Rei Gorila teve uma filha cuja beleza era enaltecida por todos. Quando a menina atingiu a idade de se casar, o rei mandou avisar a todas as tribos que não aceitaria dotes comuns para oferecê-la em casamento.
Somente aquele capaz de cumprir a
seguinte tarefa seria seu genro: havia um novo tipo de água, nunca antes vista,
e quem fosse capaz de beber um barril inteiro dessa água seria merecedor do
prêmio cobiçado por tantos.
Então todos os animais se
reuniram na floresta do rei para competir pela jovem. Todos os caminhos que
levavam à nação Njambi se encheram com os ansiosos pretendentes.
O primeiro candidato seria o
Elefante, em razão de seu tamanho. O paquiderme caminhou até o barril com
pesada solenidade, suas estrondosas patas ecoando a cada passo, tam dam, tam
dam. Mesmo na presença do rei, mal conseguia esconder sua indignação, pois
julgava aquele um teste ofensivo de tão fácil. O elefante pensava consigo mesmo,
“Um barril de água? Que afronta! Quando eu, Njâgu, tomo meu banho diário, sugo
o equivalente a vários barris de água com minha tromba e jogo tudo sobre mim.
Além disso, bebo meio barril a cada refeição. E é esse o teste? Vou acabá-lo em
dois goles!”.
Colocou sua tromba dentro do
barril, determinado a sorver uma grande quantidade. Retraiu-se logo que tocou o
líquido. A “nova água” ardeu em suas entranhas. O gigante ergueu sua tromba e
bramiu um grito de fúria, dizendo que aquela era uma prova impossível.
Muitos dos presentes julgavam o grande
elefante um adversário invencível e secretamente se alegraram ao ver seu
fracasso. Agora teriam uma chance.
O Hipopótamo então se apresentou,
passando à frente de todos com passos atrapalhados. Estava afoito e certo de
que seria o vencedor. Não era tão grande e pesado como o Elefante, mas era mais
desajeitado. Mesmo assim, não hesitou em bradar o mais alto que pôde:
— Você,
Njâgu, com todo esse tamanho teme um bar- ril de água? Rá! Eu passo metade do
meu tempo na água. Quando estou com sede, os peixes do rio têm medo de ficar
sem casa.
E assim caminhou até o barril,
aos gritos e bravatas para tentar impressionar a jovem princesa. Mal chegou a
tocar a boca no líquido, apenas o cheiro já fez com que jogasse a cabeça para
trás em um urro de aflição e nojo. Sem sequer curvar-se ao rei, correu até o
rio para lavar a boca.
Em seguida veio o Porco-do-mato,
dirigindo-se ao soberano:
— Rei
Gorila, não vou me vangloriar antecipadamente, como fizeram meus adversários.
Tampouco, se eu falhar, insultarei vossa majestade. No entanto, acredito que
sairei vitorioso. Estou acostumado a enfiar o nariz nos piores lugares.
Aproximou-se devagar e com cuidado. Mesmo ele,
habituado a todo tipo de sujeira e maus odores, afastou-se do barril enojado e
foi embora grunhindo.
O próximo a se apresentar foi o
Leopardo, contando vantagens e dando saltos para que a jovem visse sua linda
pelagem. Zombou dos três que o precederam dizendo:
— Ah,
meus amigos! Vocês não teriam nenhuma chance mesmo se tivessem bebido a água. A
princesa jamais se inte- ressaria por sujeitos feios e atrapalhados como vocês!
Vejam que lindos meu corpo e minha cauda! Como minhas patas são fortes e ágeis!
Já lhes mostro como acabar com esse barril. Mesmo que nós, da tribo dos
felinos, não gostemos de nos molhar, abrirei uma exceção para honrar a
princesa. Sou o ser mais elegante da floresta e vencerei essa prova sem
esforço. Disse isso e saltou imediatamente para o barril, mas o cheiro o deixou
enjoado. Fez uma única e vã tentativa. Foi
embora com o rabo baixo,
rastejando de vergonha.
