NARRAÇÃO

sábado, 30 de agosto de 2025

6 - OS PRETENDENTES DA PRINCESA GORILA

 

 Rei Gorila teve uma filha cuja beleza era enaltecida por todos. Quando a menina atingiu a idade de se casar, o rei mandou avisar a todas as tribos que não aceitaria dotes comuns para oferecê-la em casamento.

Somente aquele capaz de cumprir a seguinte tarefa seria seu genro: havia um novo tipo de água, nunca antes vista, e quem fosse capaz de beber um barril inteiro dessa água seria merecedor do prêmio cobiçado por tantos.

Então todos os animais se reuniram na floresta do rei para competir pela jovem. Todos os caminhos que levavam à nação Njambi se encheram com os ansiosos pretendentes.

O primeiro candidato seria o Elefante, em razão de seu tamanho. O paquiderme caminhou até o barril com pesada solenidade, suas estrondosas patas ecoando a cada passo, tam dam, tam dam. Mesmo na presença do rei, mal conseguia esconder sua indignação, pois julgava aquele um teste ofensivo de tão fácil. O elefante pensava consigo mesmo, “Um barril de água? Que afronta! Quando eu, Njâgu, tomo meu banho diário, sugo o equivalente a vários barris de água com minha tromba e jogo tudo sobre mim. Além disso, bebo meio barril a cada refeição. E é esse o teste? Vou acabá-lo em dois goles!”.

Colocou sua tromba dentro do barril, determinado a sorver uma grande quantidade. Retraiu-se logo que tocou o líquido. A “nova água” ardeu em suas entranhas. O gigante ergueu sua tromba e bramiu um grito de fúria, dizendo que aquela era uma prova impossível.

 Muitos dos presentes julgavam o grande elefante um adversário invencível e secretamente se alegraram ao ver seu fracasso. Agora teriam uma chance.

O Hipopótamo então se apresentou, passando à frente de todos com passos atrapalhados. Estava afoito e certo de que seria o vencedor. Não era tão grande e pesado como o Elefante, mas era mais desajeitado. Mesmo assim, não hesitou em bradar o mais alto que pôde:

           Você, Njâgu, com todo esse tamanho teme um bar- ril de água? Rá! Eu passo metade do meu tempo na água. Quando estou com sede, os peixes do rio têm medo de ficar sem casa.

E assim caminhou até o barril, aos gritos e bravatas para tentar impressionar a jovem princesa. Mal chegou a tocar a boca no líquido, apenas o cheiro já fez com que jogasse a cabeça para trás em um urro de aflição e nojo. Sem sequer curvar-se ao rei, correu até o rio para lavar a boca.

Em seguida veio o Porco-do-mato, dirigindo-se ao soberano:

           Rei Gorila, não vou me vangloriar antecipadamente, como fizeram meus adversários. Tampouco, se eu falhar, insultarei vossa majestade. No entanto, acredito que sairei vitorioso. Estou acostumado a enfiar o nariz nos piores lugares.

 Aproximou-se devagar e com cuidado. Mesmo ele, habituado a todo tipo de sujeira e maus odores, afastou-se do barril enojado e foi embora grunhindo.

O próximo a se apresentar foi o Leopardo, contando vantagens e dando saltos para que a jovem visse sua linda pelagem. Zombou dos três que o precederam dizendo:

           Ah, meus amigos! Vocês não teriam nenhuma chance mesmo se tivessem bebido a água. A princesa jamais se inte- ressaria por sujeitos feios e atrapalhados como vocês! Vejam que lindos meu corpo e minha cauda! Como minhas patas são fortes e ágeis! Já lhes mostro como acabar com esse barril. Mesmo que nós, da tribo dos felinos, não gostemos de nos molhar, abrirei uma exceção para honrar a princesa. Sou o ser mais elegante da floresta e vencerei essa prova sem esforço. Disse isso e saltou imediatamente para o barril, mas o cheiro o deixou enjoado. Fez uma única e vã tentativa. Foi

embora com o rabo baixo, rastejando de vergonha.

