Provérbio: “A montanha não corre, mas nela o tempo aprende a caminhar.”
No coração da
savana de Kandulo, erguia-se a montanha de N’Tumbi. Não era a
mais alta do mundo, mas para o povo Kimbu, ela era sagrada. Seus pés
guardavam cavernas antigas; suas encostas eram cobertas de árvores de
imbondeiro, e no topo, quando o sol nascia, a luz dourava as pedras como se
fossem brasas.
Os anciãos diziam:
— Quem sobe N’Tumbi não volta o mesmo. Lá mora a paciência da terra e a força
dos ancestrais.
Mas os jovens
da aldeia, impacientes e sedentos por conquistas rápidas, já não acreditavam.
Entre eles estava Kiala, uma rapariga de espírito inquieto.
Kiala tinha
apenas 16 anos, mas sonhava ser lembrada. Não queria apenas colher milho ou
dançar nas festas; queria ser reconhecida como a mais corajosa.
— Se eu subir
N’Tumbi sozinha e trazer uma pedra do topo, todos verão que não sou como os
outros — dizia.
Sua avó, Mama Lueji, balançava a cabeça:
— Minha filha, a montanha não se conquista com pressa. N’Tumbi só fala com quem
sabe esperar.
Mas Kiala,
orgulhosa, ignorava os conselhos.
Certa
madrugada, antes do sol nascer, Kiala partiu. Levava apenas um cântaro de água
e um saco pequeno de fubá.
No início, a
subida parecia fácil. As pedras eram firmes, os arbustos davam sombra, e ela
sentia-se forte. Cantava para si mesma, certa de que chegaria antes do
meio-dia.
Mas logo o
caminho tornou-se íngreme. Espinhos rasgaram sua pele, a água acabou depressa,
e o sol ardia sobre sua cabeça.
Ao meio do
dia, exausta, sentou-se numa pedra e chorou. Adormeceu e sonhou com a montanha.
N’Tumbi apareceu-lhe como uma mulher imensa, feita de pedra e musgo, que lhe
disse:
— A pressa é
inimiga da altura. Volta quando aprenderes a caminhar com calma.
Kiala acordou
assustada e desceu, envergonhada.
Na aldeia,
ninguém zombou dela. Pelo contrário, os anciãos reuniram-se ao seu redor. O
mais velho, Tata Kafuxi, falou:
— Filha, tu
quiseste vencer a montanha como quem corre atrás de cabrito. Mas N’Tumbi não
foge. Ela fica, firme, esperando. Aprende primeiro a vencer a ti mesma, e
depois vencerás a subida.
Kiala ouviu,
mas dentro de si ainda ardia a vontade de provar sua coragem.
Duas luas
depois, Kiala tentou de novo. Desta vez, levou mais água, pediu bênção aos
anciãos e partiu com humildade.
Ao subir, não
correu. Parava para descansar, ouvia os pássaros, tocava nas pedras como se
fossem pele viva.
No segundo
dia, encontrou um velho pastor chamado N’Golo, que guardava cabras nas
encostas. Ele riu ao vê-la ofegante:
— Menina,
N’Tumbi não gosta de quem a enfrenta com pressa. Anda devagar, respira com ela,
e chegarás.
Kiala
agradeceu e seguiu o conselho.
No terceiro
dia, chegou ao topo. Ali, o vento soprava forte, e o céu parecia tocar a terra.
Sentou-se e chorou de alegria. Sentiu que a montanha não era um obstáculo, mas
um mestre.
Pegou uma
pequena pedra, não como troféu, mas como lembrança.
Quando voltou
à aldeia, o povo reuniu-se. Esperavam que viesse cheia de orgulho, mas Kiala
ajoelhou-se diante dos anciãos e disse:
— Eu não
conquistei N’Tumbi. Ela é que me ensinou a ser paciente. A montanha não precisa
de mim, mas eu precisei dela.
Mama Lueji sorriu e respondeu:
— Agora sim, minha neta. A montanha deu-te o que nenhum troféu dá: sabedoria.
Desde então,
Kiala tornou-se guia para outros jovens que queriam subir N’Tumbi. Não os
apressava, mas ensinava-os a escutar o vento, a esperar o nascer do sol, a
respeitar cada pedra.
E até hoje, os
Kimbu contam que quem sobe N’Tumbi não traz apenas pedras, mas traz um coração
mais leve e uma mente mais firme.
A montanha
permanece onde sempre esteve, silenciosa, paciente, eterna. Mas todos que a
enfrentam descobrem que o verdadeiro desafio não é chegar ao topo, e sim
aprender a caminhar no ritmo da vida.
MORAL DA HISTÓRIA
Moral resumida: “Quem respeita o tempo, descobre que cada passo lento é também um passo
firme.”
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