Provérbio: “Não abandones uma criança quando ela sofre.”
Era tempo de chuvas pesadas em Nsukka, e as nuvens escuras pareciam carregar não só água, mas também presságios. Ifeanyi, um menino de apenas oito anos, caiu doente. A febre queimava-lhe a testa, os lábios secavam e os olhos, antes vivos, tornaram-se opacos como vidro quebrado.
A mãe, Ngozi, desesperava. Durante dias triturou folhas, misturou raízes, rezou e cantou canções antigas para espantar os maus espíritos. Mas nada resultava. À porta da casa, os vizinhos começaram a murmurar:
— “Talvez seja castigo dos ancestrais.”
— “O menino está condenado. É melhor deixá-lo partir, ou todos sofrerão.”
As palavras espalharam-se como vento entre as palmeiras. Uns diziam que o sofrimento era sinal de feitiçaria; outros que cuidar de uma criança condenada só trazia miséria. A aldeia dividiu-se: uns já se afastavam da casa de Ngozi, outros olhavam com pena, mas sem coragem de agir.
Foi então que Onyeka, a avó, entrou. Era velha, mas os olhos brilhavam como fogo em lenha seca. Levantou-se diante da multidão e falou com firmeza:
— “Vocês esquecem o que os nossos provérbios ensinam? Não se abandona uma criança quando ela sofre! O sofrimento não é sinal de condenação, é um teste de humanidade. Quem abandona uma criança, abandona o futuro.”
O silêncio caiu sobre a aldeia. Alguns baixaram a cabeça, envergonhados, mas outros insistiam:
— “Onyeka, vais arriscar a tua vida por um menino que já não tem forças nem para respirar?”
A velha ergueu Ifeanyi, magro e febril, e pô-lo às costas. Com passos firmes, atravessou a noite chuvosa. O vento cortava, as poças de água chegavam ao tornozelo, mas ela não parou. Caminhou até à aldeia vizinha, onde vivia um curandeiro respeitado.
O curandeiro preparou poções de casca de árvore, fez rezas e ordenou repouso. Dias de incerteza seguiram-se. Ifeanyi tremia, chorava, delirava. Mas a avó nunca o deixou sozinho: vigiava as noites, cantava baixinho e alimentava-o com papa de milho. Até que, numa manhã clara, o menino abriu os olhos, sorriu e pediu água. Era o renascimento.
Anos passaram. Ifeanyi cresceu forte, estudou e tornou-se médico. Quando regressou à aldeia, muitos dos que haviam aconselhado o abandono correram a ele em busca de ajuda para seus filhos doentes. E ele tratou a todos, sem rancor.
Nessa altura, Onyeka, já de cabelos totalmente brancos, disse sorrindo:
— “Agora entendem: quando uma criança sofre, não é sinal para virar as costas, mas para mostrar amor. Hoje colhemos a dignidade de não termos desistido.”
MORAL DA HISTÓRIA
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