Todos os animais da selva tentaram, um após outro. Todos falharam. Até que o pequeno Telinga deu um tímido passo à frente. Centenas de outros pequenos macacos da Tribo dos Micos o aguardavam ocultos no matagal. Os competidores derrotados murmuraram surpresos quando ele se dirigiu até o barril. Nem mesmo o Rei Gorila conseguiu conter seu espanto:

           O que você quer, meu pequeno amigo?

           Vossa majestade não mandou avisar que qualquer tribo poderia participar? — respondeu Telinga.

           Sim, todas as tribos podem tentar.

           Então eu, Telinga, mesmo pequeno como sou, gostaria de ter uma chance.

           Mantenho minha palavra real. Você pode fazer sua tentativa.

           Apenas uma dúvida, majestade. O competidor deve beber o barril todo de uma só vez? O senhor permitiria que eu descansasse rapidamente no matagal após cada gole?

— Claro, mas você deve beber tudo hoje — respondeu o rei. Telinga tomou um gole e saiu saltitando até o mato. Voltou imediatamente, ou assim pareceu, deu outro gole e retornou ao bosque. Reapareceu no instante seguinte — na verdade, cada vez que isso ocorria, saía do matagal um mico diferente, que bebia um pouco da água e retornava ao mesmo local para ser substituído — e assim foi até que o barril se

esvaziasse rapidamente.

O Rei Gorila anunciou Telinga como o vencedor da prova.

Não se sabe o que a jovem princesa pensou ao ver que não se casaria com nenhum dos belos pretendentes, como o Antílope ou outros animais graciosos. Quando Telinga

 tentou se aproximar dela, o Leopardo e os outros avançaram sobre ele, gritando:

— Seu nanico miserável! Se não podemos nos casar com ela, você também não poderá! Você vai ver! Tome isso! E isso! — e o atacaram com socos, chutes e mordidas.

Aterrorizado, Telinga fugiu para o bosque, deixando sua noiva para trás.

Desde então, ele e sua tribo vivem nas copas das árvores, pois têm medo de voltar ao chão.

 

ROBERT HAMILL NASSAU

                                                                                                     Em Contos Folclóricos Africanos Vol. 1

 

MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

A força da comunidade é maior do que o poder individual. O pequeno Telinga venceu não pela sua própria força, mas porque soube agir em união com os outros da sua tribo. Enquanto os grandes e orgulhosos falharam, a cooperação coletiva trouxe vitória.

A arrogância derruba até os mais fortes. Elefante, Hipopótamo e Leopardo falharam porque confiaram apenas no orgulho e no exibicionismo. Já o pequeno mico, humilde e astuto, soube usar a inteligência.

O sucesso desperta inveja. Mesmo depois de vencer de forma justa, Telinga foi atacado pelos outros animais, mostrando que quem triunfa precisa lidar também com a inveja e a hostilidade dos derrotados.

 

Interpretação dentro do contexto africano

Em muitas tradições africanas, valoriza-se a força do coletivo sobre o individualismo. “Uma mão sozinha não amarra um feixe de lenha” (provérbio africano). Assim, Telinga representa o espírito comunitário africano, onde a união da tribo garante a sobrevivência.

A prova do “barril de água” simboliza os desafios da vida que nenhum indivíduo, por mais forte que seja, consegue superar sozinho. É pela partilha, pela solidariedade e pela estratégia coletiva que a comunidade prospera.

A reação violenta dos outros animais mostra um traço humano universal: a dificuldade de aceitar que os pequenos ou os marginalizados também podem vencer. O conto denuncia o orgulho das elites e lembra que a verdadeira grandeza não está no tamanho, mas na sabedoria.

Em resumo:

Na visão africana, o conto ensina que a união da comunidade é a verdadeira força, que a humildade supera a arrogância, e que a inveja nunca pode apagar a vitória conquistada com inteligência e solidariedade.





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