NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

10 - 👑 A COROA DE FERRO

 

Provérbio: “O ouro brilha, mas é o ferro que sustenta a casa.”


Nos vastos territórios de Lunda-Sul, reinava o velho soberano Rei Mutombo, homem sábio, mas já cansado pelos anos. Seus cabelos estavam tão brancos quanto as cinzas de um fogo apagado, e seus passos lentos lembravam o ritmo de um tambor quase no fim da festa.

Mutombo sabia que sua vida estava próxima do pôr do sol. Por isso, precisava escolher quem herdaria o trono. Tinha dois filhos principais:

  • Kiala, o mais velho, valente guerreiro, conhecido por sua força em batalha, mas também por sua ambição desmedida.
  • Lemba, o mais novo, mais calmo e paciente, dedicado à escuta do povo e ao cuidado das colheitas.

A tradição mandava que o trono fosse para o primogênito, mas o rei, temendo pelo futuro de seu povo, decidiu pôr seus filhos à prova.

Reuniu a corte e anunciou:
— Meus filhos, o trono não será dado a quem simplesmente nasceu primeiro, mas àquele que provar ser digno de sustentar o povo. Para isso, deixo-vos esta coroa — e ergueu uma coroa de ferro, pesada e simples, feita pelos ferreiros da aldeia.

— Cada um deverá carregar esta coroa por um ciclo da lua e mostrar-me o que fará com ela. No fim, o povo decidirá.

Kiala recebeu a coroa primeiro. Segurou-a com orgulho, mas sua mente já maquinava como usá-la para impressionar.
Lemba, silencioso, apenas observou o peso daquele objeto rude e sem brilho, mas que carregava a promessa de poder.

Kiala partiu em direção às terras de caça, onde reuniu guerreiros e caçadores. Ordenou-lhes que fizessem grandes festas em sua homenagem. Mandou que adornassem a coroa com pedaços de ouro roubados de mercadores e com penas coloridas das aves da floresta.

Nas aldeias por onde passava, mostrava-se com a coroa brilhante e gritava:
— Eis o futuro rei! Quem me seguirá terá riqueza e glória!

O povo aplaudia, mas murmurava entre si: “Será que esse brilho comprará nossa fome? Será que essas penas curarão nossas feridas?”

Mas Kiala não escutava. Para ele, governar era ser visto, temido e celebrado.

Enquanto isso, Lemba tomou a coroa e caminhou em silêncio pelas aldeias mais pobres do reino.

Sentou-se com os anciãos à beira da fogueira, ouviu histórias de secas e de colheitas perdidas. Conversou com as mulheres que reclamavam da falta de água limpa. Brincou com as crianças que lhe pediam comida.

Certa noite, encontrou um velho ferreiro chamado Ngandu, que lhe disse:
— Príncipe, esta coroa de ferro foi forjada não para enfeitar, mas para lembrar que o poder pesa. O ferro pode enferrujar se não for cuidado, e pode quebrar se for mal usado.

Inspirado, Lemba pediu ao ferreiro que lhe ensinasse a moldar o ferro. Durante noites inteiras, trabalhou no fogo da forja, suando, martelando, aprendendo a transformar o metal bruto em enxadas, facões e lanças.

Ao final do ciclo da lua, havia transformado parte da coroa em ferramentas que distribuiu ao povo para lavrar a terra. Guardou apenas um aro simples de ferro, sem adornos, que ainda lembrava a coroa original.

Passado o tempo, o rei convocou toda a corte, os anciãos e o povo à grande praça.

Kiala foi o primeiro a se apresentar. Surgiu montado num cavalo enfeitado, com a coroa brilhante de ouro e penas. O povo, impressionado pelo espetáculo, bateu palmas, mas muitos desviavam os olhos, incomodados com a ostentação.

— Pai, eis a coroa! Transformei-a em símbolo de glória. Vê como todos me celebram! — disse Kiala.

Em seguida, chegou Lemba. Vestia-se de forma simples, com pó da estrada ainda nos pés. Carregava o aro de ferro nu em sua cabeça. Atrás dele, vinham camponeses sorrindo, exibindo enxadas novas, lanças afiadas, facões reluzentes.

— Pai, eis a coroa! Transformei-a em serviço. Não brilha, mas sustentará o povo na colheita e na defesa.

O silêncio tomou conta da praça. O rei olhou para ambos os filhos, e depois para o povo. Então, ergueu a voz:
— A coroa não é para quem deseja ser servido, mas para quem deseja servir!

O povo explodiu em aplausos, clamando o nome de Lemba.

Kiala, furioso, tentou argumentar:
— Mas sou o primogênito! O trono é meu por direito!

O rei Mutombo respondeu com firmeza:
— O sangue pode dar-te o direito de nascer, mas não o direito de governar. Esse só o coração conquista.

Derrotado, Kiala deixou a praça e, consumido pelo orgulho, jurou nunca aceitar aquela decisão.

Lemba, emocionado, ajoelhou-se diante do pai, que colocou sobre sua cabeça o aro simples de ferro.

— Este ferro pode não ter brilho, mas carrega a força de mil braços. Governarás não com vaidade, mas com humildade.

Assim começou o reinado de Rei Lemba, lembrado por gerações como aquele que trocou a vaidade pelo serviço.

Com as ferramentas forjadas da coroa, os campos floresceram. As aldeias tiveram fartura, e o reino prosperou. O povo passou a repetir entre si:

“Melhor uma coroa de ferro que alimenta, do que uma coroa de ouro que apenas brilha.”

Kiala, por sua vez, afastou-se para terras distantes, onde viveu como guerreiro sem reino, sempre sonhando com um trono que nunca seria seu.

 

MORAL DA HISTÓRIA

Este conto lembra aos jovens e adultos africanos de hoje que governar — seja um país, uma família ou até a si mesmo — não é ostentar títulos nem acumular riqueza, mas carregar o peso do ferro: servir, sustentar e proteger os outros com humildade e responsabilidade. Em tempos em que muitos líderes se deixam seduzir pelo ouro do poder rápido, pela política de espetáculo e pela ilusão do brilho fácil, a história de Lemba mostra que só o trabalho paciente e o compromisso com o povo geram frutos duradouros. Inserido na tradição oral africana, este relato funciona como metáfora de resistência, porque contrapõe a vaidade destrutiva ao serviço coletivo; como memória, porque recorda que os ancestrais sempre valorizaram mais o sustento do que o luxo; e como identidade, porque reafirma o poder da palavra, do provérbio e da narrativa como guias éticos para enfrentar as tentações e desafios da vida africana contemporânea.

Portanto, a verdadeira liderança não se mede pelo brilho que ostenta, mas pelo peso que suporta e pelo serviço que oferece ao povo.


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