Todos os animais da selva
tentaram, um após outro. Todos falharam. Até que o pequeno Telinga deu um tímido
passo à frente. Centenas de outros pequenos macacos da Tribo dos Micos o
aguardavam ocultos no matagal. Os competidores derrotados murmuraram surpresos
quando ele se dirigiu até o barril. Nem mesmo o Rei Gorila conseguiu conter seu
espanto:
— O
que você quer, meu pequeno amigo?
— Vossa
majestade não mandou avisar que qualquer tribo poderia participar? — respondeu
Telinga.
— Sim,
todas as tribos podem tentar.
— Então
eu, Telinga, mesmo pequeno como sou, gostaria de ter uma chance.
— Mantenho
minha palavra real. Você pode fazer sua tentativa.
— Apenas
uma dúvida, majestade. O competidor deve beber o barril todo de uma só vez? O
senhor permitiria que eu descansasse rapidamente no matagal após cada gole?
— Claro, mas você deve beber tudo
hoje — respondeu o rei. Telinga tomou um gole e saiu saltitando até o mato.
Voltou imediatamente, ou assim pareceu, deu outro gole e retornou ao bosque.
Reapareceu no instante seguinte — na verdade, cada vez que isso ocorria, saía
do matagal um mico diferente, que bebia um pouco da água e retornava ao mesmo
local para ser substituído — e assim foi até que o barril se
esvaziasse rapidamente.
O Rei Gorila anunciou Telinga
como o vencedor da prova.
Não se sabe o que a jovem
princesa pensou ao ver que não se casaria com nenhum dos belos pretendentes,
como o Antílope ou outros animais graciosos. Quando Telinga
tentou se aproximar dela, o Leopardo e os
outros avançaram sobre ele, gritando:
— Seu nanico miserável! Se não
podemos nos casar com ela, você também não poderá! Você vai ver! Tome isso! E
isso! — e o atacaram com socos, chutes e mordidas.
Aterrorizado, Telinga fugiu para
o bosque, deixando sua noiva para trás.
Desde então, ele e sua tribo
vivem nas copas das árvores, pois têm medo de voltar ao chão.
ROBERT HAMILL NASSAU
Em Contos Folclóricos Africanos Vol. 1
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
A força da comunidade é maior do que o poder individual. O pequeno Telinga venceu não pela sua própria força, mas porque soube agir em união com os outros da sua tribo. Enquanto os grandes e orgulhosos falharam, a cooperação coletiva trouxe vitória.
A arrogância derruba até os mais
fortes. Elefante, Hipopótamo e Leopardo falharam porque confiaram apenas no
orgulho e no exibicionismo. Já o pequeno mico, humilde e astuto, soube usar a
inteligência.
O sucesso desperta inveja. Mesmo
depois de vencer de forma justa, Telinga foi atacado pelos outros animais,
mostrando que quem triunfa precisa lidar também com a inveja e a hostilidade
dos derrotados.
Interpretação dentro do
contexto africano
Em muitas tradições africanas,
valoriza-se a força do coletivo sobre o individualismo. “Uma mão sozinha não
amarra um feixe de lenha” (provérbio africano). Assim, Telinga representa o
espírito comunitário africano, onde a união da tribo garante a sobrevivência.
A prova do “barril de água”
simboliza os desafios da vida que nenhum indivíduo, por mais forte que seja,
consegue superar sozinho. É pela partilha, pela solidariedade e pela estratégia
coletiva que a comunidade prospera.
A reação violenta dos outros
animais mostra um traço humano universal: a dificuldade de aceitar que os
pequenos ou os marginalizados também podem vencer. O conto denuncia o orgulho
das elites e lembra que a verdadeira grandeza não está no tamanho, mas na
sabedoria.
Em resumo:
Na visão africana, o conto ensina que a união da comunidade é a verdadeira força, que a humildade supera a arrogância, e que a inveja nunca pode apagar a vitória conquistada com inteligência e solidariedade.
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