NARRAÇÃO

domingo, 31 de agosto de 2025

29 - O ELEFANTE, ESCRAVO DO COELHO

 

Uma vez, o Coelho andava a passear e encontrou um grande ajuntamento de animais sentados à sombra de uma árvore. Cheio de curiosidade, quis logo saber do motivo daquela reunião e perguntou:

—Então o que é que se passa? Que novidades há por aqui? Um dos animais explicou:

—Trata-se de um milando e estamos à espera do Elefante, o nosso chefe, para o resolver.

—O quê?... O quê?... O Elefante vosso chefe? — perguntou o Coelho, franzindo a testa. E continuou:

—O Elefante não é chefe nenhum! O Elefante é meu escravo e leva-me sempre às costas a qualquer parte que eu queira!

Alguns do grupo admiraram-se:

—Como pode o Elefante ser teu escravo se tu és tão pequeno?

—O ser pequeno nada tem a ver com o meu valor — replicou o Coelho. E, em tom autoritário, acrescentou:

—Já vos disse e torno a dizer que o Elefante não é chefe, é meu escravo, e por isso, vocês podem ir embora daqui, que nesta coisa de resolver milandos ele não tem nada que se meter. Dito isto, o Coelho dirigiu os passos para sua casa e muitos dos animais foram-se também embora dali por terem acreditado nas suas palavras.

Algum tempo depois, chegou o Elefante e perguntou:

—Então onde estão os outros que aqui faltam? Atrasaram-se na viagem?

—Não! — explicaram-lhe os poucos animais que lá tinham ficado. — Os que aqui faltam foram-se embora há pouco tempo, porque passou neste lugar o Coelho e disse-nos que tu, Elefante, não és chefe, mas sim, um escravo dele.

O Elefante tremeu todo de indignação e, muito furioso, resmungou:

—Ah, Coelho malandro! Coelho vigarista!... Deixa lá que, hoje mesmo, me darás conta de palavras tão injuriosas e tão vis!...

Entretanto, o Coelho chegou a casa e fingiu-se doente. A mulher, cheia de pena, foi estender uma esteira e o Coelho deitou-se nela.

Daí a momentos chegou a Impala, que era cunhada do Coelho, avisando-o de que o Elefante já se aproximava para lhe fazer mal. E, transmitido o recado, retirou-se.

O Coelho, manhoso, entrou então em grandes convulsões, soltando, ao mesmo tempo, gemidos tão lastimosos que era mesmo de partir o coração.

Chegou o Elefante que se pôs a roncar, muito mal disposto:

—Ó Coelho, ó malandro, salta depressa cá para fora, que tens de me acompanhar. O Coelho murmurou, a gemer e entrecortando as palavras:

—Oh! Por... fa... vor! Des... cul... pe-me... porque eu... não... es...tou... bom!... dói-me mui...to... o cor... po to...do! Isto foi... um mal que me deu de re... pen... te...

—Não quero saber! Seja como for, tens de vir comigo ao lugar onde estão reunidos os outros animais, porque ouvi dizer que tiveste o descaramento de enxovalhar o meu título de chefe e de dizer que eu sou teu escravo — replicou o Elefante.

 —Tens to... da a ra... zão... mas o cer... to é que eu... não aguen... to ca... mi... nhar... para te po... der... acom... pa... nhar!

—Já te disse, tens de vir comigo, custe o que custar, mesmo que eu tenha de te levar às costas — ordenou o Elefante.

—Então só se for desse mo... do, mas fi... ca... sa... ben... do que mes... mo assim a via... gem me vai ser muito... pe... no... sa.

E, logo a seguir, chamou a mulher e disse, chorosamente:

—Dá cá a minha ca... mi... sa nova. Hi... Hi... Hi... Hi... vai tam... bém bus... car as minhas cal... ças no... vas. E, depois:

—Já a... go... ra, traz tam... bém os meus sa... pa... tos no... vos! É que po... de a... con... te... cer que eu morra e, ao me... nos, que... ro morrer com os meus tra... jes mais ricos.

Uma vez o Coelho vestido e calçado, o Elefante abaixou-se e o Coelho saltou-lhe para as costas, onde se instalou muito bem instalado.

Estava um calor de rachar pedras. Antes de partir, o Coelho gritou para a mulher:

—Ó mulher, dá-me cá a sombrinha porque está muito calor... e posso agravar os meus males com alguma insolação.

O Elefante, em grandes e rápidas passadas, pôs-se a caminho da reunião. Quando se aproximavam do lugar, o Coelho, deixando de fingir que estava doente, ensaiou uma atitude de pessoa importante e esboçou um sorriso feliz.

Os outros animais ao verem o Coelho assim todo solene e bem apresentado, às costas do Elefante, começaram todos com grandes exclamações:

—Olha! Olha!... Sempre é verdade o que o Coelho dizia. O Elefante é escravo dele... pois que o traz às costas.

Quando o Elefante parou, o Coelho deu um salto, muito ágil e elegante, para o chão e, tomando a palavra, dirigiu-se assim aos outros animais:

—Estão a ver?... Estão a ver?... Eu não vos dizia que o Elefante é o meu escravo? Todos os animais presentes romperam em grande gritaria, clamando:

—É verdade, sim senhor, é verdade. Tu, Elefante, não és chefe nenhum!... És escravo do Coelho pois o carregas às costas.

O Elefante só então deu pelo acto de estupidez que cometera e, cheio de vergonha, desandou dali para fora.

 

Fonte: Contos Moçambicanos: INLD, 1979

 Este conto, “O Elefante, Escravo do Coelho”, é de origem moçambicana, transmitido pela tradição oral e registrado em coleções de contos africanos. Faz parte do ciclo de fábulas em que animais antropomorfizados são usados para ensinar lições sobre astúcia, autoridade e manipulação social. (grifo nosso)

 

 

MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)

O conto ensina quatro lições importantes:

 1. A inteligência supera a força.

O Coelho, pequeno e aparentemente frágil, consegue enganar o Elefante e toda a comunidade usando astúcia e habilidade estratégica. Nas culturas africanas, a esperteza e a sagacidade podem permitir que os mais fracos contornem os mais fortes.

2. A aparência pode enganar.

O Coelho finge doença e sofrimento para manipular a percepção dos outros animais. O conto mostra que nem sempre a realidade é como parece; é preciso questionar e observar atentamente.

3. O prestígio social depende da percepção coletiva.

Quando os animais veem o Elefante carregando o Coelho, acreditam que o Coelho é superior. Isso simboliza que, em sociedades africanas, a reputação e o respeito muitas vezes se constroem por ações e aparências, não apenas por força ou tamanho.

4. A sagacidade é uma ferramenta de sobrevivência e influência.

O Coelho transforma uma situação arriscada em vantagem, mostrando que o uso inteligente de recursos e da situação é uma habilidade valorizada para manter prestígio e segurança.

 Em resumo: A moral é que astúcia, criatividade e percepção social podem superar a força física; a inteligência e a estratégia são ferramentas poderosas para alcançar objetivos e proteger-se de adversidades.

Sem comentários:

Enviar um comentário