Há muitos e muitos anos, o Sol e a Água eram grandes amigos e viviam juntos na Terra. O Sol sempre visitava a Água, que nunca retribuía suas visitas.
Um dia o Sol perguntou à amiga
por que ela nunca o visitara em sua casa. A Água respondeu que a casa do Sol
era muito pequena e que ela e seu povo não caberiam lá. E disse ainda:
— Se você quer que eu o visite,
construa uma grande aldeia. Terá de ser realmente imensa. Meu povo é numeroso e
ocupamos muito espaço.
O Sol prometeu construir um
grande complexo. Em seguida, voltou para sua casa. Sua esposa Lua o recebeu com
um sorriso assim que ele entrou pela porta. O Sol contou sobre sua promessa
para a Água e, no dia seguinte, começou a construção da aldeia para receber a
visita de sua amiga.
Assim que a aldeia ficou pronta,
o Sol convidou a Água para se hospedar lá.
Antes de entrar, a Água perguntou se o local
era de fato seguro para ela e seus familiares.
— Claro.
Entre, minha amiga — respondeu o Sol.
A Água então começou a correr
para dentro da aldeia, acompanhada pelos peixes e outros animais aquáticos.
Logo tudo ficou coberto por um
metro de Água, então ela perguntou:
— Posso
chamar o resto da minha família?
Sem se darem conta da situação,
Sol e Lua responderam que sim. A Água continuou entrando até que os donos da
casa tiveram de subir no telhado.
A Água perguntou mais uma vez ao
Sol, que reiterou sua permissão. Cada vez mais água e animais aquáticos foram
entrando até que o telhado também ficou submerso. O Sol e a Lua acabaram
forçados a subir ao céu, onde vivem desde então.
ELPHINSTONE DAYRELL
Em Contos
Folclóricos Africanos Vol. 1
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
A hospitalidade deve ser equilibrada com prudência.
O Sol foi generoso ao abrir sua
casa para a Água e todo o seu povo, mas não avaliou as consequências. O excesso
de confiança e de permissão terminou por expulsá-lo da própria morada.
Amizade verdadeira exige
limites.
O Sol desejava agradar à amiga
Água, mas não impôs fronteiras claras. Sem limites, até a amizade pode sufocar
ou destruir.
O mais fraco ou menor deve
respeitar o espaço do outro.
A Água, ao entrar sem medida,
tomou tudo para si, revelando que até a boa convivência se perde quando não há
respeito mútuo.
Interpretação no contexto
africano
A hospitalidade é um valor
central nas culturas africanas, mas sempre acompanhada da noção de medida.
Receber um hóspede é sagrado, mas é preciso proteger o equilíbrio da casa e da
comunidade. A narrativa também reforça o papel da sabedoria comunitária: as
escolhas de uma pessoa (o Sol) afetam não apenas ela mesma, mas também a sua
família (a Lua).
O conto mostra como os africanos
interpretam os fenómenos cósmicos (a posição do Sol e da Lua no céu) por meio
de narrativas sociais. O conto funciona como uma cosmogonia popular, explica
porque Sol e Lua estão separados da Terra e vivem no céu, ligando valores
sociais (amizade, hospitalidade, limites) à ordem do universo.
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