Bode vivia com sua mãe na aldeia. Um dia ele disse:
— Consegui uma poção que me fará
vencer qualquer luta. Ninguém será capaz de me derrubar
ou derrotar. Vencerei todos os
animais.
Os outros animais ficaram sabendo
dessa bravata e foram desafiá-lo. Os primeiros a chegar foram os camundongos,
centenas deles, e assim se deu o primeiro embate. O Bode derrotou um por um de
seus duzentos desafiantes. Os camundongos reconheceram que não eram páreo para
ele e foram embora. Então os ratos silvestres chegaram e lutaram com o Bode.
Mais uma vez, todos foram
derrotados e voltaram para casa.
Em seguida vieram os antílopes. O
Bode venceu cada um do bando, nenhum foi capaz de derrotá-lo. E também se
foram.
Os elefantes foram os próximos, a
manada inteira veio desafiar o Bode. Todos voltaram para casa derrotados.
E assim aconteceu com todos os
outros animais. Chegavam e eram vencidos da mesma maneira e, como os outros,
também iam embora.
Apenas um ainda não havia
tentado. O Leopardo decidiu enfrentar o Bode, certo de que sairia vitorioso. No
entanto, também foi derrotado e assim ficou provado que não havia um único
animal na selva capaz de vencer o Bode.
O Pai de Todos-os-Leopardos ficou
sabendo daquilo e disse:
— Que
vergonha um animal desse tamanho derrotar um de nossa espécie. Vou matá-lo!
E planejou sua vingança. Foi até
a nascente usada pelos Homens e se escondeu ali perto. Alguns moradores da
cidade apareceram para pegar água e o Leopardo matou dois deles. As pessoas
então foram até o Bode e pediram:
— Vá
embora daqui! O Leopardo está matando nosso povo por sua causa.
A mãe do Bode então aconselhou
seu filho:
— Se
isso for verdade, devemos ir visitar meu irmão Vyâdu.
Então foram até a aldeia do Tio
Antílope e contaram tudo o que estava acontecendo.
— Pois
fiquem em minha casa! — disse Vyâdu. — Quero ver se Njâ tem coragem de aparecer
aqui!
Permaneceram na aldeia do
Antílope por dois dias. No terceiro, por volta das oito da manhã, o Leopardo
apareceu por lá como se estivesse apenas dando um passeio. Ao vê-lo, o Bode e
sua mãe se esconderam, enquanto o Antílope foi conversar com ele:
— Qual
é o problema? Por que você está bravo com meu sobrinho?
Antes mesmo que o Antílope
terminasse de falar, o Leopardo arrancou-lhe uma orelha.
— Por
que me atacou? — gritou Vyâdu.
— Mostre-me
onde Tomba-Taba e sua mãe estão — ordenou o Leopardo.
Amedrontado, o Antílope
respondeu:
— Venha
hoje à noite e mostrarei onde dormem. Faça o que quiser com eles, mas não me
mate.
O Bode ouviu a conversa e foi
avisar sua mãe:
— Temos
de fugir ou Njâ nos matará.
Quando o sol se pôs, o Bode e sua
mãe fugiram para a casa do Elefante. O Leopardo voltou à aldeia do Antílope por
volta da meia-noite, conforme o combinado. Procurou em todas as casas do
vilarejo e, contrariado por não encontrar o Bode, foi até o Antílope e o matou.
Continuou suas buscas e enfim
encontrou o rastro de sua caça. Seguiu no encalço do Bode até chegar à vila do
Elefante. Njâku o recebeu com indignação:
— Qual
é o problema? — e o Elefante repetiu as mesmas palavras que o Antílope.
E como o Bode e sua mãe fugiram
para a aldeia do Boi, o Elefante teve o mesmo destino que o Antílope: acabou
assassinado pelo felino.
O Leopardo então foi até a aldeia
do Boi, que repetiu a mesma conversa e teve o mesmo destino dos
outros antes dele. Foi assassinado, mas o Bode
conseguiu escapar.
A mãe do Bode, já cansada de
tanto fugir e desgostosa com a morte de seus protetores, enfim disse:
— Meu
filho! Se continuarmos a fugir de aldeia e aldeia, Njâ nos seguirá matando
todos os animais. Vamos para as casas dos Homens.
Fugiram novamente e chegaram até
a aldeia dos Homens, onde contaram sua história e foram bem recebidos. Um dos
moradores acolheu o Bode e sua mãe como convidados, e mais tarde deu a eles uma
casa.
Certa noite o Leopardo chegou à
cidade, procurando o Bode. O Homem, ao vê-lo, disse:
— Os
animais que você assassinou não souberam te matar. Mas aqui na nossa cidade nós
o mataremos.
O Leopardo então voltou para sua
casa.
Dias depois, o Homem construiu
uma armadilha com dois compartimentos. Colocou o Bode em um deles. Quando
chegou a noite, o Leopardo saiu novamente à procura do Bode e voltou para a
cidade. Apurou os ouvidos e farejou o cheiro de sua presa.
— Esta
noite finalmente o matarei — pensou.
Notou uma trilha que levava até
uma casa. Abriu o que acreditou ser uma porta e caiu na armadilha. Podia
ver o Bode pelas aberturas da parede, sem
conseguir tocá-lo.
— Meu
amigo! Você queria me matar, mas não vai conseguir — caçoou o Bode.
Quando o dia amanheceu, os
habitantes da cidade encontraram o Leopardo preso na armadilha. Mataram-no a
tiros e golpes de facão. O Homem então disse ao Bode:
— Não
volte mais para a floresta. Fique aqui para sempre. Esta é a razão de os bodes
viverem junto dos homens:
o medo dos leopardos.
ROBERT HAMILL NASSAU
Em Contos Folclóricos Africanos Vol. 1
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
A força sem sabedoria atrai inimigos perigosos.
O Bode, ao vangloriar-se da sua
poção e desafiar todos os animais, despertou inveja e raiva. A sua arrogância
abriu caminho para perseguições e mortes. A narrativa reforça o valor da
comunidade e da prudência: quando alguém age sem pensar nas consequências,
coloca todos em risco.
A arrogância de um pode trazer
desgraça para muitos.
O Leopardo não apenas perseguiu o
Bode, mas também matou inocentes (Antílope, Elefante e Boi) por causa dele.
Mostra que o excesso de orgulho e rivalidade pode arrastar toda a comunidade
para o sofrimento. Muitos contos africanos alertam contra o orgulho desmedido.
O Bode acreditava ser invencível, mas a sua bravata provocou uma espiral de
violência que ele próprio não conseguiu controlar.
O homem é guardião e juiz na
relação com os animais.
No conto, os animais não
conseguiram pôr fim ao conflito, mas o Homem interveio, construiu uma armadilha
e resolveu o problema. Isso reflete a cosmovisão africana em que o homem tem
papel central na ordem do mundo, mediando entre forças da natureza e da sociedade.
O papel do Homem simboliza o lugar central da ordem social na tradição
africana: é a comunidade humana que traz equilíbrio, pune os predadores e
protege os vulneráveis.
Quem não aprende a viver em
paz acaba por perder a liberdade.
O Bode só encontrou segurança ao
lado dos Homens. Porém, essa proteção custou-lhe a vida selvagem: deixou a
floresta e passou a viver domesticado. É uma metáfora de como a imprudência e a
arrogância podem levar à perda da liberdade.
Em resumo:
O conto ensina que a arrogância e
o excesso de confiança podem trazer a ruína não só para quem se exalta, mas
também para toda a comunidade; e que a verdadeira proteção e ordem surgem
quando se busca abrigo na coletividade humana.
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