O Rei Leão tinha uma linda filha, que se queria casar, mas não tinha namorado. Um dia o lobo (hiena) passou pelo portão do palácio do Rei, e viu a princesa que estava a apanhar flores e a cantar, e ficou logo apaixonado por ela. O lebrão (macho da lebre) também passou por lá e ao ver a princesa também ficou apaixonado por ela.
–É mesmo com esta princesa que eu me vou casar - pensou alto o lebrão, quando a viu. Como o palácio tinha guardas, que não os deixavam entrar, o lobo e o lebrão passaram a andar à volta do palácio, para ver se conseguiam falar com a princesa. Um dia o lobo e o lebrão encontraram-se os dois, junto ao muro do palácio.
–O que fazes aqui? – perguntou o lebrão.
–Queria ver a princesa, ela é mesmo bonita e tem uma voz tão doce! – disse o lobo suspirando.
–Eu também a vi no jardim, gostei muito dela, e quero me casar com ela – disse o lebrão.
–Tu também? Quem vai se casar com a princesa, sou eu! – exclamou o lobo.
–Não sei como vamos conseguir falar com ela. Os guardas não deixam passar ninguém…
–comentou o lebrão.
A girafa, que estava de sentinela junto ao muro, ouviu a conversa, e com o seu pescoço comprido espreitou, viu o lobo e o lebrão, e disse:
–O que querem daqui? Vão-se embora.
–Cala-te, garganta comprida – respondeu o lobo.
–Ambos gostamos da princesa e queremos nos casar com ela – disse o lebrão. A girafa foi contar ao Rei, e este mandou chamar o lobo e o lebrão, e disse:
–A minha filha aceita casar-se com um de vocês, mas têm que fazer uma luta sem armas. Só poderão usar a força do corpo e ela se casará com quem vencer. Ao vencedor, eu darei a minha filha para casar-se, dois bois e um lugar no palácio para ele viver. A luta será amanhã às dez horas.
O lobo todo contente disse logo:
–Hé! Hé! Eu é que vou me casar com a princesa, pois sou o mais forte.
No dia seguinte, às sete horas da manhã, o lobo já lá estava com o seu grupo, à porta do palácio, a tocar tambor e a dançarem de contentes, pois tinham a certeza de que o lobo ia ganhar a luta, mas o lebrão era muito esperto e não desistiu.
–Huuum..., tenho que arranjar uma maneira de vencer o lobo – pensava alto o lebrão. – Já sei! Vou meter-lhe tanto medo, que ele vai fugir! – disse o lebrão para o seu grupo. O lebrão arranjou umas braceletes para os braços e para o corpo, para parecer mais forte, pôs-se em cima dos ombros do macaco e vestiu uma camisa comprida, para esconder o macaco, e assim ficou a parecer um gigante.
O grupo do lobo ouviu tambores e viu poeira ao longe, e um deles disse:
-Vem aí o lebrão mais o seu grupo. O lobo levantou-se, olhou, e viu um grupo de animais que se aproximava, trazendo à sua frente um animal enorme, e disse:
–Não pode ser. O lebrão não é assim tão grande, o lebrão é pequeno. Vai lá ver quem é. O amigo do lobo foi ver e voltou a correr gritando:
–É mesmo o lebrão, cresceu muito, agora é um gigante, fujam, fujam. Cheios de medo, o lobo e o seu grupo, largaram a fuga.
E foi assim que o lebrão conseguiu casar-se com a princesa e ficar a viver no palácio do Rei.
J.Carlos M. Fortunato
Esse conto, “O Casamento do Lebrão”, pertence ao imaginário da tradição oral africana, também contado na Guiné-Bissau e em outros países da África Ocidental, onde a lebre (ou o lebrão) costuma ser símbolo da esperteza, enquanto o lobo ou a hiena representam a força bruta e a arrogância. É uma narrativa que segue a linha das fábulas, onde a astúcia se sobrepõe à força. (grifo nosso)
MORAL DA HISTÓRIA
O conto mostra que não é sempre o mais forte que vence, mas sim aquele que sabe usar a inteligência e a criatividade. O lobo, convencido da sua força, subestimou o lebrão, que usou a astúcia para criar uma ilusão e assustar o rival.
A lição é clara: na vida, a esperteza e a sabedoria podem abrir caminhos onde a força física sozinha falha. (grifo nosso)
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