Muito tempo atrás, um médico sábio, ao morrer, deixou uma esposa e um bebê. Na idade apropria- da, o menino foi batizado com o nome escolhido por seu pai: Hassee’boo Kareem’ Ed Deen’.
Quando o garoto terminou seus
estudos e já sabia ler, sua mãe o enviou a um alfaiate para prender a
profissão. Não conseguiu. Depois, o mandou até um ourives e ele tampouco foi
capaz de dominar esse ofício. O menino tentou diversos trabalhos, sem sucesso
em nenhum deles. Enfim, sua mãe disse:
— É
melhor você ficar em casa por um tempo — e essa proposta lhe agradou.
Um dia, Hassee’boo perguntou à
sua mãe qual era a profissão de seu falecido pai. Ela contou que ele havia sido
um grande médico.
E onde estão os livros dele? —
indagou o menino.
— Faz
muito tempo que não os vejo — respondeu a mãe
—, mas devem estar no quarto dos
fundos. Vá procurá-los. Hassee’boo vasculhou a casa até encontrá-los, mas es-
tavam praticamente destruídos por insetos. Não foi possível
aproveitá-los.
Tempos depois, quatro vizinhos
foram à sua casa e pediram à mulher:
— Seu
filho pode vir conosco cortar lenha na floresta?
O trabalho consistia em cortar
madeira, carregá-la em burros e vendê-la na cidade, onde era usada em
fogueiras.
— Claro
— respondeu ela. — Amanhã comprarei um burro para que ele comece a trabalhar
com vocês.
No dia seguinte Hassee’boo,
montado em seu burro, saiu com seus quatro novos companheiros. Trabalharam
muito e ganharam bastante dinheiro durante seis dias. No sétimo, uma chuva
muito forte levou todos a se abrigarem em uma caverna.
Hassee’boo sentou-se sozinho.
Como não havia nada para fazer, ele começou a bater uma pequena pedra no chão.
Surpreendeu-se com o ruído surdo que o solo fazia, como se estivesse oco.
Chamou os outros e disse:
— Parece
que há um buraco aqui em baixo.
Bateu a pedra no chão novamente
para que ouvissem. Decidiram investigar a causa. Bastou cavarem um pouco
para descobrirem um buraco fundo como um poço,
repleto de mel até a borda.
Desistiram de cortar lenha e
decidiram coletar e vender o mel.
Como queriam retirar tudo o mais
rápido possível, pediram para Hassee’boo entrar no poço e ir recolhendo o mel,
que seria colocado em vasos e levado para ser vendido na cidade. Trabalharam
por três dias seguidos e ganharam muito dinheiro.
Quando sobrou apenas um pouco de
mel no fundo, pediram que o menino retirasse tudo o que restava e foram buscar
uma corda para içá-lo de volta.
Mas a verdade é que os quatro
decidiram deixar o menino no buraco e dividir o dinheiro. Quando Hassee’boo
acabou de juntar o mel, gritou para que lançassem a corda, mas não obteve
resposta. Após três dias sozinho no poço, finalmente entendeu que fora
abandonado por seus companheiros.
Os quatro lenhadores foram até a
casa da mãe de Hassee’boo e disseram que o menino tinha se separado deles na
floresta. Chegaram a afirmar que ouviram o rugido de um leão. Garantiram ter
procurado o menino, porém não encontraram nenhum rastro dele nem do burro.
A mãe de Hassee’boo chorou muito,
como era de se esperar, e os quatro vizinhos ficaram com todo o dinheiro.
Enquanto isso, o menino andava pelo fundo do
buraco em busca de uma saída, comendo restos de mel, dormindo e pensando no que
fazer.
No quarto dia, enquanto pensava,
viu um grande escorpião no chão e o matou.
Imediatamente algo lhe ocorreu:
— De
onde veio esse escorpião? Deve haver uma abertura em algum lugar. Vou tentar
encontrá-la.
