NARRAÇÃO

sábado, 30 de agosto de 2025

7 - POR QUE OS BODES SÃO ANIMAIS DOMÉSTICOS?

 

 Bode vivia com sua mãe na aldeia. Um dia ele disse:

— Consegui uma poção que me fará vencer qualquer luta. Ninguém será capaz de me derrubar

ou derrotar. Vencerei todos os animais.

Os outros animais ficaram sabendo dessa bravata e foram desafiá-lo. Os primeiros a chegar foram os camundongos, centenas deles, e assim se deu o primeiro embate. O Bode derrotou um por um de seus duzentos desafiantes. Os camundongos reconheceram que não eram páreo para ele e foram embora. Então os ratos silvestres chegaram e lutaram com o Bode.

Mais uma vez, todos foram derrotados e voltaram para casa.

Em seguida vieram os antílopes. O Bode venceu cada um do bando, nenhum foi capaz de derrotá-lo. E também se foram.

Os elefantes foram os próximos, a manada inteira veio desafiar o Bode. Todos voltaram para casa derrotados.

E assim aconteceu com todos os outros animais. Chegavam e eram vencidos da mesma maneira e, como os outros, também iam embora.

Apenas um ainda não havia tentado. O Leopardo decidiu enfrentar o Bode, certo de que sairia vitorioso. No entanto, também foi derrotado e assim ficou provado que não havia um único animal na selva capaz de vencer o Bode.

O Pai de Todos-os-Leopardos ficou sabendo daquilo e disse:

           Que vergonha um animal desse tamanho derrotar um de nossa espécie. Vou matá-lo!

E planejou sua vingança. Foi até a nascente usada pelos Homens e se escondeu ali perto. Alguns moradores da cidade apareceram para pegar água e o Leopardo matou dois deles. As pessoas então foram até o Bode e pediram:

           Vá embora daqui! O Leopardo está matando nosso povo por sua causa.

A mãe do Bode então aconselhou seu filho:

           Se isso for verdade, devemos ir visitar meu irmão Vyâdu.

Então foram até a aldeia do Tio Antílope e contaram tudo o que estava acontecendo.

           Pois fiquem em minha casa! — disse Vyâdu. — Quero ver se Njâ tem coragem de aparecer aqui!

Permaneceram na aldeia do Antílope por dois dias. No terceiro, por volta das oito da manhã, o Leopardo apareceu por lá como se estivesse apenas dando um passeio. Ao vê-lo, o Bode e sua mãe se esconderam, enquanto o Antílope foi conversar com ele:

           Qual é o problema? Por que você está bravo com meu sobrinho?

Antes mesmo que o Antílope terminasse de falar, o Leopardo arrancou-lhe uma orelha.

           Por que me atacou? — gritou Vyâdu.

           Mostre-me onde Tomba-Taba e sua mãe estão — ordenou o Leopardo.

Amedrontado, o Antílope respondeu:

           Venha hoje à noite e mostrarei onde dormem. Faça o que quiser com eles, mas não me mate.

O Bode ouviu a conversa e foi avisar sua mãe:

           Temos de fugir ou Njâ nos matará.

Quando o sol se pôs, o Bode e sua mãe fugiram para a casa do Elefante. O Leopardo voltou à aldeia do Antílope por volta da meia-noite, conforme o combinado. Procurou em todas as casas do vilarejo e, contrariado por não encontrar o Bode, foi até o Antílope e o matou.

Continuou suas buscas e enfim encontrou o rastro de sua caça. Seguiu no encalço do Bode até chegar à vila do Elefante. Njâku o recebeu com indignação:

           Qual é o problema? — e o Elefante repetiu as mesmas palavras que o Antílope.

E como o Bode e sua mãe fugiram para a aldeia do Boi, o Elefante teve o mesmo destino que o Antílope: acabou assassinado pelo felino.

O Leopardo então foi até a aldeia do Boi, que repetiu a mesma conversa e teve o mesmo destino dos

 outros antes dele. Foi assassinado, mas o Bode conseguiu escapar.

A mãe do Bode, já cansada de tanto fugir e desgostosa com a morte de seus protetores, enfim disse:

           Meu filho! Se continuarmos a fugir de aldeia e aldeia, Njâ nos seguirá matando todos os animais. Vamos para as casas dos Homens.

Fugiram novamente e chegaram até a aldeia dos Homens, onde contaram sua história e foram bem recebidos. Um dos moradores acolheu o Bode e sua mãe como convidados, e mais tarde deu a eles uma casa.

Certa noite o Leopardo chegou à cidade, procurando o Bode. O Homem, ao vê-lo, disse:

           Os animais que você assassinou não souberam te matar. Mas aqui na nossa cidade nós o mataremos.

O Leopardo então voltou para sua casa.

Dias depois, o Homem construiu uma armadilha com dois compartimentos. Colocou o Bode em um deles. Quando chegou a noite, o Leopardo saiu novamente à procura do Bode e voltou para a cidade. Apurou os ouvidos e farejou o cheiro de sua presa.

           Esta noite finalmente o matarei — pensou.

Notou uma trilha que levava até uma casa. Abriu o que acreditou ser uma porta e caiu na armadilha. Podia

 ver o Bode pelas aberturas da parede, sem conseguir tocá-lo.

           Meu amigo! Você queria me matar, mas não vai conseguir — caçoou o Bode.

Quando o dia amanheceu, os habitantes da cidade encontraram o Leopardo preso na armadilha. Mataram-no a tiros e golpes de facão. O Homem então disse ao Bode:

           Não volte mais para a floresta. Fique aqui para sempre. Esta é a razão de os bodes viverem junto dos homens:

o medo dos leopardos.

ROBERT HAMILL NASSAU

                                                                                                     Em Contos Folclóricos Africanos Vol. 1

 

 

MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

A força sem sabedoria atrai inimigos perigosos.

O Bode, ao vangloriar-se da sua poção e desafiar todos os animais, despertou inveja e raiva. A sua arrogância abriu caminho para perseguições e mortes. A narrativa reforça o valor da comunidade e da prudência: quando alguém age sem pensar nas consequências, coloca todos em risco.

A arrogância de um pode trazer desgraça para muitos.

O Leopardo não apenas perseguiu o Bode, mas também matou inocentes (Antílope, Elefante e Boi) por causa dele. Mostra que o excesso de orgulho e rivalidade pode arrastar toda a comunidade para o sofrimento. Muitos contos africanos alertam contra o orgulho desmedido. O Bode acreditava ser invencível, mas a sua bravata provocou uma espiral de violência que ele próprio não conseguiu controlar.

O homem é guardião e juiz na relação com os animais.

No conto, os animais não conseguiram pôr fim ao conflito, mas o Homem interveio, construiu uma armadilha e resolveu o problema. Isso reflete a cosmovisão africana em que o homem tem papel central na ordem do mundo, mediando entre forças da natureza e da sociedade. O papel do Homem simboliza o lugar central da ordem social na tradição africana: é a comunidade humana que traz equilíbrio, pune os predadores e protege os vulneráveis.

Quem não aprende a viver em paz acaba por perder a liberdade.

O Bode só encontrou segurança ao lado dos Homens. Porém, essa proteção custou-lhe a vida selvagem: deixou a floresta e passou a viver domesticado. É uma metáfora de como a imprudência e a arrogância podem levar à perda da liberdade.

Em resumo:

O conto ensina que a arrogância e o excesso de confiança podem trazer a ruína não só para quem se exalta, mas também para toda a comunidade; e que a verdadeira proteção e ordem surgem quando se busca abrigo na coletividade humana.





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