Provérbio: “A justiça é como o tambor: quando soa, todos ouvem.”
Nas terras
férteis de Kibanza, onde o rio serpenteava entre campos verdes e
palmeiras altíssimas, reinava Rainha Makena, conhecida tanto pela sua
beleza quanto pela sua sabedoria. Era uma governante respeitada, que vestia
tecidos tingidos com cores vivas, adornados de contas e búzios que tilintavam a
cada movimento.
Makena herdara
o trono de seu pai, o velho rei Omari, que sempre dizia:
— Minha filha, o trono é pesado, não por ser de ouro, mas porque carrega o peso
das decisões.
Makena sabia
que governar era um equilíbrio delicado entre a força e a justiça, entre o
coração e a razão.
Certo dia,
chegaram ao palácio dois homens da mesma aldeia: Kato, um camponês
humilde de mãos calejadas, e Bakari, um comerciante rico e influente.
Vieram em disputa por uma mesma terra próxima ao rio.
Kato inclinou-se diante da rainha e falou:
— Ó, mãe do povo, essa terra foi de meu pai e de meu avô. Nela plantei
mandioca, sorgo e milho. Mas Bakari veio, com seus homens, e cercou tudo como
se fosse dele.
Bakari, de
túnica bordada e colares de marfim, ergueu-se orgulhoso:
— Grande rainha, essa terra não pertence a Kato. Eu a comprei de um caçador que
a possuía há muitos anos. Tenho testemunhas que podem confirmar.
O salão ficou
em silêncio. Os tambores pararam, e todos os olhos estavam fixos em Makena. Ela
não se deixou abalar pelo tom arrogante de Bakari nem pela voz suplicante de
Kato. Em vez de decidir de imediato, respirou fundo e disse:
— A verdade
tem sempre duas faces. Amanhã, ao nascer do sol, encontraremo-nos junto à terra
em disputa. Ali a justiça será decidida.
Na manhã
seguinte, o sol pintava o horizonte com tons dourados, e o povo reunia-se ao
redor da terra contestada. Rainha Makena chegou acompanhada de anciãos, guardas
e tambores que batiam um ritmo solene.
Ela desenhou
um grande círculo no chão e colocou um tambor de madeira entalhada no
centro. Então, declarou:
— O tambor
representa a justiça. Quem conseguir mover o tambor para fora do círculo, com a
força da verdade, será o verdadeiro dono da terra.
Kato e Bakari
se entreolharam, confusos. O tambor era pesado, mas não impossível de mover.
Bakari, com seu físico robusto, foi o primeiro. Com força, empurrou o tambor
para fora do círculo. O povo murmurou, alguns até aplaudiram.
— Eis a prova,
ó rainha! — disse Bakari, suado, mas sorridente. — Assim como movi o tambor,
assim conquistei a terra.
Makena, porém,
não disse nada. Apenas mandou que o tambor fosse recolocado no centro. Então,
chamou Kato.
O camponês,
hesitante, aproximou-se. Em vez de empurrar o tambor, ajoelhou-se diante dele e
bateu suavemente na madeira. Um som profundo ecoou, ressoando pela planície. As
crianças sorriram, os pássaros voaram, e até os anciãos fecharam os olhos,
lembrando-se de antigos rituais.
Kato olhou para a rainha e disse:
— Não é a força dos braços que move a justiça, mas a voz do coração. Esse
tambor foi feito com a madeira da terra em disputa. Conheço sua canção porque
meu pai e meu avô dançaram ao redor dele. Essa terra é minha herança, e sua
música vive em mim.
O silêncio que
se seguiu foi profundo, quebrado apenas pelo eco do tambor.
Makena
levantou-se com imponência, sua voz clara como o som da água batendo nas pedras
do rio:
— Bakari,
compraste uma terra que não podia ser vendida. Um caçador não pode negociar o
que nunca lhe pertenceu. A força pode mover objetos, mas não pode mover a
verdade. Kato mostrou que a terra vive nele, e ele na terra. Portanto, declaro
Kato como legítimo dono.
Bakari tentou
protestar, mas o povo começou a bater palmas e a entoar cânticos em honra da
rainha.
— A justiça é
como o tambor: quando soa, todos ouvem — repetiu Makena, encerrando a disputa.
Nos dias que
se seguiram, a fama de Rainha Makena espalhou-se ainda mais. Diziam que ela não
apenas governava, mas ouvia a terra, o povo e os espíritos dos ancestrais.
Bakari, envergonhado, aprendeu a respeitar os limites de sua ambição. Kato
voltou às suas plantações, agradecido, e ensinou aos filhos que a justiça pode
tardar, mas sempre se levanta como o sol.
MORAL DA HISTÓRIA
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