Olhou em volta até perceber um
pequeno facho de luz que surgia de uma fresta minúscula. Apanhou sua faca e
escavou até abrir um buraco largo o suficiente para que pudesse passar.
Atravessou a abertura e saiu em um local que nunca havia visto antes.
Notou uma trilha à sua frente.
Seguiu por ela até encontrar uma casa muito grande, cuja porta estava entreaberta.
Lá dentro, viu que as portas eram douradas e tinham chaves de pérola nas
fechaduras, também dou- radas. A casa estava cheia de lindas cadeiras
incrustadas de joias e pedras preciosas. Na antessala, encontrou um sofá
coberto por uma colcha deslumbrante e se deitou para descansar.
Assim que adormeceu, alguém o
colocou em uma cadeira. Acordou com uma voz dizendo:
— Não
o machuque, vamos acordá-lo suavemente.
Abriu os olhos e se viu cercado por várias
cobras. Uma delas tinha cores muito vivas.
— Olá!
Quem é você?
— Sou
Sulta’nee Waa’ Neeo’ka, rei das cobras. Esta é minha casa. E você, como se
chama?
— Eu
sou Hassee’boo Kareem’ Ed Deen’.
— De
onde veio?
— Não
sei de onde eu vim nem para onde vou.
— Bem,
não se preocupe com isso agora. Vamos comer. Imagino que esteja com fome. Eu
estou, pelo menos.
O rei ordenou que seus criados
trouxessem comida. Foram servidas lindas frutas. Todos comeram e beberam
enquanto conversavam.
Ao final da refeição, o rei quis
saber mais sobre Hassee’boo. O menino contou tudo o que havia acontecido até
então. Depois pediu ao anfitrião que falasse um pouco de si.
— Minha
história é um tanto longa, mas posso lhe contar — disse o rei das cobras. — Há
muito tempo, saí desta casa e fui morar nas montanhas de Al Kaaf. Queria mudar
de ares. Um dia encontrei um estranho que passava por ali e perguntei a ele:
“De onde você é?”
“Estou vagando pelo deserto”, ele
respondeu. “E quem é seu pai?”
“Meu nome é Bolookee’a e meu pai era um
sultão. Quando ele morreu, encontrei um pequeno baú, dentro do qual havia uma
bolsa com uma caixinha de latão. Nessa caixinha encontrei um pergaminho
guardado dentro de um pano de lã. O texto falava sobre um profeta. Dizia tantas
coisas boas e maravilhosas a seu respeito que tive vontade de conhecê-lo. No
entanto, quando comecei a perguntar às pessoas sobre ele, me disseram que ainda
não havia nascido. Então jurei que andaria pelo mundo até encontrá-lo. Deixei
minha cidade e minhas propriedades. Desde então estou vagando, mas ainda não o
encontrei.”
“E onde você espera achar esse
homem, se ele ainda não nasceu?”, perguntei ao andarilho. “Se você tivesse um
pouco de água de serpente, conseguiria se manter vivo até encontrá-lo. Mas
talvez seja um conselho inútil, pois não há água de serpente nessas redondezas.”
“Bem, devo continuar minha
jornada. Adeus.”
E assim nos despedimos e ele
seguiu seu caminho. Andou até o Egito, onde encontrou um homem que também lhe
perguntou:
“Quem é você?”
“Me chamo Bolookee’a. E quem é
você?”
“Meu nome é Al Faan’. Aonde você
está indo?” “Deixei minha casa e minhas propriedades para procurar o profeta.”
“Ah! Há coisas melhores a se fazer do que
procurar um homem que ainda não nasceu. Vamos até o rei das cobras pedir uma
poção mágica. Depois, iremos até o Rei Salomão e pegaremos seu anel. Com ele,
dominaremos os gênios e os ordenaremos a atender todos os nossos pedidos.”
Nesse momento Bolookee’a disse:
“Eu conheci o rei das cobras na
montanha de Al Kaaf.” “Vamos até lá então”, disse Al Faan’.
