NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

21 - A MONTANHA SAGRADA DE N’TUMBI

 

Provérbio: “A montanha não corre, mas nela o tempo aprende a caminhar.”


No coração da savana de Kandulo, erguia-se a montanha de N’Tumbi. Não era a mais alta do mundo, mas para o povo Kimbu, ela era sagrada. Seus pés guardavam cavernas antigas; suas encostas eram cobertas de árvores de imbondeiro, e no topo, quando o sol nascia, a luz dourava as pedras como se fossem brasas.

Os anciãos diziam:
— Quem sobe N’Tumbi não volta o mesmo. Lá mora a paciência da terra e a força dos ancestrais.

Mas os jovens da aldeia, impacientes e sedentos por conquistas rápidas, já não acreditavam. Entre eles estava Kiala, uma rapariga de espírito inquieto.

Kiala tinha apenas 16 anos, mas sonhava ser lembrada. Não queria apenas colher milho ou dançar nas festas; queria ser reconhecida como a mais corajosa.

— Se eu subir N’Tumbi sozinha e trazer uma pedra do topo, todos verão que não sou como os outros — dizia.

Sua avó, Mama Lueji, balançava a cabeça:
— Minha filha, a montanha não se conquista com pressa. N’Tumbi só fala com quem sabe esperar.

Mas Kiala, orgulhosa, ignorava os conselhos.

Certa madrugada, antes do sol nascer, Kiala partiu. Levava apenas um cântaro de água e um saco pequeno de fubá.

No início, a subida parecia fácil. As pedras eram firmes, os arbustos davam sombra, e ela sentia-se forte. Cantava para si mesma, certa de que chegaria antes do meio-dia.

Mas logo o caminho tornou-se íngreme. Espinhos rasgaram sua pele, a água acabou depressa, e o sol ardia sobre sua cabeça.

Ao meio do dia, exausta, sentou-se numa pedra e chorou. Adormeceu e sonhou com a montanha. N’Tumbi apareceu-lhe como uma mulher imensa, feita de pedra e musgo, que lhe disse:

— A pressa é inimiga da altura. Volta quando aprenderes a caminhar com calma.

Kiala acordou assustada e desceu, envergonhada.

Na aldeia, ninguém zombou dela. Pelo contrário, os anciãos reuniram-se ao seu redor. O mais velho, Tata Kafuxi, falou:

— Filha, tu quiseste vencer a montanha como quem corre atrás de cabrito. Mas N’Tumbi não foge. Ela fica, firme, esperando. Aprende primeiro a vencer a ti mesma, e depois vencerás a subida.

Kiala ouviu, mas dentro de si ainda ardia a vontade de provar sua coragem.

Duas luas depois, Kiala tentou de novo. Desta vez, levou mais água, pediu bênção aos anciãos e partiu com humildade.

Ao subir, não correu. Parava para descansar, ouvia os pássaros, tocava nas pedras como se fossem pele viva.

No segundo dia, encontrou um velho pastor chamado N’Golo, que guardava cabras nas encostas. Ele riu ao vê-la ofegante:

— Menina, N’Tumbi não gosta de quem a enfrenta com pressa. Anda devagar, respira com ela, e chegarás.

Kiala agradeceu e seguiu o conselho.

No terceiro dia, chegou ao topo. Ali, o vento soprava forte, e o céu parecia tocar a terra. Sentou-se e chorou de alegria. Sentiu que a montanha não era um obstáculo, mas um mestre.

Pegou uma pequena pedra, não como troféu, mas como lembrança.

Quando voltou à aldeia, o povo reuniu-se. Esperavam que viesse cheia de orgulho, mas Kiala ajoelhou-se diante dos anciãos e disse:

— Eu não conquistei N’Tumbi. Ela é que me ensinou a ser paciente. A montanha não precisa de mim, mas eu precisei dela.

Mama Lueji sorriu e respondeu:
— Agora sim, minha neta. A montanha deu-te o que nenhum troféu dá: sabedoria.

Desde então, Kiala tornou-se guia para outros jovens que queriam subir N’Tumbi. Não os apressava, mas ensinava-os a escutar o vento, a esperar o nascer do sol, a respeitar cada pedra.

E até hoje, os Kimbu contam que quem sobe N’Tumbi não traz apenas pedras, mas traz um coração mais leve e uma mente mais firme.

A montanha permanece onde sempre esteve, silenciosa, paciente, eterna. Mas todos que a enfrentam descobrem que o verdadeiro desafio não é chegar ao topo, e sim aprender a caminhar no ritmo da vida.


MORAL DA HISTÓRIA

 A história de Kiala e da montanha sagrada N’Tumbi ensina que a verdadeira coragem e sabedoria não se medem pela rapidez ou pelo orgulho, mas pela paciência, humildade e respeito pelo caminho. No contexto africano, onde os ancestrais, a natureza e a tradição guiam a vida, o conto mostra que cada passo, cada pausa e cada escuta atenta são oportunidades de aprender com a terra e com os mais velhos. Conquistar o topo não significa dominar a montanha, mas compreender o ritmo da vida, honrar os ensinamentos da comunidade e transformar o próprio coração, mostrando que a força verdadeira nasce da harmonia entre o homem, a natureza e os saberes ancestrais.

Moral resumida: “Quem respeita o tempo, descobre que cada passo lento é também um passo firme.”


 

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