NARRAÇÃO

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

42 - A LEBRE E O LOBO NÃO TÊM FOME


No tempo de fome, Lebre nada tinha para comer, ela e o seu filho passavam fome. Como não conseguia encontrar nenhuma comida perto de casa, a Lebre decidiu partir à procura de comida em outros locais.

-Meu filho, tenho que ir procurar comida, mas vou voltar o mais rápido possível que puder - disse a Lebre ao filho. A Lebre procurou por toda a parte, contudo não encontrou nenhuma comida, pois era o tempo da fome e em nenhum lado havia comida. Mas ela descobriu que o Lobo tinha muita comida na casa dele, mais do que precisava. Apesar de saber que o Lobo era mau, que nunca dava nada a ninguém, e até podia comer ela, a Lebre foi bater à porta do Lobo e pedir-lhe um pouco de comida, para levar o seu filho.

-Eu só vou dar-te um pouco de comida, depois você terá de trabalhar para mim, a partir de agora você ficará trabalhando aqui- disse o Lobo.

-Está bem - respondeu a Lebre.

-Esta noite, você ficará de guarda na minha casa, para não roubarem nada, mas não toque na casa do meu vizinho Leão - disse o Lobo.

-Por quê, perguntou a Lebre

-Porque o Leão é invejoso, arrogante e muito bruto - respondeu o Lobo.

Durante a noite, quando todos dormiram, a Lebre foi para a casa do Leão, roubou o filho dele e escondeu- o na casa do Lobo. Quando chegou a manhã, o filho do Leão começou a chorar, pois estava cheio de fome. O Lobo, ao ver o filho do Leão na sua a chorar, ficou muito aflito sem saber o que fazer, pois tinha muito medo do Leão. - Como veio o filho do Leão, parar aqui? O que vou fazer agora? Será melhor escondê-lo? - dizia o Lobo, andando de um lado para o outro, sem saber o que fazer.

O Leão falava pouco e não gostava de brincadeiras, ficou furioso quando ouviu o filho chorando na casa do lobo. - Como se atreve o lobo a roubar o meu filho? - Gritou o Leão e correu para a casa do Lobo. O Lobo nem teve tempo de dizer nada, porque o Leão estava enfurecido arrebentou a porta do Lobo e deu-lhe algumas estaladas.

O Lobo fugiu, e o Leão correu atrás dele, mas o seu filho começou a chorar e o Leão voltou para junto do filho. Ao ver o Lobo fugir, a Lebre deu pulos de contente, porque agora tinha comida e podia ficar a viver na casa do Lobo, pois o lobo nunca voltaria por ter medo do Leão, a Lebre correu para ir buscar o filho. Como o lobo tinha muita comida, a Lebre dividiu- a com os outros animais que tinham fome. E foi assim que a Lebre se livrou do Lobo e conseguiu muita comida.

 

 J.Carlos M. Fortunato

 

Esse conto tem a marca clara da tradição oral africana, em particular da África subsaariana, onde a Lebre (ou coelho) aparece frequentemente como personagem astuta, enganadora e sobrevivente — equivalente ao Anansi (a aranha) na África Ocidental ou ao coelho dos contos bantu da África Central e Austral. A presença de animais como o Leão (símbolo de força e poder) e o Lobo (figura de ganância e egoísmo, ainda que não seja nativo da fauna africana, provavelmente incluído por influência de traduções coloniais ou adaptações) reforça essa ligação. O conto dificilmente tem um autor individual — é mais provável que seja uma narrativa popular, passada de geração em geração, depois recolhida ou adaptada por algum compilador de contos africanos ou afro-diaspóricos. (grifo nosso)

 

 

MORAL DA HISTÓRIA

 A esperteza pode derrotar a força e a ganância quando usada em favor da sobrevivência e da comunidade; a Lebre, mesmo sendo pequena e frágil, conseguiu enganar o Lobo e até manipular o Leão para se livrar da opressão e repartir comida com os outros animais.

A lição é que, em tempos de fome e dificuldade, a inteligência, a solidariedade e a partilha podem valer mais do que o poder e a violência. (grifo nosso)

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