Al Faan’ queria o anel de Salomão
porque sabia que com ele teria grandes poderes mágicos: controlaria os gênios e
os pássaros. Bolookee’a queria apenas conhecer o grande profeta.
“Tudo bem”, concordou Bolookee’a.
Os dois levaram uma armadilha até
Al Kaaf, dentro da qual colocaram um copo de leite e outro de vinho. Eu caí na
armadilha como um tolo. Entrei na gaiola, bebi todo o vinho e fiquei bêbado. Os
dois então fecharam a porta e me levaram.
Quando recuperei os sentidos, vi
que estava preso e era carregado por Bolookee’a. “Não se pode confiar nos
filhos de Adão. O que querem de mim?”, perguntei.
“Queremos uma poção para usarmos
em nossos pés e caminharmos sobre a água sempre que isso for necessário em
nossa jornada”, responderam.
Concordei e disse para seguirmos
em frente.
Chegamos a um bosque com muitas árvores.
Quando me viram, elas foram dizendo, uma a uma, “Eu sou remédio para isso’”,
“Eu sou remédio para aquilo’”, “Eu sou remédio para a cabeça”, “Eu sou remédio
para os pés”, até que uma das árvores disse: “Se alguém passar minha seiva nos
pés, poderá andar sobre as águas”.
Revelei aos homens o que a última
árvore havia me dito. Era o que procuravam. Retiraram uma grande quantidade de
líquido de suas folhas e me levaram de volta à montanha. Lá, eles me libertaram
e seguiram seu caminho.
Quando enfim alcançaram o mar,
usaram a seiva e caminharam sobre a superfície da água. Andaram muitos dias até
chegarem nas proximidades do palácio do rei Salomão. Então fizeram uma parada
para que Al Faan’ preparasse suas poções. Ao entrarem no palácio, encontraram o
rei Salomão dormindo e a mão com o anel estava apoiada em seu peito.
Os gênios do rei vigiavam seu
sono.
Bolookee’a se aproximou e um dos
gênios disse: “Aonde você vai?”
“Vim aqui com Al Faan’, e ele vai
pegar o anel do rei.” “Vá embora”, respondeu o gênio. “Saiam daqui, ou seu
amigo morrerá.”
Al Faan’, já com suas poções
prontas, pediu para Bolookee’a apenas esperar. Aproximou-se do rei para pegar
o anel, mas deu um grito ensurdecedor e foi
lançado por uma força invisível a uma distância impressionante.
Levantou-se acreditando que as
poções ainda faziam efeito e correu novamente em direção ao rei. Uma forte
rajada de ar soprou sobre ele, reduzindo-o a cinzas instantaneamente.
Uma voz falou a Bolookee’a, que
permanecia no mesmo lugar:
“Vá embora. Esta criatura
miserável está morta.”
O andarilho fugiu do palácio e,
quando chegou nova- mente à praia, colocou a poção em seus pés para atravessar
as águas. Continuou vagando pelo mundo por muitos anos. Em uma de suas
andanças, certa manhã, encontrou um homem sentado no chão. Após trocarem
cumprimentos,
Bolookee’a perguntou: “Quem é
você?”
“Me chamo Jan Shah. E você?”
Bolookee’a se apresentou e quis
saber a história de seu novo amigo. O homem, que ora chorava, ora sorria, fez
questão de que o andarilho contasse a sua primeiro. Após ouvi-la, começou:
“Sente-se comigo e contarei minha
história do começo ao fim. Meu nome é Jan Shah. Meu pai é Tooeegha’mus, um
grande sultão. Ele costumava caçar na floresta todos os dias.
Certa vez, pedi para que me levasse junto. Ele
disse não, que seria melhor eu ficar em casa. Chorei bastante e como meu pai me
amava muito, por eu ser filho único, não suportou me ver naquele estado e
consentiu que fosse caçar com ele. “Entramos na floresta acompanhados de vários
criados.
Chegamos ao acampamento, comemos
e nos dividimos em grupos.
