braços
fortes começaram a fraquejar. O suor escorria como rio, e ao meio-dia ele
estava exausto. Voltou para casa com pouco trabalho feito.
Enquanto isso,
Mauzo decidiu cuidar das cabras. Levou N’golo, Samba e Konde ao pasto, mas em
vez de vigiar atentamente, deitou-se à sombra de uma árvore para cochilar. As
cabras, astutas, escaparam e entraram nos campos dos vizinhos, destruindo
abóboras e arrancando folhas de feijão. Quando Mauzo acordou, já era tarde:
teve de pagar com parte do pouco milho da família para compensar o prejuízo.
Tandeka, por
sua vez, foi ao rio buscar água. Carregou na cabeça a cabaça pesada, voltou
cantando e, em casa, preparou mingau para todos. Não se vangloriou, apenas
cumpriu sua parte com dedicação.
À noite,
reunidos em volta da fogueira, o velho M’Baku escutou os relatos. Kiala falhou
por excesso de orgulho, Mauzo por preguiça e descuido. Tandeka, embora
silenciosa, foi a única que cumpriu o dever.
— Meus filhos
— disse o pai, com voz grave —, a colheita é pouca, e se cada um pensar só em
si, a fome nos devora. Não são músculos nem esperteza sozinhos que sustentam
uma família, mas a união.
Mas os irmãos,
ainda cheios de vaidade, não aprenderam.
Algumas
semanas depois, uma seca repentina assolou Mbulo. O rio baixou, o capim secou,
e as cabras começaram a definhar. Sem pasto, N’golo emagreceu, Samba ficou
doente, e Konde quase não produzia leite.
Desesperados,
os irmãos perceberam que perderiam as cabras — e com elas, o futuro.
Foi então que Tandeka teve uma ideia:
— Se cada um de nós cuidar de uma parte, poderemos salvar nossas cabras. Kiala
buscará folhas frescas na mata, Mauzo trará água de longe, e eu cuidarei do
abrigo delas.
No início, os
irmãos torceram o nariz. Mas a fome apertava, e o medo de perder tudo os fez
concordar.
No dia
seguinte, Kiala partiu cedo para o bosque distante, cortando galhos de árvores
verdes. Voltou com um feixe pesado nas costas, mas pela primeira vez não
reclamou.
Mauzo, com sua
esperteza, encontrou uma nascente escondida entre as pedras e encheu cabaças de
água fresca.
Tandeka, em
casa, reforçou a palhota onde as cabras dormiam, protegendo-as do frio da
noite.
Os três
trabalharam juntos como nunca. Dia após dia, repetiram a rotina. Aos poucos,
N’golo recuperou o brilho nos olhos, Samba voltou a saltitar, e Konde, a
esperta, começou a dar leite novamente.
Quando as
chuvas finalmente regressaram, o milharal voltou a crescer. O povo de Mbulo se
surpreendeu ao ver que, apesar da seca, a família de M’Baku tinha mantido suas
cabras vivas e fortes.
Na festa da colheita, enquanto os tambores
ecoavam e o povo dançava, o velho M’Baku levantou-se diante de todos e disse:
— Aprendi com meus filhos que uma família só sobrevive quando cada um contribui
com o que pode. Sozinhos, eles falharam. Juntos, salvaram não apenas as cabras,
mas a nós mesmos.
Os três irmãos
sorriram, desta vez sem disputas. A lição estava gravada em seus corações.
Anos depois,
quando o velho M’Baku partiu para junto dos ancestrais, foram as cabras que
sustentaram os filhos na nova fase da vida. Kiala usou sua força para abrir
novas roças, Mauzo negociava no mercado com sabedoria, e Tandeka mantinha a
harmonia da casa.
E em cada
refeição, em cada queijo vendido, lembravam-se de que a verdadeira riqueza não
estava nos animais ou nas colheitas, mas na união que aprenderam a cultivar.
MORAL DA HISTÓRIA
A narrativa evidencia que, para enfrentar crises contemporâneas — como insegurança alimentar, desafios econômicos ou mudanças ambientais — a união e o comprometimento com o bem comum são tão essenciais quanto a coragem ou a esperteza individuais, reforçando valores de solidariedade, responsabilidade e cooperação que atravessam gerações.
Sem comentários:
Enviar um comentário