NARRAÇÃO

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

43 - O MENINO E A CHUVA

 

Provérbio: Não abandones uma criança quando ela sofre.”

 

Era tempo de chuvas pesadas em Nsukka, e as nuvens escuras pareciam carregar não só água, mas também presságios. Ifeanyi, um menino de apenas oito anos, caiu doente. A febre queimava-lhe a testa, os lábios secavam e os olhos, antes vivos, tornaram-se opacos como vidro quebrado.

A mãe, Ngozi, desesperava. Durante dias triturou folhas, misturou raízes, rezou e cantou canções antigas para espantar os maus espíritos. Mas nada resultava. À porta da casa, os vizinhos começaram a murmurar:

— “Talvez seja castigo dos ancestrais.”

— “O menino está condenado. É melhor deixá-lo partir, ou todos sofrerão.”

As palavras espalharam-se como vento entre as palmeiras. Uns diziam que o sofrimento era sinal de feitiçaria; outros que cuidar de uma criança condenada só trazia miséria. A aldeia dividiu-se: uns já se afastavam da casa de Ngozi, outros olhavam com pena, mas sem coragem de agir.

Foi então que Onyeka, a avó, entrou. Era velha, mas os olhos brilhavam como fogo em lenha seca. Levantou-se diante da multidão e falou com firmeza:

— “Vocês esquecem o que os nossos provérbios ensinam? Não se abandona uma criança quando ela sofre! O sofrimento não é sinal de condenação, é um teste de humanidade. Quem abandona uma criança, abandona o futuro.”

O silêncio caiu sobre a aldeia. Alguns baixaram a cabeça, envergonhados, mas outros insistiam:

— “Onyeka, vais arriscar a tua vida por um menino que já não tem forças nem para respirar?”

A velha ergueu Ifeanyi, magro e febril, e pô-lo às costas. Com passos firmes, atravessou a noite chuvosa. O vento cortava, as poças de água chegavam ao tornozelo, mas ela não parou. Caminhou até à aldeia vizinha, onde vivia um curandeiro respeitado.

O curandeiro preparou poções de casca de árvore, fez rezas e ordenou repouso. Dias de incerteza seguiram-se. Ifeanyi tremia, chorava, delirava. Mas a avó nunca o deixou sozinho: vigiava as noites, cantava baixinho e alimentava-o com papa de milho. Até que, numa manhã clara, o menino abriu os olhos, sorriu e pediu água. Era o renascimento.

Anos passaram. Ifeanyi cresceu forte, estudou e tornou-se médico. Quando regressou à aldeia, muitos dos que haviam aconselhado o abandono correram a ele em busca de ajuda para seus filhos doentes. E ele tratou a todos, sem rancor.

Nessa altura, Onyeka, já de cabelos totalmente brancos, disse sorrindo:

— “Agora entendem: quando uma criança sofre, não é sinal para virar as costas, mas para mostrar amor. Hoje colhemos a dignidade de não termos desistido.”

 

 

MORAL DA HISTÓRIA

 O provérbio nigeriano “Não abandones uma criança quando ela sofre” ensina-nos que a vulnerabilidade não é motivo de rejeição, mas de maior cuidado. Uma criança que sofre precisa de mãos firmes e corações atentos, porque é muitas vezes no sofrimento que se forja a força do futuro. Na prática, devemos lembrar que cada criança merece proteção, apoio e esperança, mesmo quando parece frágil ou sem saída. Cuidar dela é investir num amanhã mais humano e justo, pois o que hoje parece fraqueza pode transformar-se, amanhã, em bênção para muitos.

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