“Seguimos, eu e mais sete
escravos, até encontrarmos uma gazela. Fomos atrás dela, sem conseguir
capturá-la, até chegarmos ao mar. O animal entrou na água e, junto com mais
quatro escravos, continuei perseguindo-o de barco. Os outros três voltaram e se
reuniram ao grupo de meu pai. Conseguimos apanhar a gazela, mas tivemos de nos
afastar bastante da costa. Então fomos pegos por um forte vento, que nos
desviou do caminho, e nos perdemos.
“Um dos três escravos que
voltaram contou a meu pai sobre a gazela e o barco. O sultão começou a gritar
que seu filho havia se perdido e, ao retornar à cidade, decretou luto por
considerar que eu estava morto.
“Enfim conseguimos chegar a uma
ilha com muitos pássaros. Encontramos frutas e água doce. Após comermos,
subimos em uma árvore e dormimos até a manhã seguinte. “Remamos até outra ilha
deserta. Como na anterior, colhemos frutas e dormimos em uma árvore. Durante a
noite, ouvimos vários animais
selvagens uivando e rugindo perto de nós.
“Quando amanheceu, saímos de lá o
mais rápido possível. Chegamos a uma terceira ilha. Ao procurar comida,
encontramos uma árvore cheia de frutos parecidos com maçãs. Ao nos
aproximarmos, ouvimos uma voz que dizia para não tocarmos na árvore, pois ela
pertencia ao rei. Então avistamos vários macacos vindo em nossa direção.
Pareciam muito contentes em nos ver. Deram-nos muitas frutas, as quais comemos
até nos saciar.
“Um dos macacos propôs ao seu
grupo que eu fosse nomeado sultão. Outro respondeu que de nada adiantaria, pois
já na manhã seguinte iríamos embora. Um terceiro argumentou que não
conseguiríamos fugir se eles destruíssem nosso barco. E de fato, ao nos
preparamos para ir embora no dia seguinte, nossa embarcação estava em pedaços.
Só nos restava continuar na ilha com os primatas, que pareciam gostar muito de
nós.
“Certo dia, enquanto eu
caminhava, encontrei uma grande casa com uma inscrição na porta:
Qualquer um que vier a esta ilha
terá dificuldades em deixá-la, pois os macacos estão em busca de um homem que
seja seu rei. Tal homem pensará que não há como fugir daqui, mas há uma saída
ao norte. Ao seguir nessa direção, encontrará uma
grande planície repleta de leões, leopardos e
cobras. O homem deverá lutar com todos eles e, se vencê-los, poderá continuar.
Então chegará a outra grande planície, habitada por formigas ferozes, com
dentes afiados e do tamanho de cães. Também deverá vencê-las, somente então o
caminho estará livre.
“Conversei com meus criados sobre
o que fazer, e decidimos que, se fôssemos morrer de qualquer jeito, melhor
seria fazê-lo na luta por nossa liberdade.
“Estávamos todos armados e nos
pusemos a caminhar. Chegamos à primeira planície e enfrentamos os animais. Dois
escravos foram mortos. Na segunda planície, lutamos com as formigas e mais dois
criados morreram. Consegui escapar sozinho.
“Perambulei por muitos dias,
comendo o que encontrava, até enfim chegar a uma cidade. Lá fiquei por algum
tempo em busca de trabalho, mas sem sucesso.
“Um dia um homem veio até mim e
perguntou se eu procurava uma ocupação. Ao responder que sim, ele me chamou
para sua casa.
“Ao chegarmos lá, ele me mostrou
uma pele de camelo e pediu que eu a vestisse. Segundo ele, se eu fizesse
aquilo, um grande pássaro me carregaria até uma montanha distante. Uma vez no
topo, o tal pássaro arrancaria minha pele de
camelo e eu teria de afundar no chão as pedras
preciosas que encontrasse. Quando todas as pedras estivessem enfiadas na terra,
o homem viria me buscar.
