O Gato e o Rato tornaram-se amigos. Um dia combinaram fazer uma viagem a uma terra distante. Pelo caminho tinham de atravessar um rio.
—Por onde passaremos? — perguntou o Gato — O rio leva muita água. O Rato respondeu:
—Não faz mal. Fazemos um barco.
O Gato concordou e logo ali os dois colheram uma grande raiz de mandioca e fizeram um barco com ela. Meteram o barco na água, entraram para ele e começaram a atravessar o rio. Pelo caminho começaram a ter fome e repararam que não tinham levado comida. O Gato perguntou então:
—O que é que nós havemos de comer?
—Não te preocupes, amigo Gato, porque podemos comer o nosso próprio barco.
E os dois começaram a comer o barco. O Gato pouco comeu porque a mandioca não lhe sabia bem, mas o Rato comeu, comeu, comeu até que acabou por furar o barco, que foi ao fundo. O Gato e o Rato tiveram que nadar até à margem, mas, enquanto o Rato nadava bem e depressa, o Gato que mal sabia nadar, só com muita dificuldade e muito envergonhado é que conseguiu chegar a terra. O Gato olhou então para o Rato e viu que ele estava com a barriga bem cheia por causa da mandioca, enquanto ele continuava cheio de fome. Por isso lembrou-se de comer o Rato.
—Sinto muita fome, Rato. Vou ter de te comer.
—Está bem — disse o Rato espertalhão — mas olha que eu estou muito sujo. É melhor ir primeiro lavar-me. Espera aí.
O Rato afastou-se e desapareceu. O Gato ainda hoje está à espera.
Fonte: Contos Moçambicanos: INLD, 1979
Este conto, “O Gato e o Rato”, é de origem angolana, conforme registrado na coletânea Contos Moçambicanos (INLD, 1979). Ele pertence ao ciclo de fábulas africanas, usando animais antropomorfizados para ensinar lições sobre esperteza, prudência e sobrevivência. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
A astúcia supera a força.
O Rato, menor e aparentemente mais frágil, conseguiu enganar o Gato usando inteligência e truques simples. A história ensina que mesmo os menores ou aparentemente insignificantes podem encontrar soluções engenhosas.
Nas culturas africanas, a esperteza é valorizada como ferramenta de sobrevivência, especialmente quando o indivíduo é mais fraco fisicamente.
O Rato antecipou o perigo de ser comido e se afastou astutamente. Isso reflete o princípio de pensar antes de agir e proteger a própria vida com prudência.
Ao transformar a raiz de mandioca em barco e depois “comê-lo” quando tiveram fome, os personagens mostram que adaptabilidade e criatividade são fundamentais para enfrentar dificuldades.
Portanto, a moral africana é que esperteza, prudência e criatividade podem salvar a vida diante de adversidades e de inimigos mais fortes. A inteligência vale mais do que a força bruta.
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