NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

11 - AS TRÊS CABRAS E A COLHEITA

 

Provérbio: “Uma mão sozinha não consegue amarrar um fardo.”


No coração de uma aldeia chamada Mbulo, onde o cheiro da terra molhada se misturava ao canto dos pássaros e o vento dançava por entre os milheirais, vivia uma família humilde, mas cheia de vida. O velho M’Baku, homem de mãos calejadas e costas curvadas pelo tempo, tinha três filhos: Kiala, o mais velho, de espírito valente; Mauzo, o do meio, conhecido por sua esperteza; e Tandeka, a caçula, moça de coração generoso e sorriso que iluminava até os dias de seca.

Eles possuíam três cabras que eram o orgulho da família. As cabras chamavam-se N’golo, de pelo branco e olhar manso; Samba, de chifres retorcidos e temperamento brincalhão; e Konde, preta como a noite sem lua, mas esperta como um caçador.

Essas cabras não eram apenas animais. Eram sustento e companhia. Com seu leite, a família preparava mingau doce, vendia queijo no mercado e trocava por sal e óleo.

Aquele ano trouxe uma colheita difícil. As chuvas chegaram tarde e as plantas cresceram fracas. O milho era pouco, as abóboras miúdas e até as mandiocas não engordaram como de costume. O velho M’Baku, cansado, chamou os filhos e disse:

— Meus filhos, a terra deu pouco este ano. Mas se trabalharmos juntos, poderemos atravessar o tempo da fome. As cabras também precisam ser cuidadas, pois sem elas, perderemos nossa segurança.

Kiala, o mais velho, encheu o peito e respondeu:
— Pai, deixa comigo. Eu sou forte e cuidarei de tudo sozinho.

Mauzo riu com ironia:
— Sempre quer mostrar que é o mais valente. Mas força sem esperteza não enche celeiro.

Tandeka, serena, apenas murmurou:
— Se cada um fizer a sua parte, o peso será leve.

Mas os irmãos não escutaram.

No dia seguinte, Kiala foi ao campo para carpir a roça. Levava apenas sua enxada e o orgulho no coração. O sol queimava alto, o chão estava duro, e logo seus braços fortes começaram a fraquejar. O suor escorria como rio, e ao meio-dia ele estava exausto. Voltou para casa com pouco trabalho feito.

Enquanto isso, Mauzo decidiu cuidar das cabras. Levou N’golo, Samba e Konde ao pasto, mas em vez de vigiar atentamente, deitou-se à sombra de uma árvore para cochilar. As cabras, astutas, escaparam e entraram nos campos dos vizinhos, destruindo abóboras e arrancando folhas de feijão. Quando Mauzo acordou, já era tarde: teve de pagar com parte do pouco milho da família para compensar o prejuízo.

Tandeka, por sua vez, foi ao rio buscar água. Carregou na cabeça a cabaça pesada, voltou cantando e, em casa, preparou mingau para todos. Não se vangloriou, apenas cumpriu sua parte com dedicação.

À noite, reunidos em volta da fogueira, o velho M’Baku escutou os relatos. Kiala falhou por excesso de orgulho, Mauzo por preguiça e descuido. Tandeka, embora silenciosa, foi a única que cumpriu o dever.

— Meus filhos — disse o pai, com voz grave —, a colheita é pouca, e se cada um pensar só em si, a fome nos devora. Não são músculos nem esperteza sozinhos que sustentam uma família, mas a união.

Mas os irmãos, ainda cheios de vaidade, não aprenderam.

Algumas semanas depois, uma seca repentina assolou Mbulo. O rio baixou, o capim secou, e as cabras começaram a definhar. Sem pasto, N’golo emagreceu, Samba ficou doente, e Konde quase não produzia leite.

Desesperados, os irmãos perceberam que perderiam as cabras — e com elas, o futuro.

Foi então que Tandeka teve uma ideia:
— Se cada um de nós cuidar de uma parte, poderemos salvar nossas cabras. Kiala buscará folhas frescas na mata, Mauzo trará água de longe, e eu cuidarei do abrigo delas.

No início, os irmãos torceram o nariz. Mas a fome apertava, e o medo de perder tudo os fez concordar.

No dia seguinte, Kiala partiu cedo para o bosque distante, cortando galhos de árvores verdes. Voltou com um feixe pesado nas costas, mas pela primeira vez não reclamou.

Mauzo, com sua esperteza, encontrou uma nascente escondida entre as pedras e encheu cabaças de água fresca.

Tandeka, em casa, reforçou a palhota onde as cabras dormiam, protegendo-as do frio da noite.

Os três trabalharam juntos como nunca. Dia após dia, repetiram a rotina. Aos poucos, N’golo recuperou o brilho nos olhos, Samba voltou a saltitar, e Konde, a esperta, começou a dar leite novamente.

Quando as chuvas finalmente regressaram, o milharal voltou a crescer. O povo de Mbulo se surpreendeu ao ver que, apesar da seca, a família de M’Baku tinha mantido suas cabras vivas e fortes.

Na festa da colheita, enquanto os tambores ecoavam e o povo dançava, o velho M’Baku levantou-se diante de todos e disse:
— Aprendi com meus filhos que uma família só sobrevive quando cada um contribui com o que pode. Sozinhos, eles falharam. Juntos, salvaram não apenas as cabras, mas a nós mesmos.

Os três irmãos sorriram, desta vez sem disputas. A lição estava gravada em seus corações.

Anos depois, quando o velho M’Baku partiu para junto dos ancestrais, foram as cabras que sustentaram os filhos na nova fase da vida. Kiala usou sua força para abrir novas roças, Mauzo negociava no mercado com sabedoria, e Tandeka mantinha a harmonia da casa.

E em cada refeição, em cada queijo vendido, lembravam-se de que a verdadeira riqueza não estava nos animais ou nas colheitas, mas na união que aprenderam a cultivar.

 

MORAL DA HISTÓRIA

 Este conto ensina aos jovens e adultos africanos de hoje que a força individual, a astúcia ou a coragem isoladas não garantem sobrevivência nem sucesso; apenas a colaboração, o cuidado mútuo e o trabalho coletivo permitem superar dificuldades, especialmente em contextos de escassez e desafios naturais. Inserido na tradição oral africana, ele funciona como metáfora da vida comunitária: as cabras e a colheita simbolizam recursos vitais e a interdependência, mostrando que a memória, a identidade e a resistência de um povo se fortalecem quando cada membro cumpre seu papel. 

A narrativa evidencia que, para enfrentar crises contemporâneas — como insegurança alimentar, desafios econômicos ou mudanças ambientais — a união e o comprometimento com o bem comum são tão essenciais quanto a coragem ou a esperteza individuais, reforçando valores de solidariedade, responsabilidade e cooperação que atravessam gerações.

 


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