NARRAÇÃO

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

7 - 👑 A RAINHA MAKENA E O JOGO DA JUSTIÇA

 

Provérbio: “A justiça é como o tambor: quando soa, todos ouvem.”

 

Nas terras férteis de Kibanza, onde o rio serpenteava entre campos verdes e palmeiras altíssimas, reinava Rainha Makena, conhecida tanto pela sua beleza quanto pela sua sabedoria. Era uma governante respeitada, que vestia tecidos tingidos com cores vivas, adornados de contas e búzios que tilintavam a cada movimento.

Makena herdara o trono de seu pai, o velho rei Omari, que sempre dizia:
— Minha filha, o trono é pesado, não por ser de ouro, mas porque carrega o peso das decisões.

Makena sabia que governar era um equilíbrio delicado entre a força e a justiça, entre o coração e a razão.

Certo dia, chegaram ao palácio dois homens da mesma aldeia: Kato, um camponês humilde de mãos calejadas, e Bakari, um comerciante rico e influente. Vieram em disputa por uma mesma terra próxima ao rio.

Kato inclinou-se diante da rainha e falou:
— Ó, mãe do povo, essa terra foi de meu pai e de meu avô. Nela plantei mandioca, sorgo e milho. Mas Bakari veio, com seus homens, e cercou tudo como se fosse dele.

Bakari, de túnica bordada e colares de marfim, ergueu-se orgulhoso:
— Grande rainha, essa terra não pertence a Kato. Eu a comprei de um caçador que a possuía há muitos anos. Tenho testemunhas que podem confirmar.

O salão ficou em silêncio. Os tambores pararam, e todos os olhos estavam fixos em Makena. Ela não se deixou abalar pelo tom arrogante de Bakari nem pela voz suplicante de Kato. Em vez de decidir de imediato, respirou fundo e disse:

— A verdade tem sempre duas faces. Amanhã, ao nascer do sol, encontraremo-nos junto à terra em disputa. Ali a justiça será decidida.

Na manhã seguinte, o sol pintava o horizonte com tons dourados, e o povo reunia-se ao redor da terra contestada. Rainha Makena chegou acompanhada de anciãos, guardas e tambores que batiam um ritmo solene.

Ela desenhou um grande círculo no chão e colocou um tambor de madeira entalhada no centro. Então, declarou:

— O tambor representa a justiça. Quem conseguir mover o tambor para fora do círculo, com a força da verdade, será o verdadeiro dono da terra.

Kato e Bakari se entreolharam, confusos. O tambor era pesado, mas não impossível de mover. Bakari, com seu físico robusto, foi o primeiro. Com força, empurrou o tambor para fora do círculo. O povo murmurou, alguns até aplaudiram.

— Eis a prova, ó rainha! — disse Bakari, suado, mas sorridente. — Assim como movi o tambor, assim conquistei a terra.

Makena, porém, não disse nada. Apenas mandou que o tambor fosse recolocado no centro. Então, chamou Kato.

O camponês, hesitante, aproximou-se. Em vez de empurrar o tambor, ajoelhou-se diante dele e bateu suavemente na madeira. Um som profundo ecoou, ressoando pela planície. As crianças sorriram, os pássaros voaram, e até os anciãos fecharam os olhos, lembrando-se de antigos rituais.

Kato olhou para a rainha e disse:
— Não é a força dos braços que move a justiça, mas a voz do coração. Esse tambor foi feito com a madeira da terra em disputa. Conheço sua canção porque meu pai e meu avô dançaram ao redor dele. Essa terra é minha herança, e sua música vive em mim.

O silêncio que se seguiu foi profundo, quebrado apenas pelo eco do tambor.

Makena levantou-se com imponência, sua voz clara como o som da água batendo nas pedras do rio:

— Bakari, compraste uma terra que não podia ser vendida. Um caçador não pode negociar o que nunca lhe pertenceu. A força pode mover objetos, mas não pode mover a verdade. Kato mostrou que a terra vive nele, e ele na terra. Portanto, declaro Kato como legítimo dono.

Bakari tentou protestar, mas o povo começou a bater palmas e a entoar cânticos em honra da rainha.

— A justiça é como o tambor: quando soa, todos ouvem — repetiu Makena, encerrando a disputa.

Nos dias que se seguiram, a fama de Rainha Makena espalhou-se ainda mais. Diziam que ela não apenas governava, mas ouvia a terra, o povo e os espíritos dos ancestrais. Bakari, envergonhado, aprendeu a respeitar os limites de sua ambição. Kato voltou às suas plantações, agradecido, e ensinou aos filhos que a justiça pode tardar, mas sempre se levanta como o sol.

 

 

MORAL DA HISTÓRIA

 Rainha Makena mostrou que a justiça verdadeira não se mede pela força ou pela riqueza, mas pelo respeito à memória, à terra e à comunidade. O provérbio “A justiça é como o tambor: quando soa, todos ouvem” recorda que, na tradição africana, a decisão justa não beneficia apenas um indivíduo — ela ressoa em todo o povo, trazendo equilíbrio e paz.

 Na cultura africana, a terra não é apenas recurso: é herança, memória e vida. Quem tenta comprá-la ou cercá-la com arrogância esquece que ela pertence também aos ancestrais e às gerações futuras. Makena ensinou que a justiça precisa estar enraizada na verdade, não no poder ou na astúcia.

 Assim como o tambor, que quando tocado ecoa para todos, a justiça quando feita ilumina o coletivo. Governar ou viver em comunidade é ouvir os diferentes lados, respeitar a tradição e garantir que o mais humilde tenha voz diante do mais poderoso. Na África — onde o som do tambor une, celebra e convoca — a justiça deve ser essa mesma batida: firme, clara e para todos ouvirem.


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