Este conto se passa em tempos pré-históricos, quando todos os animais, inclusive os de organismos inferiores, podiam se unir a homens, até mesmo em casamento. Mbwa era o animal, tanto em forma como em linguagem, hoje chamado de cachorro, mas que também tinha a capacidade de comunicar-se como um humano. Esta é a história de como esse ancestral dos cães deixou a nação dos animais. Embora cachorros vivam junto aos seres humanos hoje em dia, não têm mais a capacidade que seus ancestrais possuíam, de falar como gente. Só o que conseguem dizer é “Au-au!”.
O cachorro Mbwa e sua mãe eram os únicos habitantes de sua aldeia. Mbwa era capaz de falar tanto com animais como com humanos.
—Você já é adulto e forte — disse um dia sua mãe. — Está na hora de se casar. Vá e peça Eyâle, filha de Njambo, em casamento.
—Irei amanhã — respondeu o cachorro.
O dia escureceu e foram dormir. Logo a madrugada veio e um novo dia começava a despontar.
—Chegou a hora de eu partir — disse Mbwa.
Amanhecia quando ele começou sua jornada. Percorreu cerca de treze quilómetro e chegou ao seu destino antes do meio-dia.
Foi à casa de Njambo, pai de Eyâle. Lá, foi cumprimentado pelo anfitrião e sua esposa.
—Olá, Mbwa!
—Olá!
—Qual a razão de sua visita, meu amigo? — perguntou Njambo.
—Vim para me casar com sua filha Eyâle — respondeu o cão em linguagem humana.
Njambo consentiu e a mãe da garota também ficou satisfeita com a união. Chamaram a pretendida para saber o que ela pensava da proposta.
—Aceito! De todo o meu coração! — disse.
A jovem era bela tanto de rosto como de corpo. E todos estavam de acordo quanto ao casamento.
Ao cair da noite reuniram-se para jantar. Sem saber o motivo, o cachorro não conseguiu comer.
O dia escureceu e foram dormir. Mbwa costumava acordar sempre uma hora antes do amanhecer, mas naquele dia dormiu até mais tarde.
A mãe da noiva disse à sua filha:
—Prepare um pouco de água para que seu noivo lave o rosto quando acordar. Vou à plantação que fica na floresta buscar comida para ele, já que ainda não comeu nada desde que chegou.
E acrescentou:
—Peça aos criados que matem uma galinha para o almoço. E você, triture sementes de cabaça e faça um pudim de sobremesa.
Entregou o prato com as sementes para Eyâle e saiu para a floresta. Njambo a acompanhou, pois também tinha seus afazeres. A jovem sentou-se com as sementes e começou a descascá-las. Jogava os miolos limpos no chão e colocava as cascas em um prato.
Mbwa acordou pouco tempo depois de os donos da casa terem saído. Levantou-se e foi procurar sua noiva. Ficou ao lado dela, observando-a descascar as sementes. Em silêncio, notou que ela descartava o miolo, que era a parte boa, e guardava as cascas em um prato.
—Não é assim que se faz, mulher! — disse em linguagem humana. — Por que joga a parte boa no chão e guarda essas cascas inúteis?
Enquanto o cachorro falava, Eyâle subitamente caiu no chão. Estava morta. Mbwa curvou-se para tentar levantá-la, mas foi inútil. Já não havia o que fazer.
Pouco depois o pai e mãe da jovem retornaram de suas tarefas. Encontraram a filha morta e gritaram:
—Mbwa! O que aconteceu?
—Não sei dizer — respondeu em linguagem canina.
—Diga-nos o que houve! — insistiram os pais. Mbwa então lhes falou na língua dos humanos:
—Você, mulher, foi à floresta enquanto eu dormia. E você, homem, também saiu, acompanhando sua esposa, antes que eu acordasse. Quando me levantei, encontrei minha noiva descascando sementes. Ela jogava os miolos limpos ao chão e guardava as cascas. Eu disse a ela que o que comemos são os grãos que ela estava descartando, e não as cascas.
Enquanto ele deva essa explicação, os dois também caíram ao chão, mortos sem motivo aparente.
Quando as pessoas da cidade souberam do caso, disseram:
—O cachorro tem uma poção maligna para matar pessoas. Deve ser capturado e morto!
Mbwa rapidamente fugiu pela floresta e voltou para a aldeia onde vivia com sua mãe. Seu corpo estava cheio de cortes e arranhões causados pelos arbustos espinhosos que atravessara em sua fuga.
—Mbwa! O que aconteceu? Por que está assim tão esbaforido? E todo machucado! — exclamou sua mãe ao vê-lo.
—Não! Não vou contar! Não direi mais nada!
—Por favor, meu filho! Conte-me! — implorou sua mãe.
Finalmente Mbwa concordou e, usando a linguagem dos humanos, começou a explicar:
—Contarei o que houve, minha mãe. Njambo e sua esposa me aceitaram como genro, e Eyâle também gostou muito de mim. Enquanto eu dormia, o casal foi à floresta. Quando acordei, encontrei minha noiva descascando sementes de cabaça, só que ela jogava os grãos no chão e guardava as cascas. Então disse a ela que estava desperdiçando a parte boa da semente. E ela morreu de repente.
Enquanto falava com sua mãe, ela também caiu morta ao chão. As notícias de seu falecimento chegaram até a cidade do tio de Mbwa, e muitas pessoas vieram para o funeral.
—Mbwa! O que aconteceu? — perguntou seu tio. O cachorro não respondeu. Apenas disse:
—Não!
Imploraram por uma explicação.
—Por favor, conte-nos o que houve.
—Não! Não falarei mais nada — respondeu Mbwa.
Como insistiram muito, Mbwa concordou em falar com dois deles. Pediu que o restante ficasse onde estavam e observassem a conversa de longe. Então falou com os dois usando o mesmo idioma que usara com sua mãe. E da mesma forma, ambos caíram fulminados.
—Não! — exclamou Mbwa. — As pessoas morrem quando eu falo em linguagem humana!
—Sim, Mbwa — concordaram os outros. — O idioma dos homens mata as pessoas. Não fale mais.
E Mbwa partiu para viver junto dos homens.
ROBERT HAMILL NASSAU
Em Contos Folclóricos Africanos Vol. 2
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
Na tradição africana, a palavra tem força vital: pode curar ou matar, unir ou destruir, proteger ou condenar. Por isso os mais velhos dizem que a língua é mais afiada que a lança. O cachorro Mbwa descobriu da pior maneira que há palavras que não se podem dizer, e que falar sem prudência pode trazer desgraça.
O conto ensina três lições fundamentais da sabedoria africana:
l A responsabilidade da fala – na aldeia, cada palavra carrega consequências. Quem fala deve medir o peso do que diz, porque uma frase mal colocada pode gerar conflitos, mortes e rupturas sociais. Assim como Mbwa matou sem querer, muitos humanos ferem sem perceber.
l O silêncio como proteção – às vezes, o silêncio preserva a vida e a harmonia. Em muitas culturas africanas, o silêncio é considerado também uma forma de sabedoria, pois evita que a palavra imprudente se torne veneno.
l O dom e o limite da convivência – Mbwa quis viver entre os homens, mas a incapacidade de controlar a sua fala o afastou da comunidade. O conto lembra que viver em sociedade exige autocontrole, respeito ao coletivo e consciência de que nem tudo deve ser dito.
No fundo, a história ensina que a língua é poder: quem a usa mal destrói, quem a usa bem fortalece a comunidade.
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