Antigamente, a
humanidade e todas as tribos de animais viviam juntos em uma única nação. Construíam
suas aldeias e moravam todos no mesmo lugar. No país do Rei Maseni, o Cágado e
o Leopardo ocupa- vam a mesma cidade; cada um em uma extremidade da rua.
O Leopardo tinha
duas esposas e o Cágado também.
Aquela região do
país sofria com escassez de comida. A fome castigava todas as tribos. O Rei
Maseni estabeleceu uma lei dizendo que toda caça ou comida encontradas deveriam
ser levadas até ele — para que assim fossem divididas igual- mente. Também
colocou soldados para vigiar todo o país.
A fome só aumentava. As pessoas, sem
esperança, não sabiam o que fazer e muitos morriam de fome. Assim como hoje,
esse é um mal que aflige os povos pobres, não somente da África, mas também nas
terras do Manga-Manĕne[1].
Os dias se passavam sem que ninguém encontrasse uma solução. Certo dia, o
Cágado saiu cedo de sua casa e adentrou a selva, procurando um tipo especial de
alimento: cogumelos.
— Vou seguir pela praia na direção sul —
avisou à sua esposa.
Caminhou até
encontrar um grande rio, com quilómetros de largura. Havia um coqueiro em uma
das margens e, quando o Cágado se aproximou para examinar melhor, viu que
estava repleto de cocos.
— Estou morto de fome, vou subir pelo
tronco e apanhar os frutos — disse a si mesmo.
Colocou sua bolsa
de viagem no chão e imediatamente subiu na árvore. Colheu dois e os jogou ao
chão. O terceiro escorregou de sua mão e caiu no rio que corria ao lado.
— Com a fome que tenho, não deixarei um
coco se perder na água! — exclamou o Cágado. — Vou mergulhar atrás dele.
E saltou para a
água — tchibum! Afundou no local onde o coco havia caído, mas ambos foram
apanhados pela correnteza e levados por uma boa distância até chegarem a uma
curva na qual o leito se alargava criando uma praia. Mais adiante havia um
vilarejo desconhecido onde erguia-se uma grande casa. Havia pessoas ao redor e
dentro dela. As que estavam fora chamaram o Cágado, e ele pôde ouvir alguém
gritando lá de dentro:
— Leve-me! Leve-me! (Era um tambor
falante.)
Uma mulher dava
banho em uma criança na beira do rio e perguntou:
— O que o traz aqui, Kudu? E para onde
está indo?
— Minha cidade está sofrendo com a
escassez — explicou o Cágado. — Por isso fui à floresta procurar cogumelos.
Subi em um coqueiro. Comecei a colher os cocos e deixei um cair no rio. Pulei
atrás dele e cheguei aqui.
— Então você encontrou sua salvação, Kudu!
— respondeu a mulher. — Vá até aquela casa. Lá você vai encontrar uma coisa. É
um tambor. Vá pegá-lo agora.
Uma das pessoas
do povoado acrescentou:
— Você verá várias dessas coisas lá
dentro. Não pe- gue o tambor que fica dizendo “Leve-me, leve-me”. Você deve
escolher o que não diz nada o que apenas emite o som “wo-wo-wo”. Leve-o com
você e amarre-o no tronco do coqueiro. Então diga a ele: “Ngâmâ! Faça como lhe
mandaram!”. O Cágado seguiu essas instruções. Entrou na casa, apanhou o tambor
e levou-o à beira do rio onde a mulher estava.
— Faça um teste primeiro, para aprender a
usá-lo.
Bata! — instruiu
ela.
Quando o Cágado
fez isso, instantaneamente surgiu uma mesa com vários tipos de comida. Após
comer, disse ao tambor:
— Guarde!
E a mesa
desapareceu.
O Cágado levou o
tambor diretamente para o coquei- ro. Amarrou-o ao tronco com uma corda de
fibra e então ordenou:
— Ngâmâ! Faça como lhe mandaram!
No mesmo
instante, do tambor surgiu uma longa mesa, com vários tipos de comida. O Cágado
ficou muito feliz com toda aquela abundância. Comeu até se fartar e repetiu a
ordem:
— Ngâmâ! Faça como lhe mandaram!
O tambor recolheu
a mesa, mas deixou um pouco de comida ao pé do coqueiro. Depois, voltou para as
mãos do Cágado. Kudu colocou os alimentos em sua bolsa, junto com os cocos que
havia apanhado de manhã, e tomou o caminho de volta para casa. Parou quando
estava quase chegando à cidade. Estava tão encantado com os poderes do tambor
que fez mais um teste. Bateu no instrumento outra vez. Novamente uma grande
mesa cheia de comida apareceu. O Cágado comeu uma vez mais e guardou mais um
pouco em sua bolsa. Virou-se para uma árvore que havia o lado e ordenou:
— Curve-se!
