Há muitos anos vivia no rio Geba um terrível Crocodilo chamado Dinka. Era tão sanguinário que não tinha igual. Por isso, o Leão Sumba cedeu-lhe o lugar de rei dos animais. Dinka era respeitado por todos os animais, mas os homens o detestavam. Não passava uma semana sem apanhar uma pessoa.
Alguns Caçadores mais valentes tentaram matá-lo, mas não conseguiram. Dinka era o mais astuto de todos. Ele passava dias a nadar perto da margem, mas sem subir. Sabia muito bem que os homens eram manhosos e talvez pudessem atacá-lo. Aparecia repentinamente, apanhava uma lavadeira e desaparecia novamente.
As pessoas sentem- se desanimadas. Desesperados, o rei Seni reuniu toda a população e disse-lhes:
Quem conseguir matar e tirar a pele do Dinka receberá metade do seu reino e umas das minhas filhas como esposa. Ninguém se atreveu a aceitar o desafio a não ser um jovem chamado Sidibé. Ele não era tão forte, mas muito corajoso.
Sidibé pensou: Dinka é manhoso, para vencê-lo é preciso muita coragem.
Sidibé arranjou uma lança e um escudo de madeira e pôs- se a passear ao longo do rio.
Os animais estranharam o comportamento de Sidibé e enviaram o Leão Sumba para interrogá-lo.
–Por que é que estás a passear por aqui? - Perguntou o Leão.
–Vou caçar o Crocodilo Dinka e forrar o meu escudo com a pele dele.
–Respondeu- lhe Sidibé.
–E quando é que você pensa em fazer isso?
–Em breve, durante a lua cheia. Porque acho que nessa altura será mais fácil de encontrar.
Quando o Crocodilo soube disso riu- se, mas à medida que a lua crescia ele ficava mais preocupado. Sabia muito bem que os homens eram perigosos e talvez ainda pudessem atacá-lo com suas lanças. Dinka decidiu subir à margem do rio e atacar Sidibé. Este fugiu rapidamente para cima de uma árvore que havia ao pé do rio e assustado disse:
–Ainda não chegou a hora! A lua só ficará cheia na próxima noite!
–E o que acontecerá na próxima noite? - Perguntou Dinka furioso.
–Será o teu fim, Crocodilo maldito! - respondeu-lhe Sidibé.
–Pensas matar-me?
–Eu?!... Bem gostaria, mas não sou suficientemente forte para isso.
–Respondeu Sidibé tentando enganar Dinka.
–Se não tivesse subido à árvore já te teria comido há muito tempo, mas hei de conseguir apanhar-te!
Cansado de esperar, o Crocodilo voltou para a água aguardando pelo dia seguinte, porque estava convencido que iria vencer Sidibé. Entretanto, Sidibé desceu da árvore e regressou a sua casa.
Na noite seguinte a lua estava bem cheia. Sidibé decidiu utilizar uma nova estratégia para vencer Dinka. Além da lança, levou consigo um enorme espelho que o feiticeiro da tabanca tinha lhe oferecido. Tudo o que nele se refletia parecia ter tamanho dobro.
Naquela noite, a lua iluminava a margem do rio e Dinka saiu novamente da água para atacar Sidibé. Este já o esperava, pacientemente em cima da árvore. Assim que vê Dinka aproximar- se, Sidibé faz descer o espelho por uma corda até ao pé da árvore. Dinka ao ver a sua imagem aumentada pensou que era um outro Crocodilo.
Nesse instante, Sidibé aproveitou para enfiar-lhe a lança num dos olhos. Dinka assustado com o tamanho do rival quase sem poder ver ficou perdido e Sidibé acabou por o matar. Em seguida, arrancou a pele do Crocodilo, forrou o seu escudo e o levou ao rei Seni.
E foi assim, que ele recebeu a metade do reino, casou- se com a princesa de sua escolha e viveram felizes para sempre.
O conto “Dinka, o Terrível” é de origem africana, mais precisamente da tradição oral da Guiné-Bissau, onde é frequentemente contado em crioulo ou em português popular. Ele foi recolhido e publicado em versões escritas por autores ligados à preservação da literatura oral guineense, como Feliciano Campos e outros investigadores da cultura local. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA (grifo nosso)
A história mostra que a força nem sempre é suficiente para vencer um inimigo poderoso; a coragem aliada à astúcia e à inteligência pode derrotar até o mais temido adversário. Sidibé não tinha a força de Dinka, mas soube usar a estratégia, a paciência e o espelho mágico para transformar o medo em oportunidade.
A lição é clara: na vida, quem enfrenta os problemas com sabedoria, criatividade e coragem encontra soluções que a força bruta sozinha jamais alcançaria.
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