“Tal como ele disse, vestiu-me
com a pele e um pássaro veio e me levou até a montanha. Estava prestes a me
devorar, mas eu me desvencilhei e o afugentei. Afundei muitas pedras preciosas
e então chamei o homem para me tirar dali, mas ele nunca veio.
“Julguei que logo estaria morto e
andei por muitos dias por uma enorme floresta, até encontrar uma casa. Era
habitada por um velho, que me alimentou até que eu recuperasse minhas forças.
“Fiquei lá por muito tempo. O
velho se afeiçoou a mim como se eu fosse seu filho.
“Um dia ele teve de sair e me
deixou com um molho de chaves. Disse que eu poderia abrir qualquer porta da
casa, exceto uma, que me mostrou apontando o dedo.
“É claro que foi a primeira porta
que abri assim que ele saiu. Do outro lado vi um grande jardim onde corria um
riacho. Três pássaros pousaram em uma de suas margens e imediatamente se
transformaram nas mulheres mais lindas que eu já vi. Observei-as enquanto se
banhavam. Depois elas se vestiram novamente, voltaram a se transformar em
pássaros e saíram voando.
“Tranquei a porta e saí da casa. Não tinha
fome e perambulei sem destino. Quando o velho voltou, percebeu algo estranho e
me perguntou o que havia de errado. Contei a ele sobre as lindas moças e disse
que estava apaixonado por uma delas. Se não pudesse me casar com ela,
certamente morreria. “‘Impossível’, disse-me o velho. As três donzelas eram
filhas do sultão dos gênios e a viagem até a casa delas era
uma jornada de três anos.
“Respondi que não me importava.
Eu tinha de tornar minha esposa a moça pela qual havia me apaixonado, disso
dependia minha vida. Ele então me disse para esperar até que elas voltassem. Eu
deveria me esconder enquanto estivessem na água e roubar as roupas da minha
amada.
“Assim fiz. Quando voltaram para
outro banho, roubei os trajes da irmã mais nova, que se chamava Sayadaa’tee
Shems. “Como esperado, ela saiu do riacho e procurou por suas
roupas, sem saber o que estava
acontecendo.
“Então eu me apresentei e disse
que estavam comigo. Implorou-me para que as devolvesse, pois precisava ir em-
bora. Declarei meu amor e disse que queria me casar com ela. Insistiu dizendo
que queria voltar para o seu pai. Respondi que não a deixaria partir.
“Após suas irmãs partirem voando,
eu a levei para a casa. O ancião celebrou nosso casamento e me aconselhou a
esconder suas roupas, pois se ela
as encontrasse, voaria nova- mente para longe. Cavei um buraco fora da casa e
as enterrei. “Um dia, precisei sair de casa e Sayadaa’tee aproveitou-se
de minha ausência, desenterrou as
roupas e as vestiu. Mandou seu escravo me avisar que ela havia partido. Também
mandou dizer que se eu realmente a amasse deveria ir atrás dela. “Ao voltar
para casa, soube de sua fuga e saí à sua pro- cura. Perambulei por muitos anos
até chegar a uma cidade. Um dos moradores quis saber meu nome e quem era meu
pai. Respondi que era Jan Sha, filho de Taaeeghamus. Perguntou-me então se eu
era o marido de sua senhora. A ouvir o nome dela, Sayadaa’tee Shems, gritei
extasiado que sim, era eu mesmo.
“Levaram-me até ela. Fui
apresentado ao seu pai e ela revelou que havíamos nos casado. Todos ficaram
felizes.
“Decidimos então visitar nossa
velha casa. Um dos gênios de seu pai nos carregou até lá, em uma viagem de três
dias. Ficamos na casa por três anos, depois retornamos, e pouco tempo depois de
nossa volta minha esposa morreu. Meu sogro me ofereceu outra de suas filhas em
casamento como consolo, mas eu estava desolado. Desde então, estou de luto.
Essa é minha história.”
E Bolookee’a então seguiu seu
caminho, andando sem destino, até morrer.
Sultaanee Waa Neeoka concluiu seu relato
dizendo a Hassee’boo:
— Agora,
quando você regressar à sua casa, você me matará.