A árvore obedeceu
e ele amarrou o tambor em um galho. Ao chegar na cidade, deu os cocos e
cogumelos a suas esposas e filhos. Quando entraram todos em casa, sua esposa
principal perguntou:
— Onde você esteve todo esse tempo?
— Fui até a praia tentar colher cocos —
justificou-se ele. — E encontrei muitas coisas boas. Veja!
Abriu a bolsa e
tirou batatas, arroz e carne.
— Podemos comer, mas Njâ não deve saber
disso.
Então ele, suas
esposas e filhos fizeram uma grande refeição.
O dia escureceu
logo e foram todos dormir. O novo dia não tardaria. Ao amanhecer, o Cágado
voltou ao lugar onde havia deixado o tambor. Logo que chegou à árvore, ordenou:
— Ngâmâ! Faça como lhe mandaram!
O tambor
rapidamente desceu ao chão e fez aparecer uma mesa farta. O Cágado comeu parte
da comida até matar sua fome, depois colocou o restante em sua bolsa. Então deu
outra ordem:
— Guarde tudo!
O tambor recolheu
as coisas e voltou ao galho. No dia seguinte, ao amanhecer, o Cágado retornou à
árvore e repetiu suas ordens.
Alguns dias mais
tarde, enquanto se dirigia para o es- conderijo do tambor, seu filho mais velho
o seguiu, pois estava curioso para saber como o pai conseguia tanta comida.
Quando o Cágado chegou à árvore, seu filho se escondeu e ficou imóvel,
observando. Kudu deu o comando novamente:
— Curve-se!
E a árvore
obedeceu. O jovem testemunhou tudo, a forma como seu pai apanhou o tambor,
bateu e ordenou “Faça como lhe mandaram”.
A mesa surgiu
mais uma vez e Kudu sentou-se para comer. Ao terminar, mandou a árvore se
curvar e amarrou o tambor no galho. O tronco então se endireitou novamente.
Aquilo continuou
por mais alguns dias. O Cágado ia até a árvore, repetia o mesmo processo, comia
e voltava para casa, sempre levando comida para sua família. Seu filho, de
tanto observar escondido, já sabia o que seu pai fazia. Então foi sozinho até a
árvore e disse:
— Curve-se!
E a árvore dobrou seu tronco. O jovem repetiu
os co- mandos de seu pai e o tambor fez surgir a mesa. Depois de comer,
ordenou:
— Guarde tudo!
A mesa
desapareceu. O rapaz apanhou o tambor e, em vez de amarrá-lo no galho, levou-o
escondido para sua casa. Sem que seu pai soubesse, chamou todos os outros
membros da família. Juntaram-se todos na casa e ele repetiu os comandos ao
tambor. A comida surgiu e, terminada a refeição, o jovem ordenou ao instrumento
que guardasse tudo de volta.
Naquele dia, o
Cágado tinha ido à floresta procurar pelos cogumelos de que ele e sua família
tanto gostavam.
— Antes de voltar à cidade, vou passar no
esconderijo para comer — pensou em voz alta.
Ao se aproximar
da árvore, ainda a uma certa distân- cia, viu que ela estava reta como de
costume, mas o tambor havia sumido.
— Será que esta árvore está me pregando
uma peça?
— exclamou.
Então foi até
ela, e de fato o tambor não estava mais lá. Ainda tentou dar seu comando:
— Curve-se!
Mas nada aconteceu. Voltou à cidade, apanhou seu machado e voltou ao local.
— Curve-se ou cortarei você! — ameaçou.
A árvore
permaneceu imóvel. O Cágado começou a golpeá-la com seu machado até que ela
caiu ao chão com um estrondo.
— Me dê o tambor ou farei você em pedaços!
Cortou a árvore
em diversas partes, mas não encontrou o tambor. Decidiu voltar à cidade e, ao
caminhar, pensava ansioso, “Quem terá feito isso?’
Chegou em casa
tão desgostoso que não quis falar com ninguém. Então seu filho mais velho foi
até ele e disse:
— Meu pai, por que está tão calado? O que
aconteceu na floresta?
— Não quero conversar — respondeu Kudu.
— Você nos trouxe cogumelos, mas ficava
mais feliz quando trazia comida para nós. Fui eu que peguei o tambor.
— Meu filho, traga-o aqui agora! — mandou
o Cágado. O jovem foi pegá-lo em um quarto dos fundos e depois chamou os outros
membros da família. Reuniram-se todos na casa e deram ordens ao tambor. A mesa
apareceu como sempre e todos comeram. Os filhos menores estavam tão animados
que, ignorando o pedido de seu pai, levaram sobras de batata e carne para comer
na rua. Outras crianças viram e pediram um pouco. Entre elas estavam os filhos
do Leopardo, que foram mostrar a comida ao pai.
