Num ano em que havia pouca comida, o Cágado pegou no dinheiro que tinha economizado e foi a Nanhagaia onde comprou um saco de milho.
Quando voltava para casa, viu, a certa altura, um tronco de árvore atravessado no caminho. Como não conseguia passar por cima dele, atirou o saco de milho para o outro lado e depois foi dar a volta.
Quando estava a dar a volta, ouviu uma voz a gritar:
—Viva, viva, tenho um saco de milho que caiu lá de cima.
Era o Lagarto, que segurava o saco que o Cágado tinha atirado. O Cágado protestou:
—Não. O saco é meu. Comprei-o agora e vou levá-lo para casa.
O Lagarto não quis ouvir nada e levou o saco para casa dele, dizendo:
—Eu não o roubei a ninguém. Achei-o. Vou comer o milho porque encontrei o saco.
O Cágado ficou muito zangado mas não podia fazer nada. Cheio de fome, no dia seguinte foi com os filhos ver se encontrava alguma coisa para comer.
A certa altura, viram o rabo do Lagarto que saía de dentro de um buraco, só com o rabo de fora.
O Cágado agarrou no rabo e numa faca e preparou-se para o cortar. Depois de cortado, levou-o para casa e comeu-o com os filhos.
O Lagarto que, entretanto tinha conseguido sair do buraco, foi queixar-se ao responsável da aldeia:
—O Cágado cortou-me o rabo. Mande-o chamar para ele dizer por que é que me cortou o rabo. O responsável convocou o Cágado e perguntou-lhe:
—É verdade que tu cortaste o rabo ao Lagarto? O Cágado, que era muito esperto, disse:
—É verdade que eu encontrei um rabo perto de um buraco e o levei para casa para comer, mas não era de ninguém. Eu não vi mais nada senão o rabo.
—Mas o rabo era meu — gritou o Lagarto — tens de o pagar. O Cágado respondeu:
—Não, não pago. Eu fiz o mesmo que tu fizeste ontem. Tu ontem encontraste o meu saco de milho e comeste-o. Eu hoje encontrei o teu rabo e comi-o. Agora estamos pagos.
O responsável achou que ele tinha razão e mandou-os embora.
Fonte: Contos Moçambicanos: INLD, 1979
Este conto, “O Cágado e o Lagarto”, é de origem moçambicana, registrado na coletânea Contos Moçambicanos (INLD, 1979). Pertence ao género de fábulas africanas, onde animais personificados ilustram lições sobre justiça, esperteza e equilíbrio social. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
O Cágado não tinha como recuperar o saco de milho de forma convencional, mas usou a esperteza para equilibrar a situação. Na tradição africana, a inteligência prática é valorizada tanto quanto a força bruta. Mostrando que, a habilidade em resolver problemas de forma engenhosa é um recurso essencial para a vida diária.
O conto mostra que acções injustas devem ser compensadas ou equilibradas. O Cágado igualou o acto do Lagarto: quem age mal deve arcar com as consequências. Esta é uma visão africana de equilíbrio moral e social.
Portanto, a moral africana neste conto é que a inteligência e a reciprocidade são essenciais para equilibrar injustiças; quem age mal deve arcar com as consequências, e a comunidade tem o papel de garantir que a justiça seja cumprida.
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