Há muitos anos na povoação de Sintcham Botché, província localizada no leste da Guiné- Bissau, vivia um homem de nome Samba. Ele era muito respeitado na sua aldeia assim como nas tabancas vizinhas por ser um homem humilde e trabalhador.
A cada estação chuvosa, o Samba tinha o hábito de cultivar dez campos de mandioca, batata doce, milho e entre outros produtos alimentares etc…
Ele tinha o seu amigo de infância, chamado Bacar, a quem se divertiam compartilhando as preocupações e os sentimentos da vida.
Como na etnia Fula, quem tem o direito de dar sua filha em casamento é o pai. O Bacar prometeu ao seu amigo que se ele viesse a ter uma filha, lhe daria em casamento como ele era solteiro.
Mas a tradição deles recomenda que se alguém prometer dar a você uma menina em casamento, a pessoa que deve se casar com a moça deve trabalhar cinco anos para o pai da mulher como recompensa do casamento.
O Samba não hesitou, aceitou a proposta, passou a tirar dois dos seus campos e dar ao Bacar em cada período do cultivo, trabalhando assim para ele.
Os anos se passaram e o Bacar conseguiu ter uma menina, a quem colocou o nome de Binta. Ela era tão linda, de forma que todos os moradores da aldeia comentavam sobre sua beleza.
O Bacar por sua vez foi a casa do Samba dizer-lhe que a promessa já tinha sido cumprida somente faltava o dia de colocar tudo na prática, tomou mais dinheiro nas mãos do Samba para o sustento da menina e compra dos materiais escolares posteriormente, assim que essa atingisse a idade de ir para a escola.
A Binta quando concluiu o Ensino Médio tinha apenas quinze anos e já era uma mocinha. O Samba num dos dias foi a casa do Bacar explicou-lhe que a moça amadureceu e aquele momento era o certo para realizarem o casamento. O Bacar aceitou, mas sem o consentimento de Binta que não sabia nada que estava rolando.
Combinaram o dia do casamento e nesta data, o Samba veio com os seus familiares e o Bacar também chamou sua família e se reuniram, Samba tinha trazido os mais outros dotes que o pai da menina tinha pedido a ele conforme recomendado às suas tradições.
Ao tomar a palavra na reunião, o Bacar disse para a filha:
–Binta esse homem que se sentou à sua frente chama- se Samba é o seu marido, estamos aqui reunidos para celebrar o casamento de vocês, passou a palavra ao Samba que falou sobre o mesmo assunto.
Binta por sua vez ao se pronunciar disse:
–Eu! Binta baldé, não vou me casar com um homem pobre e que passa toda a sua vida a curvar- se. Eu, uma mulher lindíssima e muito bem esclarecida. O pai ficou envergonhado perante a multidão e foi assim que se deu por encerrada a reunião.
A notícia se espalhou por toda a região leste da Guiné- Bissau.
Passados alguns meses, o Adulai um jovem da mesma tabanca, apareceu na casa do Bacar muito bem-vestido para montado no seu cavalo e com seus seguranças foi pedir a mão de Binta em casamento, o pai não queria aceitar a proposta, mas a menina vendo aquele jovem tão elegante pressionou o paia a aceitar.
Casaram-se- se e a festa do casamento deles foi a melhor que chegou a ser realizada naquela aldeia, tinha tudo o que era preciso para celebrar um casamento. A Binta e o seu marido Adulai moravam na mesma tabanca com o Samba.
Foram muito felizes e no sétimo de recém-casados a fome abalou a tabanca. Mas, não era o caso da casa deles, porque tinham muita quantidade de mandioca em casa.
O marido da Binta não fazia nenhum trabalho durante o dia, só costumava sair a noite, a mulher não conhecia o seu local de serviço…
Um dia, o Adulai pediu a Binta que lhe acompanhasse no seu novo campo que iria pegar mandioca, foram lá, duas, três vezes e quando voltaram pela quarta vez foram pegos no flagra pelo Samba que lhes perguntou o que estariam fazendo no seu campo. O Marido da Binta começou a tremer e não tinha mais a boca para falar, a mulher ao seu lado começou a chorar e se ajoelhou à frente do Samba e começou a pedir desculpas dizendo que não sabia que aquele campo era do melhor agricultor da aldeia.
O Samba, como era uma pessoa de bom coração, perdoou-lhes oferecendo mais mandioca a eles. Foi assim que Binta e o Adulai se divorciaram, porque a mulher descobriu que o seu marido era ladrão.
Esse conto, “Nem Tudo o Que Brilha é Ouro”, também vem da tradição oral guineense, mais especificamente da região leste da Guiné-Bissau, preservando elementos das práticas e valores culturais das etnias locais, como os Fula. Ele mistura costumes (casamentos arranjados, promessas, dotes) com lições de vida transmitidas de geração em geração. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA
A narrativa ensina que a verdadeira riqueza não está na aparência, mas no caráter e no trabalho honesto. Binta, seduzida pelo brilho de Adulai e desprezando a humildade de Samba, descobriu tarde demais que o suposto “homem elegante” vivia da mentira e do roubo. Já Samba, trabalhador e íntegro, mostrou que a dignidade vale mais que a ostentação passageira.
A lição é clara: quem valoriza apenas o que brilha pode acabar preso à ilusão, enquanto a verdadeira nobreza está na simplicidade, no esforço e na retidão. (grifo nosso)
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