Na mesma hora, o
Leopardo foi até a casa do Cágado e encontrou toda a família a se fartar.
— Amigo! O que você está fazendo é errado!
— acusou o felino. — Minha família passa fome enquanto vocês se fartam.
— Não temos mais nada hoje, mas volte
amanhã e dividiremos com você — respondeu Kudu.
O Leopardo então
voltou para sua casa.
A noite logo veio
e todos se deitaram para dormir. Na manhã seguinte, bem cedo, o Cágado saiu à
rua e anunciou:
— Ninguém, seja da família de Njâ ou da
minha, irá à floresta hoje. Comeremos aqui juntos!
E foi sozinho até
o coqueiro (onde, durante a noite, havia levado o tambor sem que ninguém
visse). Quis fazer um teste para confirmar que o instrumento não havia perdido
seu poder por ter sido usado na cidade. Então deu os comandos de sempre, que
foram prontamente atendidos. Voltou para a cidade com o tambor nos ombros, à
vista de todos, e foi direto à casa do Leopardo.
— Chame toda sua família! — pediu Kudu.
Todos foram à
casa, inclusive os familiares do Cágado.
Sob as mesmas
ordens, o tambor fez aparecer uma mesa com abundância de comida. Depois de
todos comerem, a mesa
foi recolhida. O tambor ficou na casa do Leopardo por duas semanas. Usavam-no de maneira tão excessiva que o instrumento se aborreceu e, exaurido, não produzia mais nenhuma comida.
O Leopardo então
foi falar com o Cágado:
— O tambor não faz mais comida. Arranje
outro.
Kudu ficou
irritado com o mau uso de seu tambor, mas ainda assim o pegou e o guardou em
sua casa.
Os soldados do
rei ouviram rumores de que o Leopardo escondia comida em sua casa e foram
interrogá-lo:
— De onde vieram os alimentos que suas
crianças estão comendo?
— Pegaram com os filhos de Kudu —
respondeu o Leopardo.
Os vigias
voltaram imediatamente ao palácio do Rei Maseni e relataram:
— Encontramos uma pessoa que guarda
comida.
— Quem? — perguntou o rei.
— Kudu.
O soberano mandou
chamá-lo. Os soldados foram até a casa do Cágado e anunciaram:
— O rei exige sua presença.
— O que eu fiz para que o rei me chamasse?
Desde que moramos neste país, ele nunca quis falar comigo.
Mesmo assim, Kudu
resignou-se e foi até o palácio real.
— Você
anda estocando comida enquanto todas as famílias passam fome? — o rei
esbravejou. — Traga tudo o que tiver para cá!
— Peço perdão, majestade, mas não
conseguirei trazer hoje — desculpou-se o Cágado. — Convoque todas as famílias
amanhã.
Na manhã
seguinte, o rei mandou tocar o sino e anunciar que qualquer pessoa, de qualquer
idade, deveria ir até o palácio para um banquete.
Todos os animais
foram até a cidade do rei, inclusive o Cágado, levando seu tambor. Seus
parentes distantes, sem saber da existência e poderes do tambor, perguntaram se
haveria dança.
Dentro do palácio
real, o Cágado ergueu o tambor e, com uma forte batida, ordenou:
— Que apareçam todos os tipos de comida!
E assim
aconteceu. Surgiu uma mesa que se estendia por toda a cidade, com uma imensa
variedade de pratos. Todos os animais comeram o quanto conseguiram e depois
foram embora. O Cágado guardou seu tambor e voltou para casa. Ao chegar, pediu
para que sua família se reunisse. Bateu novamente no tambor. Não houve nenhum
som e nada saiu dele. Bateu novamente. Nada. O instrumento sentia-se ofendido
por ter sido tocado por outras mãos que não as de Kudu. A família passou a
noite sem comer.
No dia seguinte,
o Cágado correu até o coqueiro, escalou-o, apanhou dois cocos e jogou um
terceiro no rio. Pulou na água e seguiu o coco pela correnteza, como havia
feito antes. Chegou ao remoto vilarejo e contou à mulher sobre o que havia
acontecido com o tambor. Ela respondeu que já esperava aquilo e mandou-o pegar
um novo tambor. Kudu voltou à grande casa e reencontrou as mesmas pessoas de
antes:
— Kudu! Para onde vai?
— Vocês já sabem. Vim atrás do meu coco.
— Não! Deixe o coco e leve um tambor —
disseram.
E como da
primeira vez, aconselharam-no a pegar um tambor que não falasse. Kudu entrou na
sala dos tambores e alguns deles gritaram:
— Leve-me! Leve-me!
“Acho que desta
vez vou levar um tambor falante”, pensou o Cágado.
E assim fez. Ao
sair da casa, informou a todos que havia escolhido um tambor e que voltaria
para sua casa.
