NARRAÇÃO

domingo, 31 de agosto de 2025

27 - O CARACOL E A IMPALA


Uma Impala, muito vaidosa da sua agilidade e da rapidez com que corria, encontrou um Caracol e começou a fazer pouco dele:

—Ó Caracol, tu não és capaz de correr. Que vergonha, só és capaz de te arrastar pelo chão. O Caracol, que era esperto, resolveu enganar a Impala. Por isso desafio-a:

—Vem cá no próximo domingo e vamos fazer uma corrida por esta estrada, desde aqui até ao rio.

—Uma corrida comigo? — perguntou, espantada, a Impala. — Está bem, cá estarei.

E afastou-se a rir, pensando que o Caracol era maluco por querer correr com ela. O Caracol, entretanto, como tinha ido à escola e sabia ler e escrever, escreveu uma carta a todos os caracóis amigos dele que moravam ao longo da estrada até ao rio. Nessa carta ele dizia aos amigos para, no domingo, estarem junto à estrada e, quando passasse a Impala, se ela chamasse pelo Caracol, eles responderem: "Cá estou eu, o Caracol." No domingo, a Impala encontrou-se com o Caracol e, a rir muito, disse-lhe:

—Vamos lá então correr os dois e ver quem chega primeiro ao rio.

O Caracol deixou-a partir a correr e escondeu-se num arbusto. A Impala corria e, de vez em quando, gritava:

—Caracol, ó Caracol, onde é que tu estás?

E havia sempre um dos amigos do Caracol que estava ali perto e respondia:

—Cá estou eu, o Caracol.

A Impala, que julgava ser sempre o mesmo Caracol que ia a correr com ela, corria cada vez mais, mas havia em todos os momentos um Caracol para responder quando ela chamava. De tanto correr, a Impala acabou por se deitar muito cansada e morrer com falta de ar. O Caracol ganhou a aposta porque foi mais esperto que a Impala e tinha ido à escola junto com os outros caracóis e todos sabiam ler e escrever. Só assim se puderam organizar para vencer a Impala.

 

Fonte: Contos moçambicanos: INLD, 1979

  Este conto, “O Caracol e a Impala”, é de origem moçambicana, conforme registrado na coletânea Contos Moçambicanos (INLD, 1979). Ele integra o género de fábulas africanas, em que animais antropomorfizados ensinam lições sobre astúcia, inteligência coletiva e humildade. (grifo nosso)

 

 

 

MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

Este conta ensina quatro lições importantes:

 

1. A inteligência e a estratégia superam a força e a velocidade.

A Impala confiava apenas na sua agilidade, enquanto o Caracol usou engenho e planeamento colectivo para vencer. Na tradição africana, o cérebro e a cooperação podem superar limitações físicas.

A humildade é mais valiosa do que o orgulho.

A Impala, por se achar superior, subestimou o Caracol e acabou derrotada. A história mostra que o orgulho e a vaidade podem levar à queda, enquanto a humildade permite agir com cautela e sabedoria.

2. A cooperação gera sucesso.

O Caracol só conseguiu vencer porque mobilizou os seus amigos. Isto simboliza que a união da comunidade é essencial para atingir objetivos que um indivíduo sozinho não conseguiria, princípio central em muitas culturas africanas.

3. Educação e conhecimento transformam limitações em vantagens.

O Caracol sabia ler e escrever, o que lhe permitiu organizar os amigos e enganar a Impala. A história valoriza o aprendizado e a preparação como ferramentas de superação.

 Em resumo: A moral africana é que a inteligência, a humildade, a cooperação e o conhecimento coletivo podem superar a força e a arrogância. A vitória não é do mais rápido, mas do mais esperto e organizado.

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