Hassee’boo ficou indignado ao
ouvir aquilo:
— Eu
jamais o machucaria, sob nenhuma circunstância.
Por favor, me ajude a voltar para
casa.
— Mandarei
você de volta à sua cidade — prometeu o rei —, mas é certo que você voltará
para me matar.
— Eu
não seria tão ingrato! — exclamou Hassee’boo.
— Juro
que jamais farei mal a você.
— Então
lembre-se de uma coisa — pediu o rei das cobras. — Quando estiver em sua
cidade, não tome banho em lugares com muitas pessoas.
— Me
lembrarei, pode deixar — assegurou Hassee’boo.
O rei então o levou de volta para
casa de sua mãe, que ficou radiante ao ver Hassee’boo vivo.
O sultão da cidade onde vivia
Hassee’boo estava muito doente. Seus conselheiros decidiram que a única cura
para o soberano seria uma sopa feita com o rei das cobras.
O vizir do sultão, por razões que
só ele conhecia, colocou soldados a postos em todos os banhos públicos da
cidade, com instruções para capturar qualquer um que aparecesse para se banhar
e tivesse uma marca na barriga.
Apenas três dias após ter voltado à sua
cidade, Hassee’boo, completamente esquecido do aviso de Sultaanee Waa Neeoka,
foi ao banho com outras pessoas. Acabou capturado pelos soldados e levado ao
palácio, onde o vizir lhe disse:
— Leve-nos
à casa do rei das cobras.
— Não
sei onde fica — respondeu Hassee’boo.
— Amarrem-no!
— ordenou o vizir.
Hassee’boo foi amarrado e
açoitado até suas costas ficarem em carne viva. Incapaz de suportar a dor,
finalmente cedeu:
— Já
chega! Eu os levarei aonde quiserem.
Então guiou os soldados até a
casa do rei das cobras.
Sultaanee Waa Neeoka recebeu-o
com a frase:
— Não
disse que você voltaria para me matar?
— E
o que eu poderia fazer? — justificou-se Hassee’boo.
— Veja
o que fizeram com minhas costas!
— Quem
lhe infligiu esse horror? — perguntou o rei.
— O
vizir.
— Então
não há esperanças para mim. Mas você mesmo deverá me carregar.
Durante o trajeto, o rei disse a
Hassee’boo:
— Serei
morto e cozido quando chegarmos à sua cidade. O vizir lhe oferecerá a primeira
tigela da minha sopa, mas não a beba. Guarde-a em uma garrafa. Você deverá
beber a segunda tigela, que o transformará em um grande médico. A terceira
tigela será a cura para a doença do sultão. Se o vizir perguntar se você tomou
da primeira tigela, confirme. Mostre a ele a garrafa com a sopa e diga: “Esta é
da segunda tigela. É para você”. O vizir morrerá ao bebê-la, e assim ambos
teremos nossa vingança.
Tudo ocorreu conforme o rei
disse. O vizir morreu, o sultão se recuperou e Hassee’boo se tornou um grande
médico, muito querido por todos.
GEORGE W. BATEMAN
Em Contos Folclóricos
Africanos Vol. 1
Aplicação prática para a vida
real (grifo nosso)
- Devemos ouvir e guardar os conselhos daqueles que sabem mais que nós, mesmo que pareçam estranhos.
- A fidelidade e a gratidão são valores que sustentam relações duradouras, ao passo que a traição, mais cedo ou mais tarde, cobra seu preço.
- A vida coloca-nos diante de provações (como o poço cheio de mel ou os falsos amigos), mas é na forma como reagimos a elas que se revela nosso destino.
- O verdadeiro sucesso não vem da ambição cega, mas da honestidade, da resiliência e do uso responsável do conhecimento.
👉 Em resumo: A ingratidão
e a desobediência destroem, mas a perseverança e o respeito à sabedoria
conduzem à verdadeira realização.
Sem comentários:
Enviar um comentário