Subiu o rio até o
coqueiro. Amarrou o tambor no tronco, como antes, e com uma batida ordenou:
— Ngâmâ! Faça como sempre!
No mesmo instante surgiu uma grande mesa, mas
sobre ela, em vez de comida, havia chicotes. O Cágado ficou surpreso e repetiu:
— Como sempre!
O tambor pegou um
dos chicotes e golpeou Kudu, que gritou de dor.
— Agora, faça como sempre. Guarde tudo!
E o instrumento
recolheu a mesa e os chicotes.
“Bem que me
avisaram para não pegar um tambor falante”, pensou o Cágado, arrependido.
“Minha curiosidade custou caro.”
Apesar disso,
Kudu logo bolou um plano para se vingar do Leopardo e do rei pelos problemas
que causaram.
Levou o tambor
até sua cidade e foi à casa do Leopardo.
— Vamos com nossas famílias visitar o rei
amanhã — convidou o Cágado.
O Leopardo
alegrou-se ao ver o tambor de comida. No dia seguinte, foram até a capital e
Kudu disse ao Rei Maseni:
— Trouxe a comida que encontrei, conforme
suas ordens. Convoque todos amanhã.
Na manhã
seguinte, o rei fez soarem os sinos e toda sua corte dirigiu-se ao palácio,
juntamente com as famílias do Cágado e do Leopardo. Kudu disse a seus
familiares que não entrassem na mansão do rei, mas que esperassem do lado de
fora na janela.
— A refeição que trago hoje só poderá ser
comida dentro do palácio — anunciou o Cágado.
Após todos os
familiares do rei e do Leopardo entrarem, Kudu acrescentou:
— Só poderemos comer quando as janelas e
portas estiverem fechadas.
E todas foram
fechadas, exceto uma que Kudu man- teve aberta próxima de si. O Cágado bateu em
seu tambor e ordenou:
— Faça como te mandaram.
Surgiram várias
mesas cheias de chicotes.
— O que significa isso? — perguntaram
alguns. — Por que esses chicotes?
Kudu se
posicionou perto da janela aberta e deu o co- mando:
— Faça como sempre!
No mesmo instante
os chicotes começaram a voar pela sala, açoitando a todos, inclusive o rei. Njâ
foi um dos que mais sofreu golpes. Foi uma grande surra. A família do Leopardo
gritava de dor. Seus corpos ficaram cobertos de cortes e arranhões.
O Cágado saltou pela janela logo depois de dar
a or- dem ao tambor. Lá fora, depois de algum tempo, gritou novamente:
— Ngâmâ! Guarde tudo!
O tambor recolheu
todas as mesas e chicotes, pondo fim ao castigo. Kudu sabia que os açoitados
iriam atrás dele para matá-lo, por isso fugiu com sua família para o rio.
Pularam todos na água e se espalharam, escondendo-se atrás de raízes e troncos
submersos. O Leopardo, vendo o Cágado sumir na água, gritou ainda:
— Para sua sorte, é bom que não nos
vejamos mais! Se eu o encontrar novamente, vou matá-lo!
ROBERT
HAMILL NASSAU
Em Contos
Folclóricos Africanos Vol. 1
A partilha é essencial para a sobrevivência da comunidade.
O tambor, no início, servia para
alimentar a família de Kudu em segredo, mas quando ele o usou para repartir com
todos, trouxe alegria e fartura. A lição é que, diante da fome, a solidariedade
é mais forte que o egoísmo.
O mau uso dos dons sagrados
leva à sua perda.
O Leopardo e o rei abusaram do
tambor, explorando-o sem medida. Assim, a abundância se transformou em escassez
e castigo, mostrando que a riqueza mal utilizada destrói a si mesma.
A obediência à sabedoria
tradicional protege; a curiosidade e a desobediência punem.
O Cágado foi avisado a não pegar
o tambor falante, mas cedeu à curiosidade. Resultado: em vez de comida, vieram
chicotes. É uma metáfora africana para mostrar que ignorar conselhos dos mais
velhos e da tradição gera sofrimento.
A astúcia do fraco pode
superar o poder do forte.
Mesmo pequeno e considerado
insignificante, o Cágado conseguiu enganar o Leopardo e até o rei, mostrando um
valor típico de contos africanos: a inteligência vence a força bruta.
Interpretação no contexto
africano
O conto reflete a importância da
redistribuição de alimentos em tempos de fome, um valor profundamente africano
ligado à comunidade e ao clã.
Mostra também a desconfiança em
relação aos poderosos (reis ou animais fortes como o Leopardo), que tendem a
monopolizar recursos em vez de compartilhar.
A presença do tambor não é
casual: ele é um objecto sagrado na cultura africana, associado à comunicação
com os espíritos e à união do povo. No conto, ele se torna o mediador entre
abundância e castigo.
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