NARRAÇÃO

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

43 - A HIENA, A LEBRE E O VISCO


Um dia, a Hiena e a Lebre combinaram ir pescar à gamboa. A Lebre agarrou na sua gamboa e colocou na bolanha. A Hiena agarrou na dela e colocou no mar. De madrugada a Lebre se levantou- se e foi ver as gamboas, quando lá chegou reparou que a sua gamboa só tinha apanhado Sapos. Depois foi à gamboa da Hiena e viu que estava cheia de peixes.

A Lebre voltou para trás, foi buscar os Sapos à sua gamboa e pô-los na gamboa da Hiena. Agarrou os peixes que estavam na gamboa da Hiena e colocou na sua. Feito isso A Lebre foi correr para sua casa. Ao passar pela porta do Hiena bateu e chamou - a para que fossem ver as suas gamboas. A Hiena respondeu lá dentro:

Então já amanheceu?

-Claro! Respondeu a Lebre. Ao chegarem, a primeira por onde passaram foi a da Lebre.

A Hiena exclamou:

-A tua gamboa está cheia de peixes. Duvido que a minha tenha apanhado tantos peixes assim!

Quando chegou à sua gamboa, a Hiena só viu sapos. - Embora a sua gamboa estivesse no mar e a da Lebre na bolanha. Bom… Todos os dias a Lebre apanhava peixes e a Hiena encontrava apenas sapos na sua gamboa. Os dias foram passando, até que a Hiena furiosa voltou - se para a Lebre:

-Mas quem é que anda a me fazer este trabalho? A

-Sabe o que você deve fazer? Vai ao mouro, disse a Lebre. Mal amanheceu o dia, a Hiena foi consultar o mouro, que lhe falou assim:

-Tem que ir ao Visco durante um mês, quando completar exatamente um mês, vá colocá- lo no mar. Arranja um tronco, você deve polir o tronco todo com o Visco, Põe- lhe um capacete em cima e deixa lá. A Hiena assim fez, pôs o pau com Visco no. De madrugada, a Lebre se levantou- se e foi ao mar. Ao chegar viu aquele vulto na gamboa da Hiena e começou a dizer:

-Parece que aquele anda na gamboa da tia.

-Ah, então era você que vinha cá todos os dias! Claro que a Lebre não sabia do que se tratava. Vira- se para o pau aponta-lhe o dedo, ainda sem saber que aquilo é um tronco com Visco.

-Olha, se você não falar vai levar uma bofetada. O pau ficou calado e manteve- se em pé.

A Lebre dá-lhe uma bofetada e a mão fica colada. A Lebre continua:

-Aí me prende, acha que não tenho outra mão?

-Dá- lhe com a outra mão, que também ficou colada.

-Está bem, disse a Lebre. Aaah! Você pensa que não tenho mais nada…

A seguir dá-lhe uma grande cabeçada e grita:

-Ioooo… ! E insiste: Pensa que já acabei?

Encosta- lhe com o peito com toda a força e fica colada. Dá- lhe um pontapé, o pé fica, dá-lhe com o outro pé, mais uma vez colada. A lebre ficou completamente colada ao Visco. Quando a Hiena chegou de manhã viu aquilo, exclamou: - Era você que me fazia isso todos os dias. Tirava os meus peixes e levava para a sua gamboa e trazia os Sapos para a minha. Finalmente peguei- você.

 


Esse conto tem uma origem muito característica da tradição oral africana (em especial da África Ocidental, região mandinga e guineense). A presença da Hiena (símbolo de ingenuidade, gula e às vezes estupidez) e da Lebre (animal astuto, trapaceiro e sempre à procura de vantagem) é comum em narrativas tradicionais contadas em Guiné-Bissau, Senegal, Serra Leoa e até em Angola, dentro dos contos bantu. O detalhe do tronco com visco lembra muito histórias da África Ocidental que atravessaram o Atlântico e deram origem ao famoso "Boneco de Piche" (Tar-Baby)", popularizado nas Américas, mas originalmente africano. Isso mostra bem como esses contos viajaram com a diáspora e mantêm o mesmo núcleo narrativo. O autor, portanto, é provavelmente anónimo, da tradição oral africana — um conto recolhido e escrito por algum compilador, mas que pertence ao povo. (grifo nosso)

 

 

MORAL DA HISTÓRIA

A esperteza usada para enganar e tirar proveito dos outros pode trazer ganhos por algum tempo, mas cedo ou tarde a verdade aparece e o enganador acaba caindo na própria armadilha. A Lebre, que sempre trapaceava para roubar os peixes da Hiena, acabou colada ao visco — prova de que a astúcia sem limites, quando usada de forma egoísta, termina em desgraça. (grifo nosso)

 

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